O fundo do poço não terá fim?
por Daniel Costa
No dia 05 de dezembro de 1963 o jornal Diário de Notícias estampava a seguinte manchete: “Luta no Senado matou suplente que sairia no próximo sábado”, já o Última Hora, era exposto nas bancas informando os leitores que ocorrera uma: “Tragédia no Senado. Tiro de Arnon matou colega”.
Já o diário lacerdista Tribuna da Imprensa, prometia explicar ao leitor, os detalhes do crime que agitou o Senado e o país, por fim o Jornal do Brasil e o Diário de Notícias apresentavam manchetes parecidas destacando a morte do senador acreano José Kairala ocorrida no dia anterior em plena sessão do Senado.
A renhida disputa local travada pelos senadores Silvestre Pericles de Góis Monteiro e Arnon de Melo teria seu prometido desfecho na capital federal em pleno parlamento. A discussão que até aquele momento era restrita ao discurso escalou de tal forma que os parlamentares trocaram tiros em meio ao plenário, o confronto acabaria vitimando o parlamentar.
Quando ocorre o crime temos um país dividido, menos de seis meses após o fato, o governo João Goulart é derrubado pelo golpe civil-militar que mergulharia o país nas sombras do arbítrio. A disputa política era vista também nas páginas da imprensa, jornais como O Globo, Luta Democrática e Tribuna da Imprensa veiculavam o discurso golpista, enquanto o Última Hora resistia na defesa do projeto nacionalista de Goulart. Defensores de programas distintos, os jornais se unificaram ao denunciar o crime cometido pelo senador Alagoas.
Avançamos para 2024, especialmente para a última semana, momento em que aquele que dedicou parte do seu tempo para acompanhar algumas das comissões da Câmara dos Deputados teve o desprazer de acompanhar uma mostra do pior na política contemporânea, parlamentares usando das suas prerrogativas para provocar opositores e gerar conteúdos para suas redes sociais em busca de maior engajamento e monetização, renunciandio a qualquer debate sério, por mais que haja antagonismo entre os sujeitos.
Não citarei o nome daqueles que compõe essa verdadeira falange da anti polítca e do ódio, afinal a atuação do ruidoso grupelho é notória. Mais importante que citar esses indigentes de moral e caráter, é citar a indignação ao ver uma parlamentar como Luiza Erundina sair do plenário direto para o hospital, o deputado Ivan Valente ser vítima de falas etaristas, a transfobia cotidiana sofrida por Erika Hilton e Duda Salabert e a violência quase diária enfrentada por aqueles que propõem fazer a grande política, e não uma “política’, minúscula e entre aspas.
Infelizmente a violência política vem sendo contemporizada pela dita imprensa hegemônica que apenas notícia as agressões mais violentas, sem problematizar o fato, atitude que mesmo a revelia acaba avalizando tamanha barbárie, tudo em nome de uma suposta domesticação da extrema-direita visando 2026, diante do fracasso da construção de uma terceira via os donos do poder parecem querer repetir 2018 e apoiar um fascista com punhos de renda para barrar um governo democrático e popular, por mais que o mesmo às vezes procure acenar mais para esse campo que para sua base histórica.
Também não podemos eximir de responsabilidade a presidência da Câmara, que na busca da consolidação da sua influência para além de Alagoas (por coincidência terra dos citados Arnon e Góis Monteiro) segue de um lado, achacando o governo em busca de cargos e emendas, e do outro abrindo espaço para a bancada bolsonarista – (sua bancada, na verdade), não esqueçamos do seu apoio condicional ao “imbrochável”, “imorrível” e por hora inelegível em 2022 – quebrar todo o decoro possível.
Sou do time que ainda sonha com o dia em que teremos uma figura como a deputada Erika Hilton ocupando a presidência da República, porém ao colocar as lentes da realidade, vejo no horizonte a triste imagem do lacrador mineiro ou do coach picareta. Infelizmente o Brasil segue sendo exterminado pelo Brazil, com a complacência de muitos.
Daniel Costa é historiador, pesquisador, compositor e integrante do G.R.R.C Kolombolo Diá Piratininga.
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