21 de maio de 2026

Esquerdismo, Direitismo e Abordagem Sistêmica da Complexidade, por Fernando Nogueira da Costa

Há um fenômeno chamado de ilusão de adequação das informações. As pessoas presumem ter todas as informações necessárias para uma decisão
Cartaz do festival de cinema brasileiro em Paris - 2016

Esquerdismo, Direitismo e Abordagem Sistêmica da Complexidade

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por Fernando Nogueira da Costa

Terminei a leitura de textos sugeridos para um seminário no sentido de compreender as mudanças recentes do capitalismo contemporâneo: Nancy Fraser. Capitalismo Canibal (2024);  Grégoire Chamayou. A sociedade ingovernável: Uma Genealogia do Liberalismo Autoritário (2020); Bifo Beraldi. Hipercapitalismo e Semiocapital (14/09/24); Daniel Pereira Andrade. O que é Neoliberalismo (2019).

Logo, fiquei inspirado a dar um comando ao ChatGPT: “prepare um texto malcozido à esquerda, cuja base seja a denúncia do capitalismo e os complementos sejam a crítica não construtiva do neoliberalismo, juntamente com as denúncias da globalização, da desindustrialização e da financeirização. Tempere com as bandeiras de luta do identitarismo (feminismo, antirracismo, homofobia e defesa dos transgêneros) e dê um green washing do ambientalismo”.

Em segundos, a Inteligência Artificial respondeu com um texto esquerdista de duas páginas, doze parágrafos e cinquenta linhas. Antagonizou “uma pequena elite” e “a submissão da imensa maioria a condições de trabalho precarizadas e desumanas”.

Correlacionou o neoliberalismo com uma política de desregulamentação. Acusou os grandes conglomerados empresariais de “se beneficiarem da flexibilização das leis e da privatização dos bens públicos”, bem como “a globalização como o veículo perfeito para o domínio econômico de corporações transnacionais”.

Acrescentou: “elas saqueiam os recursos naturais dos países mais pobres e transformam essas nações em meros fornecedores de matéria-prima e mão de obra barata”. A globalização “trouxe para muitos países a desindustrialização”, inclusive o Brasil “importa aquilo antes produzido”. Quanto à financeirização da economia”, além de receber outros adjetivos desabonadores, é acusada: “intensifica a especulação” e tira “espaço para a economia produtiva”.

Em contraponto, louva a “ascensão de movimentos identitários”. Cita o feminismo, o antirracismo, a luta contra a homofobia e a defesa dos direitos dos transgêneros. Seus alvos são “o patriarcado, o racismo estrutural e a cisheteronormatividade [?!]”.

Expõe um “bode expiatório”: “enquanto a maioria das mulheres, pessoas negras e LGBTQIA+ vivem à margem, exploradas em trabalhos precários, um pequeno grupo de homens brancos cisgêneros segue acumulando privilégios”. Enquanto tudo isso acontece, “o capitalismo finge se preocupar com o meio ambiente, promovendo um greenwashing [‘banho verde’] clínico”. Para a IA, “os verdadeiros responsáveis ​​pela crise climática estão mais interessados ​​em lucrar com a venda de ‘soluções sustentáveis’ em vez de enfrentar a raiz do problema: o próprio capitalismo”.

Conclui: “a luta é, portanto, múltipla: contra o neoliberalismo (…), a globalização (…), contra a financeirização (…); e a favor da justiça social (…). A revolução não será só verde, nem apenas identitária: será o colapso total do sistema opressor”.

Visto como é fácil ser esquerdista, eu disse ao ChatGPT: “prepare um texto com um cozido à direita juntando a defesa da liberdade de mercado com iniciativa particular, empreendedorismo, igualdade de oportunidades e meritocracia, temperando com nativismo e desigualdade natural em defesa do capitalismo”.

Em segundos, a IA respondeu com um texto com teor direitista. “O capitalismo, ao contrário daquilo insistido em propagar por seus críticos, é o sistema econômico mais promotor de liberdades na história”. Justifica: “através da defesa da liberdade de mercado, as pessoas têm a oportunidade de empreender (…) e de colher os frutos de seus esforços”.

Com anticomunismo, critica “os regimes autoritários sufocantes da iniciativa individual”. O capitalismo sim “oferece a plataforma ideal para o mérito, a inovação e a competência serem devidamente recompensados”. A meritocracia floresce “em um ambiente de mercado livre”.

Defende “a igualdade de oportunidades, e não de resultados”. Critica “a tentativa de nivelar artificialmente a sociedade, redistribuindo riqueza de forma coercitiva”. Esse inútil combate à desigualdade “sufoca a criatividade e cria uma dependência do Estado, impedindo as pessoas de explorarem todo o seu potencial”.

Com o empreendedorismo “o indivíduo pode (…) criar seu próprio caminho e contribuir para a economia como um todo” por meio de “pequenas e médias empresas”. Naturalmente, “as pessoas são diferentes em talentos, ambições e capacidades”.

Acrescenta: “cada pessoa tem habilidades únicas”. Por isso, “tentar igualar todos à força, desconsiderando as diferentes inclinações e habilidades, é uma negação da própria natureza humana”.

Parece falar em nome de Donald Trump ao pregar o nativismo: “um país forte é aquele promotor de uma iniciativa livre de seus cidadãos”. Neste contexto, “a defesa do nativismo é a defesa de políticas para colocar os interesses nacionais em primeiro lugar”. Por fim, “o capitalismo é o único sistema capaz de entender e valorizar a diferença natural entre os indivíduos e oferecer um ambiente de liberdade onde todos podem prosperar de acordo com seus méritos”.

Bastou-me para eu ordenar ao ChatGPT: “prepare um texto com abordagem sistêmica da complexidade emergente das interações econômicas e financeiras entre os diversos componentes socioeconômicos como setores institucionais – famílias, empresas não financeiras, governos, bancos e o resto do mundo – no cenário econômico capitalista contemporâneo de modo a orientar estudantes de Ciência Econômica a entenderem o atual contexto em sua formação educacional para a vida profissional”.

Em segundos, a IA respondeu com uma visão mais adequada à realidade. Revelou as complexidades dessas interações e suas consequências para a sociedade e a economia global ao dividir sua exposição em cinco tópicos: 1. Famílias: Unidade de Consumo e Acumulação de Riqueza; 2. Empresas Não Financeiras: Produção e Investimento; 3. Governos: Reguladores e Redistribuidores; 4. Bancos e o Sistema Financeiro: Facilitação do Crédito e Gestão de Dinheiro; 5. Resto do Mundo: Comércio e Fluxos de Capital. Fez uma análise de fluxos e estoques entre eles.

“Esses setores não agem de maneira isolada, mas interagem continuamente, criando características emergentes. Moldam a trajetória do sistema como um todo. Pequenos desequilíbrios em um setor podem desencadear crises sistêmicas em outros”.

Para os estudantes de Economia e áreas afins estarem preparados para ter atividade profissional nesse cenário complexo, “é fundamental desenvolverem uma visão holística e interconectada da economia. Uma abordagem sistêmica permitirá enxergar não apenas as partes individuais do sistema, mas as interações e retroalimentações ocorridas entre elas”.

Salienta o capitalismo contemporâneo estar longe de ser estático. “Ele evolui em resposta a forças endógenas (inovação tecnológica, mudanças demográficas) e exógenas (choques globais, crises ambientais). Compreender essas dinâmicas permite uma abordagem mais adaptativa e resiliente, essencial para o planejamento e a formulação de políticas públicas e empresariais em um mundo cada vez mais interconectado e volátil”.

A conclusão é a necessidade da educação econômica e financeira moderna ir além da análise simplista do esquerdismo ou do direitismo, “incorporando uma visão sistêmica capaz de reconhecer a complexidade emergente das interações entre os setores institucionais. Ao entender o funcionamento interdependente de famílias, empresas, governos, bancos e o resto do mundo, os estudantes poderão depois atuar profissionalmente de forma crítica e eficaz em um cenário global marcado por incertezas, crises e transformações rápidas.”

Diante as eleições, ocorrendo no mundo ocidental, cuja caricatura desenhada do eleitorado é a divisão entre “o pobre de direita” e “a elite universitária de esquerda”, vale refletir sobre a conclusão de um estudo recente: quando as pessoas têm apenas informações parciais, contrárias ou favoráveis a um determinado assunto, elas tendem a tomar posição de forma mais contundente diante aquelas sabedoras dos “dois lados da história”, ou seja, de sua complexidade.

“Se você der às pessoas algumas informações aparentemente alinhadas, a maioria dirá ‘isso parece certo’ e seguirá com esse pensamento”, disse Angus Fletcher, coautor do estudo. “Em geral, as pessoas não param para pensar se há mais informações [fora da bolha] capazes de lhes ajudar a tomar uma decisão melhor”.

Os pesquisadores chamaram esse fenômeno de ilusão de adequação das informações. As pessoas presumem ter todas as informações necessárias para tomar uma decisão, no caso, de seu voto, mesmo quando não as têm.


Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: fernandonogueiracosta@gmail.com

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepautaggn@gmail.com. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Fernando Nogueira da Costa

Fernando Nogueira da Costa possui graduação em Economia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG (1974), mestrado (1975-76), doutorado (1986), livre-docência (1994) pelo Instituto de Economia da UNICAMP, onde é docente, desde 1985, e atingiu o topo da carreira como Professor Titular. Foi Analista Especializado no IBGE (1978-1985), coordenador da Área de Economia na Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo – FAPESP (1996-2002), Vice-presidente de Finanças e Mercado de Capitais da Caixa Econômica Federal e Diretor-executivo da FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos entre 2003 e 2007. Publicou seis livros impressos – Ensaios de Economia Monetária (1992), Economia Monetária e Financeira: Uma Abordagem Pluralista (1999), Economia em 10 Lições (2000), Brasil dos Bancos (2012), Bancos Públicos do Brasil (2017), Métodos de Análise Econômica (2018) –, mais de cem livros digitais, vários capítulos de livros e artigos em revistas especializadas. Escreve semanalmente artigos para GGN, Fórum 21, A Terra é Redonda, RED – Rede Estação Democracia. Seu blog Cidadania & Cultura, desde 22/01/10, recebeu mais de 10 milhões visitas: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/

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  1. Antonio Uchoa Neto

    21 de outubro de 2024 9:54 am

    O que é necessário, prezado Fernando, é que não só os artistas, mas os intelectuais, estudiosos, acadêmicos, vão aonde o povo está. Morar, residir, 24 horas por dia, em um bairro pobre, como o meu, vivendo com a renda média dessa gente (pouco mais que o salário mínimo, como eu), e ao largo, absolutamente, de todas essas elucubrações que você enumerou. Garanto a você que a existência do “pobre de direita” vai deixar de ser um enigma, porque é a coisa mais fácil de entender, nesse mundo: é só somar a ignorância e desinformação, com a vontade (desejo, ambição) de ser rico, e pronto. E antes que eu me esqueça, o primeiro passo é esquecer essa desgraça dessa IA. Pelo menos enquanto você estiver aqui, conosco.

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