Há um ano, militar da Funai estimulava armas em área de desaparecimento de Bruno e Dom

Tenente do Exército a cargo da Funai no Vale do Javari estimulou "meter fogo" nos indígenas isolados, no ano passado

Em reunião com Bruno Pereira (de costas), indígenas Matís e Marubo reivindicavam atacar povos isolados, em 2016 – Foto: CGIIRC/Funai

O desaparecimento do indigenista Bruno Araújo Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips, na região do Vale do Javari, na Amazônia, é resultado de omissões e gestos políticos contra povos indígenas do atual governo junto aos órgãos e entidades.

A conclusão das organizações indígenas também se constata em episódios de lideranças nomeadas pelo atual governo junto à Funai. Há pouco mais de um ano, o próprio coordenador da Funai no Vale do Javari, a mesma região de conflito que ocorreu o desaparecimento, falava em “meter fogo” em indígenas isolados na área.

Um áudio obtido à época por reportagem da Folha mostrava o tenente da reserva do Exército, Henry Charlles Lima da Silva, incentivando indígenas do povo marubo a disparar e matar indígenas isolados.

O militar estava na aldeia Vida Nova, na região do Rio Ituí, em 23 de junho, quando disse: “Eu vou entrar em contato com o pessoal da Frente [de Proteção Etnoambiental] e pressionar: ‘Vocês têm de cuidar dos índios isolados, porque senão eu vou, junto com os marubos, meter fogo nos isolados’.”

Henry Charlles Lima da Silva era o coordenador da Funai na região, nomeado pelo governo Bolsonaro. Na reunião com os indígenas, estimulou a violência entre os povos: “Não estou aqui pra desarmar ninguém, também não estou aqui pra ser falso e levantar bandeira de paz. Eu passei muito tempo da minha vida evitando a guerra, mas se a guerra vier, nós também não vamos correr. Se vierem na terra de vocês, vocês têm todo o direito de se defender.”

Ainda, durante o encontro, o tenente chegou a admitir que Jair Bolsonaro não atuava diretamente na área indígena “por questões ideológicas” e porque a Apib [Articulação dos Povos Indígenas do Brasil] denunciaria o governo Bolsonaro.

O estímulo do representante da Funai ao povo Marubo, na região do Vale do Javari, de promover uma guerra e de “meter fogo” contra indígenas isolados, foi abafado pelo governo à época com a demissão do então coordenador da Funai. Naquele áudio, Henry Charlles Lima da Silva, contudo, também havia admitido as intenções diretas do governo na área.

Coincidentemente, naquele mesmo período, a Funai retirou as armas de fogo de uma das bases de proteção do órgão na Terra Indígena (TI) do Vale do Javari. A informação foi repassada pelo jornal Metrópoles, com base em uma representação da Univaja à Procuradoria do Amazonas no ano passado.

Assim, enquanto o tenente Henry Charlles estimulava o uso de armas pelos indígenas locais contra os povos isolados, ele próprio desarmou a sede da Funai de proteção aos indígenas.

Ainda, a nomeação do tenente ao cargo foi uma escolha de Marcelo Xavier, delegado da Polícia Federal que é o presidente da Funai nomeado por Bolsonaro em julho de 2019.

Um dossiê preparado pelo Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos), em parceria com a ONG Indigenista Associados (INA), e divulgado nesta segunda (13) pelo The Intercept, mostra como Xavier e Álvaro Simeão, o advogado-Geral da União, manipularam normativas internas da Funai e modificaram outras para impedir as demarcações de terras indígenas.

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Para efetivar essa anti-política indígena na Funai, Xavier não só nomeou Henry Charlles Lima da Silva, como trocou 37 das 39 coordenações regionais da Funai, alçando nestes postos militares, policiais e aliados dessa política.

Na reportagem, o Intercept conversou com servidores da Funai, que denunciaram que Bruno era perseguido quando trabalhava na Fundação.

“Ninguém nunca disse abertamente, mas ele [Bruno] começou a ser perseguido depois que uma ação que coordenou destruiu 60 balsas usadas por garimpeiros ilegais. Um golpe contra Bruno é um golpe em todos nós”, disse ao jornal.

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