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Infodemia e a vacina social para imunizar o Brasil, por César Vieira

Precisamos compreender o funcionamento da comunicação e a relevância da colaboração e do conhecimento coletivo, principalmente em crise

Magritte

Infodemia e a vacina social para imunizar o Brasil

por César Vieira

Estratégias para imunizar a sociedade e fortalecer nossa democracia

Em 2020, o periódico português “O Público” publicou um artigo da jornalista Andrea Cunha Freitas intitulado “As células imunitárias ‘conversam’ antes de tomar uma decisão[1], no qual a autora discorre sobre como as células do nosso sistema imunológico agem de forma semelhante a nós, seres humanos, buscando consensos e informações antes de tomar decisões. Assim como as células, nós também precisamos compreender o funcionamento da comunicação e a relevância da colaboração e do conhecimento coletivo, principalmente em tempos de crise, quando a desinformação é disseminada por redes organizadas, que utilizam de um modus operandi muito parecido com o utilizado pelos vírus para se propagarem, o que pode prejudicar não apenas a saúde pública, mas todo o tecido social.

A recente crise de escabiose[2], popularmente conhecida como sarna, que atingiu creches em Santa Catarina, reacendeu o alerta sobre a importância da saúde pública e do combate às fake news, especialmente após o uso desenfreado de cloroquina durante a pandemia[3]. A cloroquina, inicialmente utilizada no tratamento da malária, tornou-se um símbolo da desinformação nas redes sociais, com graves consequências para a saúde pública.

As notícias falsas infiltraram-se nas comunidades como qualquer vírus ou bactéria, utilizando os usuários como células hospedeiras no intuito de se replicarem e atingirem novos alvos. A desinformação deliberada enfraquece o sistema de defesa da sociedade, tornando-a mais vulnerável a crises sociais epidemias de doenças que carecem de ações coletivas para serem combatidas. Assim como um organismo com baixa imunidade é mais suscetível a infecções, uma sociedade mal informada é mais propensa a tomar decisões equivocadas, baseadas em informações falsas, o que pode levar a consequências devastadoras para a saúde pública, a economia e a democracia. Um bom exemplo recente disso é a disseminação de notícias sobre o PL 1904/2024, apelidado de “PL do Estuprador”, que distorce a real necessidade de um debate sobre o aborto como caso de saúde pública e manipula a opinião popular, gerando medo e confusão em torno de um tema sensível e crucial para os direitos das mulheres. Essa manipulação deliberada da informação coloca em risco a segurança e o bem-estar de vítimas de violência sexual, além de enfraquecer o debate e a busca por soluções justas e eficazes.

A crise em Santa Catarina também não é um caso isolado. Pesquisas científicas[4] já demonstraram a correlação entre a desinformação[5] e o aumento de casos de doenças evitáveis por vacinação[6], como sarampo e poliomielite, entre outras enfermidades. A hesitação vacinal, muitas vezes alimentada por notícias falsas e teorias da conspiração, coloca em risco o sistema de saúde e o sucesso de programas de imunização. Ou seja, a propagação da desinformação não se limita a um problema individual, mas representa uma ameaça coletiva, com potencial para desencadear surtos e epidemias. Essa ameaça é ainda mais preocupante em regiões com poucos veículos de informação local, os chamados “desertos de notícias[7], onde a ausência de jornalismo profissional facilita a disseminação de informações falsas advindas das redes sociais e que encontram terreno fértil para se espalharem sem o devido contraponto e checagem de fatos.

A desinformação orquestrada atua como um parasita da democracia, corroendo a confiança nas instituições e nos processos eleitorais. Ao semear dúvidas e polarização, as fake news criam um terreno fértil para o populismo e o autoritarismo, que se aproveitam da instabilidade social para concentrar poder. A manipulação da informação, utilizada como arma política desde muito antes de existir a internet, enfraquece o debate público e impede a construção de consensos essenciais para o funcionamento de uma sociedade democrática. As mentiras deliberadas são verdadeiros atentados contra os pilares democráticos, que dependem da participação cidadã informada e da confiança nas instituições para prosperar.

No entanto, se desinformação deliberada é uma doença, precisamos pensar numa vacina que combata esse verdadeiro sistema desinformação social. Uma proposta interessante seria adotarmos uma estratégia similar à experiência mexicana, porém adaptada à nossa realidade. A ideia é estabelecer polos locais de combate à desinformação, que atuariam como “células de defesa” contra as fake news. Esses núcleos não apenas verificariam a veracidade das informações, mas também amplificariam notícias confiáveis e relevantes, funcionando como um contraponto ao sistema de desinformação existente.

Essa abordagem se assemelha à ação das vacinas de RNA mensageiro (mRNA)[8], que atuam no nível celular para fortalecer o sistema imunológico. Assim como esses imunizantes fornecem às células instruções para produzir proteínas virais específicas, os núcleos de combate à desinformação forneceriam à sociedade informações precisas e confiáveis, “ensinando-a” a identificar e combater a desinformação.

No caso das vacinas de mRNA, a informação genética do vírus é introduzida na célula, que passa a produzir proteínas virais. Essas proteínas são então reconhecidas pelo sistema de defesa, que desenvolve uma resposta específica contra o vírus. De forma análoga, os núcleos de combate à desinformação introduziriam na sociedade informações verdadeiras e relevantes, que seriam “reconhecidas” e “assimiladas” pelos cidadãos, fortalecendo sua capacidade de identificar e rejeitar a desinformação.

Assim como as vacinas de mRNA preparam o sistema de defesa para combater futuras infecções, os núcleos de combate à desinformação preparariam a sociedade para resistir à manipulação e à desinformação, promovendo uma cultura de pensamento crítico e de valorização da informação confiável.

Essa estratégia descentralizada e capilarizada permitiria alcançar diversas comunidades, adaptando-se às suas particularidades e necessidades. Os núcleos de combate à desinformação atuariam como verdadeiros “agentes de imunização” da sociedade, fortalecendo sua resiliência e capacidade de resistir à desinformação, assim como as vacinas de mRNA fortalecem o sistema imunológico contra doenças.

A estratégia adotada nas eleições realizadas no México em 2024 tinha como base a resistência local na atuação contra as fake news. A esquerda mexicana contou com um número considerável de voluntários que atuaram como verdadeiros “fiscais da verdade”, identificando e denunciando notícias falsas. Além disso, o país investiu em educação midiática, capacitando os cidadãos a discernir informações inverídicas e a buscar fontes confiáveis.

A criação de uma rede de verificação de fatos no México encontra certo paralelo no Programa de Saúde da Família (PSF) brasileiro[9], que dissemina informações confiáveis sobre saúde por meio de seus profissionais e materiais educativos. Ambas as iniciativas visam fortalecer a capacidade da população de tomar decisões informadas, seja sobre sua saúde ou sobre questões sociais e políticas. Essa abordagem multifacetada, que combina ações governamentais com a mobilização da sociedade e o investimento em educação, demonstra ser promissora, tanto no combate à desinformação quanto na promoção da saúde e do bem-estar da população.

A vacina contra os sistemas desinformativos está nas ações de resistência local, no combate no território, na construção de uma rede de “células de defesa” que fortaleçam o sistema imunológico da sociedade contra o vírus da mentira. Assim como as vacinas de mRNA revolucionaram a medicina, a imunização social contra a desinformação pode revolucionar a forma como nos relacionamos com a informação e com a democracia. Afinal, uma sociedade bem informada e crítica é a base para um futuro mais justo, equitativo e democrático. A informação verdadeira é a arma mais poderosa contra a manipulação e o autoritarismo. Que possamos, então, construir juntos essa rede de resistência, essa “vacina social”, para proteger a nossa democracia e garantir um futuro mais promissor para as próximas gerações.

César Vieira é formado em comunicação social com especialização em jornalismo pela PUC-SP, documentarista, codiretor, ao lado de Conrado Ferrato e Rafael Crespo, dos filmes “Limpam com Fogo[10] e “Quem Mora Lá[11] e assessor de comunicação da Rede BrCidades[12].


[1]     https://www.publico.pt/2020/02/15/ciencia/noticia/celulas-imunitarias-conversam-tomar-decisao-1904204.

[2]     https://jornalfloripa.com.br/pagina/1625424.

[3]     https://www.cartacapital.com.br/cartaexpressa/ministerio-da-saude-reconhece-ineficacia-da-cloroquina-e-do-kit-covid/.

[4]     https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2023-09/desinformacao-sobre-vacinas-se-comporta-como-epidemia.

[5]     (https://portal.fiocruz.br/noticia/em-entrevista-pesquisador-fala-sobre-como-desinformacao-afeta-saude.

[6]     (https://www.bio.fiocruz.br/index.php/en/noticias/1883-a-pandemia-da-desinformacao.

[7]     https://www.cartacapital.com.br/blogs/br-cidades/por-uma-politica-de-reflorestamento-dos-desertos-de-noticias/

[8]     https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-com-ciencia/noticias/2023/outubro/vacinas-de-rna-sao-seguras.

[9]     https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/estrategia-saude-da-familia.

[10]   https://www.youtube.com/watch?v=CNka4E8Y5L0.

[11]   https://www.youtube.com/watch?v=72Xh86CcEjQ.

[12]   www.brcidades.org

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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