11 de junho de 2026

Letras, juros e política revolucionária, por Francisco Celso Calmon

A autonomia do Banco Central em relação ao governo é uma realidade, mas a independência do BC em relação ao mercado é uma balela.

Letras, juros e política revolucionária

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por Francisco Celso Calmon

Os intelectuais acadêmicos contribuem muito para a teoria, mas, nem sempre para a política de agitprop. Criam conceitos, termos e modismos, que, para a política revolucionária, muitas vezes, produzem divisões desnecessárias.

Pós marxismo deu lugar a nada, não surgiu nenhuma teoria  que superasse o marxismo, inobstante a soberba de alguns intelectuais em seus ensaios; burguesia deu lugar a empresariado, os adeptos da conciliação de classes passaram a evitar falar em burguesia; proletariado deu lugar a trabalhadores, como se operariado fosse sinônimo de proletariado, sendo que são conceitos distintos; reformismo passou a ser revolução social sem revolução política, ou seja: sem empoderamento e assunção do poder pelos trabalhadores; imperialismo passou a ser supremacismo, como conceito pós a teoria leninista – imperialismo, estágio superior do capitalismo, como se a ideologia ou a crença de um grupo determinasse os interesses de classes inerentes ao capitalismo e a luta como motor da história, como se a superestrutura independesse da estrutura econômica.  

Evidente que as palavras também evoluem, ganham amplitude, conceitos de uma ciência são aplicados em outras teorias, tudo isso são manifestações enriquecedoras e ganham periodicamente um certo modismo, como “narrativa”, “viés”, até os surgimentos de novos.

Darwinismo social, malthusianismo imperialista, lawfare, são exemplos apropriados desse enriquecimento linguístico e teórico.  

Contudo, nas atividades de formação, organização e participação da militância na luta de classes, acabam por empobrecer ou até anatemizar teorias já consagradas pela história.

É como o conceito de correlação de forças, que vem servindo como apanágio para imobilizar avanços, e não como parâmetro para avaliar o quanto avançar ou recuar. 

Examinar a paridade de armas não significa tornar a correlação de forças em bordão axiomático, que dispensa debate.  Pelo contrário, deve ganhar centralidade nas análises e debates.

Quando falamos em revolução, logo surge muitos a dizer que não há condições, e estão corretos, erram quando censuram e excomungam, porque fazer revolução na atualidade é pregar a sua necessidade e não a sua realização a curto prazo.

Se não pregar a sua necessidade, quando fará?  Pregar no presente para preparar a etapa de fazer.

Assim, compreendo ser o dever do revolucionário, que não se revela somente às portas de explodir a revolução.  

O cientista usa do método da abstração da realidade concreta, faz ensaios, laboratórios, teoriza e põe à comprovação, contudo, quando desce à realidade política concreta, deve pensar no que vai produzir para a luta de classes. 

Ser revolucionário é ir às raízes, às causas mais profundas, é ser radical, que não se confunde com o extremismo moralista e muito menos com o esquerdismo doença infantil do comunismo.

Não poderia encerrar sem comentar um pouquinho sobre o aumento dos juros, por unanimidade, pelo COPOM.

10,75% a nova SELIC. Para quê COPOM, se o mercado já tinha adiantado o aumento de 0,25 há duas semanas?

A autonomia do Banco Central em relação ao governo é uma realidade, mas a independência do BC em relação ao mercado é uma balela.

O BC, criado na ditadura militar em 31 dezembro de 1964, ganhou autonomia em 24 de fevereiro de 2021 durante o governo militarizado bolsonarista, se tornou no bunker do capitalismo financeiro dentro do Estado.

A economia brasileira precisa crescer para eliminar a miséria e o desemprego.

Mas na ideologia do BC isso traz inflação. Daí a fórmula primitiva: aumentar os juros para frear investimentos e consumo.

Não há modelo matemático no mundo capaz de prever e corrigir a irracionalidade do capitalismo, para tanto, enquanto viger, dependerá dos gestores e de suas concepções e compromissos políticos e ideológicos.

Com o aumento dos juros, quem perde senão o país e o povo trabalhador, e quem ganha, senão e unicamente os rentistas?

Esse aumento foi festejado pela mídia golpista, Globo, Estadão e Folha, como vitória da coesão do mercado com o COPOM.

Vivemos uma fagocitose financeira, o mercado engole o governo. Ocorre que não tem cidadania, pois não possui nem CPF e nem CNJ.

Cercado pelos três êmes internos (mídia, militares, mercado) e pelo i externo (imperialismo), e minado por dentro do próprio governo, Lula, está sob um fio de alta tensão e prestes a ceder mais: submeter-se aos EUA assumindo o papel de subimperialista na América do Sul, e submeter-se, mais candidamente, ao mercado, com a presidência do BC por um quadro por ele indicado, sobre o qual não poderá criticar, visto que recairia a responsabilidade sobre si mesmo, pela eventual equivocada escolha.    

É necessário que os pensadores e formuladores progressistas abram um debate nacional até a próxima eleição de 2026 sobre o papel do Banco Central, antes que perdure essa fagocitose

Francisco Celso Calmon, analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.

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Francisco Celso Calmon

Francisco Celso Calmon, Analista de TI, administrador, advogado, autor dos livros Sequestro Moral – E o PT com isso?, Combates Pela Democracia, 60 anos do golpe: gerações em luta, Memórias e fantasias de um combatente; coautor em Resistência ao Golpe de 2016 e em Uma Sentença Anunciada – o Processo Lula. Coordenador do canal Pororoca e um dos organizadores da RBMVJ.

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  1. André. Calmon

    21 de setembro de 2024 7:22 pm

    Muito bom o artigo,mas discordo da ideia principal. Não acho que o marxismo, a luta de classes,é a solução. Acho que o capitalismo é inerente ao ser humano. Quem dera o mundo todo fosse igual aos países nórdicos.

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