23 de julho de 2026

O Custo Social da Reestruturação Bancária no Brasil

Enquanto bancos priorizam lucratividade com baixo custo, clientes idosos ou de baixa renda perdem canais de atendimento
As instituições públicas são responsáveis por 59% da atual distribuição da rede de agências físicas no Brasil. Foto: Matheus Natan via pexels.com

Bancos brasileiros lucraram R$ 124 bi em 2025, mas fecharam 1.345 agências físicas entre 2024 e 2025.
Rede física bancária é 59% pública; bancos privados fecharam 53% das agências, afetando atendimento presencial.
Desde 2016, setor eliminou 83,5 mil empregos, com 80% das perdas entre mulheres, devido à digitalização e automação.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

Esta é a décima sexta reportagem da série Por Dentro do Sistema Financeiro, uma parceria entre o Jornal GGN e a Contraf-CUT que busca analisar por dentro do Sistema Financeiro Nacional

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O cenário bancário brasileiro apresenta um paradoxo que desafia a lógica do cidadão comum. De um lado, os balanços financeiros dos cinco maiores bancos do país — Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa — celebram lucros recordes que, somados, atingiram a cifra astronômica de R$ 124 bilhões ao longo do ano de 2025. 

Do outro, o som metálico de portas de aço se fechando em esquinas de todo o país sinaliza o fim de uma era. A era do atendimento presencial, da conversa com o atendente ou o gerente para esclarecimentos e fechamento de novos contratos, está dando lugar ao atendimento via celular ou internet banking.

A quem serve, de fato, essa modernização galopante? Enquanto os algoritmos e a Inteligência Artificial (IA) otimizam a rentabilidade para acionistas, uma parcela significativa da população é empurrada para um deserto de assistência. A eficiência digital, ao que parece, tem um preço social elevado, pago com o isolamento dos mais vulneráveis.

Radiografia do Encolhimento

O encolhimento da rede bancária física não é apenas uma “tendência”; é um desmonte sistemático. Entre 2024 e 2025, o Brasil perdeu 1.345 unidades físicas, consolidando uma retração que já eliminou 37% das agências desde 2015.

Contudo, os dados revelam uma face ainda mais perversa: a “terceirização” da responsabilidade social para o Estado. Enquanto os bancos privados fecharam mais da metade de suas agências (-53%), os bancos públicos resistem com uma queda menor (-17%). 

O resultado é que hoje a rede física sobrevivente é majoritariamente estatal (59%), deixando o atendimento presencial — essencial para o varejo de baixa renda — sob as costas das instituições públicas.

IndicadorDados de Retração
Total de Agências Fechadas (2024-2025)1.345 unidades
Queda Histórica (desde 2015)-37% (8,5 mil agências a menos)
Retração em Bancos Privados-53%
Retração em Bancos Públicos-17%
Distribuição Atual da Rede59% Pública / 41% Privada

Entre os players privados, o Santander liderou a redução recente, reforçando o movimento de retirada do balcão em favor do clique.

Rentabilidade e a Guerra pela “Principalidade”

O que o setor chama de “transformação tecnológica” é, na verdade, uma contraofensiva estratégica conhecida nos bastidores como a “Revanche dos Bancões”. 

Após verem o Nubank multiplicar sua receita por 20 e transformar prejuízos em lucros superiores aos do Santander e da Caixa, as instituições tradicionais mudaram o jogo. A nova estratégia converge em quatro pilares:

  1. Seletividade de Crédito: Em uma manobra defensiva, o foco agora é o retorno ajustado ao risco, priorizando operações com garantias.
  2. Redução de Custos: A IA e a automação não são apenas ferramentas, são substitutos para o trabalho humano e para a manutenção de estruturas físicas caras.
  3. Foco em Alta Renda: O abandono do varejo popular é nítido. Os bancos estão migrando para segmentos como Uniclass, Prime, Select e Estilo, disputando os 1,2% a 4,4% de contribuintes que representam o topo da pirâmide de renda.
  4. A Guerra pela “Principalidade”: O novo troféu não é apenas estar no celular do cliente, mas ser a “conta principal”. Nesta fase, a proposta de valor e a oferta de investimentos passam à frente da tecnologia pura.

A digitalização forçada ignora uma realidade crua: o Brasil ainda é um país de excluídos digitais. Segundo dados do PNAD e do BID referentes ao ano de 2025, 42 milhões de brasileiros (29% da população) não utilizam serviços financeiros digitais.

  • Idosos: 30% deste grupo não possui acesso à internet, sendo os mais prejudicados pelo fim do atendimento humano.
  • Abismo Rural: Enquanto o acesso urbano atinge 94,7%, o rural estagna em 84,8%.
  • O “Imposto” da Pobreza: O custo transacional de um atendimento presencial para o cidadão é de R$ 59,74**, contra **R$ 6,64 no digital. Ao fechar agências, o banco transfere para o cliente o custo do deslocamento e do tempo, criando um ônus invisível para quem já tem pouco.

O Desmonte do Emprego e o Viés de Gênero

Pode-se dizer que essa reestruturação bancária é um moedor de empregos. Desde 2016, 83,5 mil postos foram eliminados, com 12.815 cortes apenas em 2025. Mas o dado mais alarmante é a desigualdade de gênero nessa transição: as mulheres representam 80% do saldo negativo de emprego no setor. 

A explicação é matemática e cruel: as vagas que estão sendo extintas são as de “Caixa” (-57%), ocupadas majoritariamente por mulheres (62%). Em contrapartida, as vagas de TI, que cresceram 175%, são um território ainda hostil: apenas 24% dessas novas posições são ocupadas por mulheres. A modernização está, na prática, expulsando a força de trabalho feminina do sistema financeiro.

Para tentar mitigar a ausência física, o setor financeiro aposta em Correspondentes Bancários (COBANS), que já somam 213 mil unidades majoritariamente contratadas pelos grandes bancos. Outro ponto de destaque é o crescimento de 102% das cooperativas de crédito, um segmento que concorre com os bancos, mas com o diferencial de contar com alternativas de atendimento presencial.

Contudo, o esforço é insuficiente. Atualmente, 2.649 municípios brasileiros não possuem agências físicas, o que deixa cerca de 19,6 milhões de pessoas sem acesso local a um gerente ou caixa eletrônico. Para esses milhões de brasileiros, o “banco digital” é uma promessa vazia em locais onde o sinal de internet é instável e o dinheiro físico ainda é a única linguagem de troca.

O Futuro da Bancarização no Brasil

Recentemente, a Febraban declarou que “está na hora de fechar a torneira” do crédito para conter o endividamento. O discurso soa cínico quando vem de um setor que lucra R$ 124 bilhões enquanto seleciona apenas os clientes de alta renda e abandona o cidadão comum à própria sorte digital.

A eficiência operacional não pode ser um salvo-conduto para a exclusão social. Com o avanço da IA Generativa, o risco de um apagão de humanidade no atendimento é iminente. 

O Brasil precisa, com urgência, de políticas públicas que garantam a equidade digital e punam a discriminação de gênero e renda na oferta de serviços essenciais. Caso contrário, o banco do futuro será um cofre digital inexpugnável, muito lucrativo para poucos e invisível para milhões.

Leia abaixo a íntegra da série Por Dentro do Sistema Financeiro

A nova realidade do endividamento brasileiro

Por que a economia cresce, mas o dinheiro não sobra?

Cartão Private Label: aliado do varejo, vilão do orçamento

O papel do sindicato na proteção dos trabalhadores das fintechs

Os Erros de Fiscalização do Banco Central no Caso Master

Sistema financeiro brasileiro nega crédito como direito e mantém lógica de exclusão social

Crédito em 2026: entre juros altos e a disputa pelo futuro do financiamento no Brasil

Por Dentro do Sistema Financeiro: Os novos bancarizados, do PIX à inteligência financeira popular

Por dentro do sistema financeiro: A ‘guerra fiscal’ entre bancos e fintechs

Dossiê Fintechs: as manobras cambiais no Banco Central de Campos Neto

Dossiê Fintechs: ‘Porta giratória’ como conexão lucrativa

Dossiê Fintechs: Questões por trás do movimento de porta giratória

Dossiê Fintechs: Banco Central e Receita estreitam controles sobre operações das fintechs

Fintechs não cumpriram a promessa de trazer maior competitividade e juros menores

Fintechs: da promessa de modernização à rota para lavagem de dinheiro

Tatiane Correia

Jornalista, MBA em Derivativos e Informações Econômico-Financeiras pela Fundação Instituto de Administração (FIA). Com passagens pela revista Executivos Financeiros e Agência Dinheiro Vivo. Repórter do GGN desde 2019.

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