da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos
No dia de hoje…
Em 26 de março de 1965 eclodiu um dos mais importantes movimentos entre os militares de resistência ao golpe de 1964: a Guerrilha de Três Passos, no noroeste do Rio Grande do Sul. Inconformados com a sujeição aos golpistas, militares legalistas fizeram uma tentativa de desencadeamento de reação da população gaúcha contra o regime militar, às vésperas deste completar seu primeiro aniversário.
Desde 1961, havia nas Forças Armadas um movimento de resistência ao golpe – que depois se chamaria Movimento 26 de março ou MR-26. Com a efetivação do golpe, alguns de seus integrantes, sob liderança do Sargento Alberi Vieira dos Santos, foram obrigados a se refugiar no Uruguai. A partir do apoio do ex-governador Leonel Brizola e da adesão de outros grupos também refugiados no Uruguai, liderados pelo Sargento Firmo Chaves e pelo coronel Jefferson Cardim de Alencar Osório, planejaram implantar focos de resistência no sul do País. O plano era subir pelo noroeste do Rio Grande do Sul até Mato Grosso, passando pelo Paraná, tomando quartéis e anunciando a retomada do Poder por Leonel Brizola. O percurso era bem conhecido do grupo de Alberi e era uma área fronteiriça, que margeava a Argentina e o Paraguai, proporcionando rotas de fuga. A CNV ouviu vários desses ex-combatentes.
Com base nesses planos, no dia 26/03/1965, o coronel Cardim liderou algumas pequenas operações militares no extremo noroeste daquele estado, divisa com Santa Catarina e fronteira com a Argentina, entre Três Passos e Tenente Portela. Durante a noite, com o apoio do MR-26, se apossaram da Brigada Militar de Três Passos e do presídio, de onde levaram armas, munição e fardas. Além de deixar a cidade sem comunicação telefônica, uma vez que cortaram os fios da rede, ocuparam uma rádio local, a Difusora, onde o militante Odilon Vieira, leu um manifesto do Coronel Cardim, no qual ele falava em nome das Forças Armadas de Libertação Nacional. Por ser tarde da noite, a locução teve pouca repercussão, com pequena audiência.
Apesar de alguns atropelos, estava em curso o primeiro movimento armado contra a ditadura militar no Brasil. Os grupos rumaram para o Paraná, mas lá já estavam sendo esperados por militares da Força Aérea Brasileira. Houve tiroteio e todos os revoltosos foram capturados, humilhados e presos entre os dias 27 e 28 de março. O Coronel Cardim foi submetido a violentas torturas, mas o Sargento Alberi se juntou às Forças Armadas e foi responsável pela captura e morte de outros vários militantes nos próximos anos. Alberi morreu em 1979, provavelmente como queima de arquivo, como ocorreu com grande parte dos agentes infiltrados.
O efetivo apoio de Brizola também é controverso, mas o fato é que ele foi preso em 06/04/1965, graças a esse episódio, e foi processado perante a Justiça Militar, sendo condenado a oito anos de reclusão.
Toda a região ficou a mercê de uma brutal ação dos agentes do Estado, que, para eliminarem outras possíveis formas de resistência ao golpe, implantaram severas medidas que mudaram completamente a vida dos habitantes daquelas cidades; As prisões arbitrárias para medidas de averiguação tornaram-se frequentes, sendo que inúmeros trabalhadores foram presos em suas residências ou no exercício de suas atividades cotidianas.
“Para que não se esqueça, para que não se repita”.
Fontes: Relatório Final da CNV e DMV/CEMDP.
Colaboração de Juliana Amoretti e Enize Neves Lopes
P.S. – Em nome das atrocidades que temos publicado diariamente, será realizada em São Paulo, no Ibirapuera, no dia 31.03.2019 (domingo), a I Caminhada do Silêncio pelas vítimas de violência do Estado. Concentração na Praça da Paz (Portão 7), às 16:00 horas.
Roberto
27 de março de 2019 3:30 amTempo negro na história do Brasil, é para apagar da memória do país, vergonhoso, só houve abertura por pressão Internacional e as diretas, que nunca mais aconteça, 21 anos perdidos.