Por Debora Diniz, antropóloga
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Eles são inseguros, mas têm orgulho de ser machos e muitos. Descrevem-se como representantes do movimento “orgulho hétero”, reclamam dia nacional de combate à heterofobia, apresentam panteão próprio de heróis e representantes políticos. Desconheço mulheres participantes do “orgulho hétero”, talvez porque a veadagem incomode mais aos homens machos que a qualquer outra forma de existência no gênero. Mas a ideia de gritar orgulho por formas de viver é uma expressão de grupos oprimidos e segregados — assim foi com o “orgulho gay” ou o “orgulho surdo”. Se me inquietava saber as razões pelo sentimento de exclusão, o bando de machos inseguros acabou de conquistar o motivo: a página do grupo foi considerada inadequada para o Facebook.
Não me interessa escarafunchar o ocorrido. Queria pensar a tese que navegou por entre a controvérsia: os machos tinham fala livre ou odiosa? Se falar e odiar são apenas variações de um direito único e fundamental — liberdade de expressão, diríamos —, ou se há fronteiras entre as duas formas de posicionar-se diante de estranhos morais. Sustentarei que há fronteiras entre liberdade de expressão e discurso do ódio, e que conhecê-las e respeitá-las é importante para a democracia civilizada. Parto de uma definição simples de liberdade de expressão: poder falar, falar muito, só não sei se qualquer coisa. Segundo os defensores da liberdade plena, qualquer coisa poderia ser dita, não haveria limites no discurso, pois julgamentos sobre o dito seria já uma forma de censura ao pensamento e à falação.
Há, no entanto, várias camadas nessa tese. A primeira delas é que a liberdade de expressão garante o direito de falar. Meu estranhamento é pelo deslizamento do falar para o falar qualquer coisa. Até pode ser, em um sentido hipotético, mas em uma perspectiva consequencialista não é tão simples assim. Podemos falar, como fazem os machos inseguros, novidades do léxico (heterofobia), mas são as consequências do dito o que provoca a conversa sobre as fronteiras entre a falação legítima e a falação odiosa.
A fronteira entre falar e odiar existe e não deve se esconder pelo relativismo do discurso — os defensores dos machos poderiam dizer que apenas resistem a um tsunami de veadagem. A imoralidade das crenças gays, continuariam os machos inseguros, seria uma provocação ao ódio — ou pior: este texto seria já falação odiosa. Será mesmo assim, discordar é sempre odiar? Minha tese é que não, a desavença é parte da democracia, o ódio é um desqualificador da liberdade de expressão. Discordar é o que move a argumentação, o que garante a pluralidade de pensamentos e de formas de viver. Odiar é uma forma de restringir liberdades, de impor medo, perseguição ou mesmo violência à convivência.
O caso dos machos inseguros é interessante para pensarmos as fronteiras entre liberdade de expressão e discurso abusivo. Se há terras estrangeiras em que a liberdade de expressão é passe livre para dizer qualquer coisa, a qualquer pessoa e em qualquer situação, entre nós, o palavrório é regulado. Meu ponto é que a regulação não é só um gesto policial de vigilância às boas regras de civilidade ou, melhor dito, não é apenas uma questão jurídica de convivência pacífica, mas um marco ético para a boa vida. O encontro da boa vida pode se dar na rua, onde sentimos o cheiro de quem nos desagrada; ou nas mídias sociais, onde lemos ou ouvimos o que não suportamos.
Os machos podem ser machos, podem provocar os valores e sentimentos da masculinidade superior: devem ser livres para exibir seus músculos e palavreado desconhecido pelos dicionários. Devem, inclusive, ter espaços para convivência segregada — um clube dos machos que se reconhecem. O que eles não podem é ultrapassar a fronteira da mútua admiração para o ódio contra aqueles que não reconhecem nos músculos, na voz grossa ou na brutalidade os valores da boa vida. Ao contrário do que dizem, a fronteira não é tênue, tampouco difícil de ser traçada — uma coisa é o orgulho de si, outra coisa é o desprezo pelo outro.
É assim que entendo a fronteira entre liberdade de expressão e discurso abusivo. Não é tudo que vale no campo das crenças sobre os outros, das opiniões que resultam em restrições de direito, ou de valores que pressupõem desigualdades. Ser um macho inseguro é só uma das muitas formas de expressão das masculinidades — felizmente, nem a melhor ou a única. Os machos orgulhosos devem ter pleno espaço para a expressão de seus valores; mas os machos muito inseguros devem ser apresentados às boas regras de convivência. Nem que seja os proibindo de falar.
Debora Diniz é antropóloga, professora da Universidade de Brasília, pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética e autora do livro “Cadeia: relatos sobre mulheres” (Civilização Brasileira). Este artigo é parte do falatório Vozes da Igualdade, que todas as semanas assume um tema difícil para vídeos e conversas. Para saber mais sobre o tema deste artigo, siga a página do Facebook.
alexis
28 de dezembro de 2015 12:04 pmOportunidade para desabafar
Não passa de brincadeira. Anos atrás tínhamos em Minas Gerais o Movimento Machão Mineiro, que era muito engraçado. Todo o mundo sabia que se tratava brincadeira (até a própria mulher do Presidente do MMM morria de rir dessas bobagens), para provocar justamente reações como esta aqui, da Débora. O MMM outorgou o prêmio de “machão do ano” a Itamar Franco, depois do seu affair com mulher sem calçinha em camarote de carnaval, e pelo seu “namoro” arranjado com uma major da policia militar de MG.
Quem não deu risadas com o “pit-bicha” nos programas de humor da Globo. Humor hoje discutível e, convenhamos, cada vez mais fora de moda. A sociedade sozinha vai evoluindo e se policiando, sem traumas.
Esse tal “orgulho hétero” deve ser apenas uma turma de jovens brincando pela internet. Bobagem! Se a gente procurasse pelas redes sociais sempre encontrará alguma coisa não apenas para reclamar, mas sim para desabafar alguma coisa oculta no peito, que pessoalmente lhe incomode.
A Débora Diniz provavelmente tinha o discurso pronto, e estava louca para falar mal dos “machos inseguros” (repetiu diversas vezes isso no seu texto, que mostra algo que Freud poderia explicar sobre a intimidade da Débora); apenas aguardando encontrar algum alvo para o seu desabafo, e achou: Achou esses bobos na internet!
Tem gente assim, que precisa fazer deste espaço uma espécie de consultório sentimental, apenas para aflorar as suas próprias magoas, sem importar muito o motivo fútil que deu categoria de post a esta lamentação íntima da Autora. Os bobos do “orgulho hétero”, se lerem este texto, terão motivos para rir e continuar brincando, pois atingiram o seu objetivo, de incomodar alguém. Contra bobagens não há nada melhor que a indiferença.
“Nem que seja os proibindo de falar”, conclui esta colunista, no seu desabafo pessoal.
Carlos E Salgado
29 de dezembro de 2015 4:25 amEssas bobagens.
Essas bobagens estão tramitando no Congresso Nacional, como o dia do orgulho Hétero.
Em torno desse discurso anti-gay, misturado ao discurso da religião fanática e da legitimação do uso de violência policial tem se organizado boa parte da câmara dos deputados em torno de figuras como Bolsonaro, Feliciano e o Eduardo Cunha.
Para além das toscas brincadeiras de bar, o machismo tem uma face complicadíssima e bem negra, legitimadora de violência caseira e institucional.
Homens de boa fé tem de estar bem alertas as nuances dessas questões, que em geral só são debatidas por mulheres e gays que são as populações vítimas da violência, e ficam passíveis de estereótipos desqualificadores.
alexis
29 de dezembro de 2015 10:21 amEm parte
Concordo em parte com o seu comentário, Carlos.
Mas, acontece que a esquerda “comportamental” está levando esta bandeira dentro do campo político ideológico e, naturalmente, isso cria o antagonismo das forças conservadoras, que também levam este tema para o campo político ideológico.
Fica a impressão de que, ao invés de preocuparmos com o desenvolvimento do Brasil estamos discutindo se o Pato é macho. Sofremos uma séria perda de prioridades no campo político nacional.
altamiro souza
28 de dezembro de 2015 2:21 pmalém da indiferença, para
além da indiferença, para cortar o lance desses caras, há outra possibilidade
que depende da própria qualidade do discurso deles.
é o próprio convencimento…..
se o discurso não convencer, esvaziar-se-á naturalmente….