O médico Julio Cesar Acosta Navarro, pai de Marco Aurélio Cardenas Acosta, divulgou uma carta aberta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em suas redes sociais pedindo pelo final da violência policial em São Paulo.
Estudante de medicina, Marco Aurélio Cardenas Acosta foi morto aos 22 anos por um tiro disparado por um policial militar em abordagem realizada na Vila Mariana, zona sul da capital paulista, no último dia 20 de novembro.
“Sinto a dor dilacerante, a angústia e a raiva, de lembrar as últimas imagens dele me pedindo para salvá-lo, deitado numa sala de emergência, em choque hemorrágico, sussurrando: ‘Pai, me ajuda, pai, me ajuda…’. Hoje não tenho vida nem essência, nada. Um fantasma vale mais, porque ele tem alma e eu não mais”, escreveu Acosta em texto publicado no Instagram.
Além de criticar a postura dos policiais ao buscar informações sobre o caso, Julio Cesar também criticou o trabalho do secretário de Segurança do Estado de São Paulo, Guilherme Derrite, ao afirmar, dentre outros pontos, que ele “mais parece um palhaço tirado dos tempos da Inquisição”.
Professor da Faculdade de Medicina da USP, Julio Cesar também criticou o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos), “célebre pela sua crueldade e desprezo pelo sofrimento de famílias, desafiando até a ONU, se burlando do público e afirmando publicamente que não estava “nem aí” incentivando a mais assassinatos pela PM sobre gente humilde”.
Ao ressaltar que Tarcísio só se posicionou sobre a morte de Marco Aurélo após 40 horas de pressão da mídia, o médico destaca que viu ao longo dos últimos dias “os assassinos não sendo presos, os chefes da PM dando declarações à grande mídia com falsidades sobre o meu filho e outros dando risadinhas passeando em jatos particulares (…)”.
Leia abaixo a íntegra da carta aberta de Julio Cesar Acosta Navarro.
Sr. Luiz Inácio Lula da Silva
Excelentíssimo Presidente da República Federativa do Brasil
Com o maior respeito e admiração que sempre tive pela sua trajetória de vida, gostaria que você ouvisse as minhas palavras.
Hoje cumpre-se 30 dias após a pior tragédia que destruiu minha vida e de toda a minha pequena família. O assassinato do meu filho Marco Aurélio, estudante de quinto ano da faculdade de medicina, cheio de saúde e alegria, da maneira mais cruel e covarde, pelo Estado de São Paulo, às mãos de membros da PM e com a cumplicidade de toda a hierarquia superior.
Cada manhã que acordo eu não encontro aquele meu garoto amante do futebol, da música e cheio de carinho. Sinto a dor dilacerante, a angústia e a raiva, de lembrar as últimas imagens dele me pedindo para salvá-lo, deitado numa sala de emergência, em choque hemorrágico, sussurrando: “Pai, me ajuda, pai, me ajuda…”. Hoje não tenho vida nem essência, nada. Um fantasma vale mais porque ele tem alma e eu não mais. A dor levaremos a vida toda até o final da nossa existência porque será o desígnio dos deuses, mas a angústia, a humilhação e a raiva contra os criminosos em busca da “justiça dos homens” é o último que me resta agora.
Os policiais militares Guilherme Augusto Macedo e seu comparsa Bruno Carvalho do Prado, que em maior número, maior tamanho, treinamento militar, superprotegidos e armados com todas as armas, atiraram covardemente à queima-roupa no meu filho que usava um short e um chinelo, por opção de sua personalidade.
Na sequência daquela madrugada de terror, membros da Polícia Militar, cujo responsável ainda é o Comandante Coronel Cássio Araújo de Freitas, desenvolveram uma cumplicidade que, ainda com meu filho lutando pela sua sobrevivência, divulgaram oficialmente falsidades, culpando meu filho, acusando-o de querer tirar a arma deles.
Violência contra pessoas pobres e atitudes racistas, como foi o caso do meu filho, foram demonstradas claramente pelos crimes sobre outras pessoas e pelo sofrimento de famílias que se somaram à nossa tragédia, que agora é amplamente conhecida.
Eu mesmo fui testemunha direta naquela madrugada da atitude de outros PMs em várias oportunidades, quando eu cobrava o paradeiro do meu filho ou informações do que tinha ocorrido para poder usar isso tecnicamente no salvamento cirúrgico do meu filho. Me foram negadas informações, além de que todos mostravam uma mania de pegar suas armas como se eu, baixinho, professor de paletó, cabelo grisalho fosse um “Rambo” ameaçador para eles.
Atitude aprendida muito bem nas academias militares com certeza. Nesse inferno de fatos, ressalta a figura do Secretário de Segurança SP Guilherme Derrite, chefe superior da PM que, apesar de ser um oficial com antecedentes e frases incentivando a morte e violência, paradoxal e inexplicavelmente é responsável pela segurança dos cidadãos.
Ainda na sua primeira manifestação pública, após se esconder da mídia e pedir apoio ao padrinho dele, outro personagem vulgar ladrão de joias, inescrupuloso e promotor da morte de centenas de milhares de vidas pelo Covid-19, Derrite ainda definiu o trabalho dele como “o bem” e as denúncias e reclamações pelos crimes da PM como a minha, com esta carta, define como “o mal”. Derrite mais parece um palhaço tirado dos tempos da Inquisição.
Finalmente o Sr. Governador Tarcísio de Freitas, célebre pela sua crueldade e desprezo pelo sofrimento de famílias, desafiando até a ONU, se burlando do público e afirmando publicamente que não estava “nem aí” incentivando a mais assassinatos pela PM sobre gente humilde.
Tarcísio, após 40 horas de pressão total de toda a mídia do país pelo covarde crime de Marco Aurélio, anunciou um lamento público hipócrita e uma promessa de punição severa aos culpados. Somente que, pelo que vi com muita dor nestes trinta longos dias de uma justiça sem tempo, os assassinos não sendo presos, os chefes da PM dando declarações à grande mídia com falsidades sobre o meu filho e outros dando risadinhas passeando em jatos particulares, Tarcísio não disse quando faria isso, porque se referia, claro, ao Juízo Final ou quando os extraterrestres invadem a Terra, esperto ele.
Apelo ao Sr. Presidente, minha última esperança para aliviar a dor da minha família, de outras mais e poder amanhã salvar nossos próprios filhos.
Dr. Julio Cesar Acosta Navarro.
Professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
Douglas da Mata
21 de dezembro de 2024 5:00 pmLula nada fará.
Sua visão de segurança pública não está distante de Tarcísio ou outro do tipo.
A polícia baiana dos governos do PT não é diferente.
E de tantos outros estados onde o PT governa ou governou.
AMBAR
21 de dezembro de 2024 9:27 pmNa verdade, quem teria competência para cuidar do assunto não seria o Ministério da Justiça e Segurança Pública? Tem que se queixar pro Ricardo Lewandovski. Lula tem tantas mais preocupações…
Marcus
22 de dezembro de 2024 10:45 amA responsabilidade é do Congresso Nacional.
Ana Lucia V Santanna
22 de dezembro de 2024 12:14 pmO corporativismo é o mesmo na polícia de todo lugar.Como delatar um amigo de farda, se “poderei ser eu noutro dia” A solução trará.apenas um conforto vazio pra família,mas é necessário saber o porquê atiraram no filho do Dr Júlio Cesar.Um filho não tem preço!Eles mataram também uma família!
Zezo Nogueira
22 de dezembro de 2024 11:33 amNo plano federal, há o quefazer? Coerente com as nossas limitações desconhecemos existe possibilidade de intervir. Cá na Bahia a situação é tenebrosa. Muito bom quando se passa o dia sem cruzar com essas figuras deploráveis. Na verdade assassinos em potencial… E contando com o corporativismo exacerbado. Apesar de não disporem do princípio de “Fé Pública”, nas versões, atuam com a presunção de veracidade em DP e “Juízo”, deslegitimando o contraditório e criando embaraços na maioria dos casos insuperáveis para suas vítimas. Repetimos que se trata de versão contemporânea do feitor ou capitão do mato de triste memória. Este pai tem espaço para manifestar-se e pela sua posição social não se atrevem esses monstros a ameaça-lo. Diferente de familiares enlutados e que pertencem à comunidades periféricas…
MARTHA MASSAKO TANIZAKI
22 de dezembro de 2024 12:59 pmAfinal estamos esperando ainda a demissão do secretário de segurança, o assassino que matou demais quando pertencia à corporação que mata. Estamos ainda esperando o uso de câmeras decentes nos uniformes da PM!!!
Gil Santana
22 de dezembro de 2024 11:09 pmToda a minha solidariedade a família Acosta e todas as famílias brasileiras vítimas dos assassinos de fardas das polícias militares! A polícia paulista não diferem em nada das polícias militares baiana e todos os estados da federação, são verdadeiras máquinas de matar, simplesmente pq foram constituídas para tomar conta do capital e das vidas dos donos do poder econômico e os da classe trabalhadora que se dane!
Infelizmente é assim que funciona a lógica da polícia militar de todos os estados da federação!
Prá que polícia se a criminalidade matam menos inocentes?
Jose Costa
23 de dezembro de 2024 8:16 pmO Estado e’ pago para proteger e não para assassinar o seu povo. Infelizmente todas as polícias trás dentro de si, a cultura da morte. Isso foi uma herança de uma ditadura de 21 anos.