Seguindo a tradição, PCO defende Neymar em discussão sobre privatização das praias
por Francisco Fernandes Ladeira
A PEC 3/22, relatada por Flávio Bolsonaro, que transfere a propriedade dos terrenos do litoral brasileiro do domínio da Marinha para estados, municípios e proprietários particulares, abrindo brecha para a privatização das praias, tem movimentado o debate político nacional.
Nas redes sociais, as discussões sobre a PEC 3/22 foram marcadas pela “treta” envolvendo a atriz Luana Piovani (contrária à privatização das praias) e o jogador Neymar (que, por interesses econômicos, é favorável à PEC 3/22). Embora não se trate de uma pessoa progressista, nesse caso, a esquerda, por uma questão de princípios, saiu em defesa da atriz e repudiou o posicionamento do atacante do Al-Hilal.
No entanto, houve uma voz dissonante. Seguindo a tradição de defender bolsonaristas, o Partido da Causa Operária (PCO) se manifestou em favor de Neymar. Em postagem no X, o presidente do PCO, Rui Costa Pimenta, cuja opinião deve ser seguida fidedignamente por todos os seus militantes, apontou que “há uma marcação em cima do jogador. O Neymar se transformou num judas de malhação da esquerda brasileira. Ele não está fazendo lobby no Congresso. Ele está construindo um condomínio, inclusive começou antes da lei da privatização. O problema todo é a marcação em cima do Neymar”.
Além do trecho acima, que resumiu as duas únicas funções do PCO no debate político brasileiro, isto é, defender a extrema direita e atacar a esquerda, Rui argumentou que a esquerda “não falou nada” sobre a deputada federal Maria do Rosário ter se oposto ao veto do presidente Lula às “saidinhas”, sobre Alberto Cantalice defender a instituição da prisão perpétua e sobre o Eduardo Leite, “que colocou centenas de milhares na rua da amargura”.
Apesar de uma coisa não ter nada a ver com a outra, ou seja, criticar Neymar não significa, necessariamente, defender as posturas de Maria do Rosário, Cantalice ou Leite; só para nos atermos ao último exemplo, desde que chegaram as primeiras notícias sobre a tragédia gaúcha, a esquerda tem frequentemente denunciado e apontado a política neoliberal de Eduardo Leite como principal fator que explica a situação adversa do Rio Grande do Sul.
Mas, como Rui Costa Pimenta cria sua própria realidade, em que a esquerda brasileira está sempre equivocada, provavelmente não se deu conta dessa postura crítica de políticos e imprensa progressistas.
Ainda segundo o PCO, a “esquerda pequeno burguesa” – fazendo coro com a imprensa burguesa e com capitalistas do futebol europeu que querem dominar o futebol brasileiro – tem “tara por criticar Neymar”.
Sobre esta questão, vale a pena resgatar as duas maiores críticas feitas pela esquerda ao jogador, antes do atual debate sobre a PEC 3/22. Em 2020, no auge da pandemia da Covid-19, quando havia a necessidade de manter o distanciamento social para evitar a rápida propagação do novo coronários entre a população, Neymar promoveu uma festança para cerca de 500 convidados, em uma mansão em Mangaratiba (RJ). Dois anos depois, na eleição presidencial, ele declarou apoio a ninguém menos do que Jair Bolsonaro. Naturalmente, a esquerda abominou as duas posturas.
Porém, como o PCO também é negacionista, e vive flertando com a extrema direita em busca de engajamento digital, aplaudiu o Menino Ney em ambos os casos relatados acima. No partido, a figura de Neymar só está abaixo de Rui Costa Pimenta no quesito “reverência”.
Por fim, é importante ressaltar que um dos principais ataques do PCO à esquerda brasileira, como já dito, é acusá-la de “fazer coro com a imprensa burguesa”. Pois bem, quem também defendeu Neymar recentemente foi a Folha de S. Paulo. Conforme matéria publicada no jornal, na terça-feira (4/6), “não há evidências de que Neymar apoie a ‘PEC das Praias’, ao contrário do que diz Luana Piovani”.
Quem diria! O PCO, que gosta de se vender como “esquerda raiz”, fazendo coro com a “burguesa” Folha de S. Paulo.
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Francisco Fernandes Ladeira é doutorando em Geografia pela Unicamp e pós-graduando em Jornalismo pela Faculdade Iguaçu
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allan.patrick
10 de junho de 2024 9:26 amEstá certo o PCO, esse artigo é uma bobajada. Neymar é um ator muito secundário na PEC das Praias. Quando a esquerda cirandeira coloca ele no centro do debate na verdade está ajudando o bolsonarismo, pois perante a maior parte da população ele é um personagem popular e carismático com o qual empatiza.
Sérgio Buarque de Gusmão
10 de junho de 2024 1:18 pmÉ indubitável que há uma campanha contra Neymar. Ele virou um dos 1/2/3 inimigos públicos, provavelmente por seu flerte com o bolsonarismo. Mas até se tenta negar que não é um bom jogador, quando foi, se ainda não é, um dos maiores de todos os tempos.