22 de junho de 2026

Entre Muros e Esperanças: Reforma Urbana Popular, por André Araújo Oliveira

A segregação urbana não é consequência do desenvolvimento desigual, mas um projeto estruturado que marginaliza a população negra e pobre.
Paraisopolis - Roberto Rocco - Notícia Preta

Entre Muros e Esperanças: Reforma Urbana Popular e os Desafios da Luta por Moradia em Salvador e São Paulo

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por André Augusto Araújo Oliveira

Este ensaio busca analisar criticamente os desafios enfrentados pelas pessoas em situação de vulnerabilidade social na luta por moradia em Salvador e São Paulo, refletindo sobre a Reforma Urbana Popular como alternativa à exclusão socioespacial promovida pelo urbanismo hegemônico. Este texto pretende discutir a centralidade das ocupações urbanas como estratégia de resistência e os entraves enfrentados pelos movimentos sociais diante da especulação imobiliária e da ausência de políticas públicas efetivas.

Desta forma, argumenta-se que a moradia é um direito fundamental, mas, no Brasil, persiste como privilégio de poucos. Assim, a segregação urbana não é apenas uma consequência do desenvolvimento desigual, mas um projeto estruturado que, historicamente, marginaliza a população negra e pobre. Segundo Mílton Santos (2001, p. 135), “o espaço urbano não é neutro, mas um reflexo das relações de poder e das contradições do sistema capitalista”. Compreender as ocupações urbanas como formas legítimas de resistência e reivindicação de direitos é essencial para repensar políticas públicas que combatam a desigualdade estrutural e promovam uma cidade de fato democrática.

Ao refletir sobre essa questão, podemos notar que, no Brasil, a segregação socioespacial tem raízes históricas e écon marcada pelo racismo estrutural que determina quem pode habitar as áreas centrais e quem é empurrado para as periferias. Munanga (2004, p. 57) explica que “o mito da democracia racial serve como cortina de fumaça para ocultar as desigualdades raciais perpetuadas pelo Estado e pela sociedade”. Vemos o reflexo deste contexto nas políticas habitacionais excludentes que, ao longo do tempo, negligenciaram a população negra e pobre, condenando-a à informalidade e à precariedade habitacional.

Sendo assim, as ocupações urbanas em Salvador e São Paulo não são apenas respostas à crise habitacional, mas também formas de resistência contra o projeto de cidade excludente. Para Bonduki (2014, p. 223), “a autogestão e a luta por moradia são elementos centrais na construção de uma cidade mais justa e democrática”. No entanto, essas iniciativas enfrentam desafios significativos, como despejos forçados, criminalização dos movimentos sociais e a ausência de políticas públicas que reconheçam as ocupações como solução habitacional legítima.

Em Salvador, as ocupações urbanas revelam a disputa por espaços historicamente negados à população negra. A cidade, marcada pelo turismo e pela especulação imobiliária, expulsa moradores de baixa renda para regiões periféricas, desconectando-os dos serviços e das oportunidades econômicas. Nascimento (1980, p. 89) enfatiza que “a marginalização do povo negro não é um acaso histórico, mas um projeto de poder que precisa ser combatido com organização e resistência”. Assim, a luta por moradia nas ocupações soteropolitanas é também uma luta contra o apagamento e pelo reconhecimento da ancestralidade negra na cidade.

Já em São Paulo, a realidade não é diferente. Os movimentos de moradia enfrentam uma estrutura de governança urbana que só prioriza os interesses do mercado imobiliário. A cidade expulsa os pobres das regiões centrais, reproduzindo um padrão de segregação espacial que Angelou (1978, p. 42) descreve poeticamente como: “As cidades constroem muros invisíveis, mas os corpos que carregam histórias sabem onde não são bem-vindos”. Diante desse cenário, a resistência dos movimentos de moradia se dá por meio da ocupação de edifícios ociosos e do enfrentamento constante às ações de despejo.

O discurso único sobre a urbanização precisa ser questionado. Adichie (2009, p. 14) alerta para “o perigo da história única”, que muitas vezes marginaliza narrativas alternativas e invisibiliza as lutas coletivas. A Reforma Urbana Popular propõe uma cidade onde a produção do espaço urbano seja coletiva e democrática, reconhecendo as ocupações não como problemas, mas como soluções para a moradia popular.

Conclui-se, então, que diante desse panorama, a construção de políticas públicas que dialoguem com a realidade das ocupações urbanas é fundamental. A luta por moradia em Salvador e São Paulo não é apenas uma questão de acesso à terra, mas um embate contra a estrutura racista e excludente do urbanismo brasileiro. Santos (1996, p. 98) afirma que, “o espaço urbano deve ser pensado como um direito coletivo, e não como uma mercadoria sujeita à lógica do capital”. Somente assim será possível avançar para uma cidade verdadeiramente inclusiva e democrática. Reconhecer as ocupações urbanas como um direito legítimo de resistência e permanência significa ampliar a perspectiva de justiça social e equidade na cidade, combatendo as desigualdades estruturais que historicamente marcaram o território urbano brasileiro.

Bibliografia

ADICHIE, Chimamanda. O perigo da história única. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

ANGELOU, Maya. And Still I Rise. New York: Random House, 1978.

BONDUKI, Nabil. Arquitetura da habitação social: produção do conhecimento e construção da cidade. São Paulo: Estação Liberdade, 2014.

MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

NASCIMENTO, Abdias do. O Genocídio do Negro Brasileiro. São Paulo: Perspectiva, 1980.

SANTOS, Milton. A urbanização brasileira. São Paulo: Hucitec, 1996.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2001.

André Augusto Araújo Oliveira é Assistente social. Doutorando no Programa de Arquitetura e Urbanismo do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Paulo (IAUUSP). Mestre do Programa de Pós-Graduação em Território, Ambiente e Sociedade, da Universidade Católica do Salvador –UCSal e colaborador da Rede BrCidades.


André Augusto Araújo Oliveira – Assistente social. Doutorando no Programa de Arquitetura e Urbanismo do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da Universidade São Paulo (IAUUSP). Mestre do Programa de Pós-Graduação em Território, Ambiente e Sociedade, da Universidade Católica do Salvador –UCSal.

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