21 de maio de 2026

E a Direita diz que é tudo mentira

Como filha mais velha ouvia atenta, atrás das portas, ela falando sobre habeas corpus, prisão preventiva, exílio

         É claro que há pessoas de direita que não aderiram às teorias insanas que dominaram o Brasil dos últimos onze anos. São conservadoras mas não são insanas, pelo menos estiveram aptas a se recuperar, não sem ressaca, de uma dose da mais viciante das drogas, a mentira. Eu, no entanto, dedico o presente texto aos que ainda chafurdam no lodo excretado pelas mentes de militares que não honram suas fardas, por juízes que encontraram suas togas no lixo da história, políticos que se nutrem do engajamento nas redes, de jornalistas que denigrem – jogam nas trevas – sua ética profissional e economistas mentirosos.

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            Poderia ser eu a contar como a ditadura atingiu minha família lato senso, bem como meus primos estrito senso. Ocorre que há experiências mais pungente, como a de Eleonora Tinoco,  e só nos cabe esfrega-las na cara de quem teima em defender o indefensável. Os eventuais erros do texto a seguir permanecem intocados, pois são fruto de intensa emoção.

Por Eleonora Tinoco

“Quando comecei a escrever esse texto Ainda não tinha ido assistir ao filme “Ainda estou aqui”, mas tinha certeza de ir.

Talvez ainda precisasse chorar mais e me indignar sempre. 

Não há como virar a página como num livro ruim para acabar logo. 

Eu tinha 9 anos – a mais velha dos 6 irmãos – quando prenderam papai. Ele veio de São Paulo, onde estava fazendo uma pós e foi se apresentar no quartel da polícia. Não saiu mais e acabou indo para o prédio do hospital da própria polícia, ali atrás, junto com outros presos Josemar, Geniberto, Moacir de Góis

Vulpiano  Cavalcanti. Vulpiano me ensinou e a outras crianças a jogar xadrez, para deixar os presos na intimidade, atrás das portas com as suas mulheres   Até hoje o tabuleiro do xadrez me lembra uma guerra, onde só quero ganhar.

Há muitas belas histórias de generosidade dessa grande figura Dr Vulpiano Cavalcanti. Nas cadeias, por onde passou, foi torturado, teve as unhas arrancadas para denunciar os amigos. Contudo aguentou firme e em silêncio os horrores sofridos em várias passagens pelas diversas prisões. Nutri por ele um sentimento de carinho e admiração. A filha mais velha dele, Sônia, trabalhou no tribunal com tia Lígia e sempre que eu a via dava um abraço apertado como se ela fosse – e ela era – o pedaço do pai vivo e tão querido nas minhas lembranças. 

Depois, do hospital da polícia, papai e alguns outros presos foram transferidos para o 16 RI ali vizinho a minha casa, onde recentemente me vi a berrar de raiva para alertar os fascistas de que ainda há resistências por toda a parte. 

Esse período foi de pesadelos diários. Mamãe dizia que tivesse cuidado com as perguntas das pessoas sobre papai. Todos eram suspeitos. 

Tinha medo de tudo!

Medo de quem batia à porta, medo da noite, da hora do Brasil, (mamãe ouvia as transmissões noturnas para colher notícias dos desaparecidos políticos. Vovó me dava bolinhas de homeopatia – luminaleta – para dormir melhor. Nem tomando o potinho todo surtia efeito. 

Meu pânico maior era – de guardas e soldados. Uma noite, eles invadiram a casa e levaram papeis, jogaram livros e as lancheiras dos meninos no quintal e amaçaram mamãe em busca de armas e material de propaganda política. Lá em casa, nos sabíamos que tinha um revólver escondido embaixo do colchão. Ela grudou lá sentada aos prantos e esperou que eles fossem embora. Tio Túlio, nosso vizinho, veio com tia Lúcia e levaram nos junto com o revólver para a casa deles. Anjos vestidos de tios. 

Tio Túlio virou meu herói maior. principalmente, depois que colocou uma carta minha no correio para Castelo Branco, pedindo para soltar papai porque mamãe estava muito magra e « aperreada ». Carta infantil, sem nenhum teor político.  Uma correspondência do ministério da justiça, via governador do RN, foi entregue por um militar na casa de vovô, com o original da carta solicitando providências para evitar correspondência de uma criança para a presidência. Junto, um documento para ser assinado por vovô tomando ciência. Como Dr. Vulpiano, não falei nada 

O segredo ficou entre tio Túlio e eu. Vovô nunca soube quem havia me dado dinheiro para enviar a carta.  Foi melhor assim. Ficou muito indignado com a ousadia e exigiu   que não fizesse mais nada sem que ele soubesse. A minha desobediência poderia prejudicar ainda mais a situação.   

Tio Túlio era desembargador e estava queimado porque deu escândalo um dia no 16 RI quando descobriu que papai tinha desaparecido sem deixar rastros. Soube que ele urrava – Regime de merda, país de merda. O meu herói era gigante e corajoso. Valia pelo batalhão todo. 

Essa ida dele ao 16 RI aconteceu depois da pedra que jogaram no jardim dele.  Junto, amarrado num cordão tinha um bilhete dizendo que tinham tirado papai e outros presos do batalhão. Era preciso agir rápido para impedir que fossem jogados no oceano durante a viagem. Durante dias se procurou notícias. Mamãe já quase viúva, imaginava a vida sem o marido, sendo sustentada pela solidariedade dos irmãos e cunhados. Preso, teve a bolsa cortada e ela desolada recebia um cesto de frutas e verduras que tio Chico discretamente deixava em casa, e outras doações que a família levava. 

Os dias iam se tornando bem difíceis. 

Lembro da cena de uma noite mamãe com o ouvido colado no rádio, e as lágrimas caindo no assoalho gasto me dizendo: 

– Não sei o que vamos fazer. Falta dinheiro até para comprar um ovo. 

Não preciso dizer que o ovo é até hoje o meu cardápio preferido 

Como filha mais velha ouvia atenta, atrás das portas, ela falando sobre habeas corpus, prisão preventiva exílio, ditadura…. Nomes que iriam fazer parte das minhas redações e composições na escola primária sob protesto das professoras alienadas. 

Eu ia todos os dias com Mamãe e outras mulheres de presos levar almoço para eles. Ela aprendeu a dirigir numa kombi velha de tio Raimundo. Segundo tio Clovis me disse numa festa na casa dele, e já quando meus pais haviam desaparecido, que eu havia sido trocada pela kombi velha de Raymundo Paiva. Nora – filha de subversivo e sem cotação no mercado de crianças: – Não vale nada essa magrela. 

Essa punhalada doeu muito tempo, mais pela raiva que senti dele do que pelo baixo valor.  

Descobrimos depois que papai havia sido “jogado” na ilha de Fernando de Noronha junto com Arraes, Luís Maranhão e um monte de outros presos. Ficaram imaginando um Plano de fuga que nunca foi tentado. 

O general Geisel, chefe da casa militar do Presidente Castelo Branco foi alertado que os presos da ilha estavam sofrendo tortura e passando necessidades. Como maçon, ele identificou papai e algum tempo depois colocou o no avião que tiraria alguns presos de lá. A estratégia era ficar alguns dias na ilha de Itamaracá aguardando um país que aceitasse exilados. 

Se não desse certo havia um plano B. Uma fuga e a clandestinidade. Um primo militar de Recife conseguiu colocá-lo no carro nessa mudança de cadeia. Avisada, mamãe foi ao encontra dele, apostando na sorte, para tentar fugir juntos.

Saiu de madrugada da casa de tia Maria e desapareceu na esquina da Rodrigues Alves com tio Beto Farache ao volante, numa Kombi (dessa feita uma em melhor estado). 

Naquela noite de muita tristeza e choros, as 2 avos, tia Maria e outras tias choravam sem parar, não de saudades, mas, creio eu, pelo receio de assumir os filhos dos fugitivos.

Foram distribuídos na casa dos que aceitaram receber « as crianças dos subversivos » Na saída mamãe me pediu para cuidar dos irmãos até que ela chegasse no exílio e organizasse a vida.  

Com pai e mãe desaparecidos, sem notícias, viramos órgãos. A sensação, aos olhos dos outros era de asco. 

– Cadê seus pais? 

 Depois soube que eles estavam escondidos por cidades ou em casas de amigos e familiares. No Rio ficaram na casa de tia Consuelo, tia Nany e tia Iracema se revezavam levando comida e remédios. O pavor de serem encontrados era diário. A ditadura endurecia e a polícia monitorava qualquer movimentação suspeita. Papai, para sobreviver na clandestinidade tinha virado Bigurrilho, apelido pelo qual era chamado pelos filhos e amigos. Decididos a voltar para Natal ainda estiveram em São Paulo, Minas. 

Mudando de casa permanentemente, viveram assim até 1966, quando um habeas corpus permitiu que voltasse para São Paulo para acabar o curso. 

Durante muito tempo, ninguém falava nesse triste período. Sempre que perguntados mudavam de assunto. Na cerimônia do relatório final da Comissão da Verdade, lá estava Aldo Tinôco, de gravata vermelha e profundamente emocionado. Falou nos amigos desaparecidos e nos que não puderam vivenciar aquele importante momento de libertação. Falou em Luís Maranhão, seu grande amigo, que aparecia na casa de São Paulo para comer e saber de notícias. Um dia se despediu e disse que não viria mais pois estava sendo seguido e não queria prejudicar a vida de papai. 

Soubemos mais tarde que havia sido jogado ao mar. A esposa procurou pelo corpo até morrer. A comissão da verdade não chegou para ela.   

Saímos da reitoria da UFRN mais leves. 

Dali em diante, me senti também livre para falar do subterrâneo que guardava numa gaveta das tristes lembranças.

P.S.  Fui finalmente assistir ao filme « Ainda estou aqui »

Depois de derramar um balde de lágrimas, levantei-me para aplaudir e gritei 

  Ditadura nunca mais!!

Por Eleonora Tinôco 25/11/2024”

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou o mestrado na PUC, pós graduou-se em Economia Internacional na International Afairs da Columbia University e é doutor em História Econômica pela USP. Aposentou-se como professor universitário, e atua como coordenador do NAPP Economia da Fundação Perseu Abramo, como colaborador em diversas publicações, além de manter-se como consultor em agronegócios. Foi reconhecido como ativista pelos direitos da pessoa com deficiência ao participar do GT de Direitos Humanos no governo de transição.

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9 Comentários
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  1. Ricardo PRocopio de Oliveira

    25 de novembro de 2024 3:12 pm

    Ditadura Nunca Mais

  2. MARCUS JOSE REIS CAMARA

    25 de novembro de 2024 6:31 pm

    Que relato doloroso (e necessário!), Nora querida. Parabéns solidários.
    Bjssss saudosos
    Marcus (Marquete)

  3. Gracia Maria de Miranda Gondin

    26 de novembro de 2024 7:47 am

    Querida Nora, li seu texto depois de ver o filme “Ainda Estou Aqui” no cinema, mas o filme de terror vivenciei na pela, na carne, no corpo com um pai assassinado pelos coronéis da ditadura no Rio Grande do Norte, que apoiavam o golpe de 64 com a mesma truculência dos milicos insanos.

    Grata pela resistência e amizade, que nos nutre de força e coragem. DITADURA NUNCA MAIS!!! SEM ANISTIA AOS FASCISTAS DO 8 DE JANEIRO!

    1. Anônimo

      26 de novembro de 2024 10:55 pm

      Amiga, querida
      Sei da sua história e do horror que vcs viveram. E sinto muito por vcs todos. São marcas indeléveis que pesam na alma pela vida inteira.
      Não consigo dimensionar a sua dor e a falta que seu pai assassinado fez.
      Precisamos falar da nossa indignação para que a “vague deferlante” e ameaçadora da extrema direita não venha repetir a barbarie que vivenciamos.

  4. Douglas da Mata

    26 de novembro de 2024 10:19 am

    Mas é tudo mentira, como não?

    O grande e grave problemas de eventos históricos desta dramaticidade é serem invalidados por quem tinha o dever de dar-lhes legitimidade e institucionalidade.

    E isso se faz como fizeram nossos irmãos do sul, processaram, julgaram e sentenciaram os criminosos.

    Aqui, anistiamos, ou seja, nós mesmos dissemos que é mentira, ou pelo menos, que não foi tão grave assim.

    Ora, se não foram processados, julgados e sentenciados, são inocentes, ou melhor, não culpados, é esse o princípio mais caro ao Estado de Direito, logo, se não culpados, nada houve.

    A culpa pelo revisionismo histórico dos fascistas é nossa, é a nossa covardia.

    Desonramos a memória dos que tombaram.

    Não adianta ficar falando “ditadura nunca mais”, é preciso agir historicamente neste sentido.

    Não agimos, então, outros golpes e outras ditaduras, ou tentativas de, virão!!!!

    1. angela neves

      26 de novembro de 2024 12:56 pm

      verdade!!!!!!

    2. Luiz Alberto M C Silva

      2 de dezembro de 2024 10:25 am

      É isso aí, meu caro. Anistia há de ser sempre sinônimo de covardia.

  5. Rejane P Silva

    26 de novembro de 2024 11:31 am

    Amiga, que depoimento forte e rico pra que nunca , nunca esqueçamos esse período de trevas da nossa história. Muito emocionante , realmente não sabia dessa sua história . Ditadura nunca mais .

  6. Vania de Vasconcelos Gico

    26 de novembro de 2024 3:37 pm

    Minha querida Ana Eleonora. Acabo de ler seu relato e choro muito além de me indignar.Tristes tempos mancharam a vida do nosso povo. Como sua família, muitas outras além de sofrerem e passarem necessidade pq.os provedores estavam presos, não tiveram a oportunidade do luto por seus familiares. Ditadura nunca mais. Grande abraço pela corajosa pessoa que és.

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