A pesquisadora da UFRJ Tatiana Sampaio e sua molécula, a polilaminina, tornaram-se símbolos nacionais, quase tão populares quanto jogadores de futebol. A médica apareceu em vários programas de TV, foi saudada em um show de João Gomes, e tornou-se heroína nacional.
Mas há uma boa possibilidade – cerca de 75% de chance – da sua pesquisa não ser bem sucedida. É o percentual das pesquisas que entram na Fase 1 – a fase inicial, autorizada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) apenas para analisar a segurança do produto para uso humano.
Vamos a algumas “barrigas” da mídia mundial em relação a supostas descobertas médicas:
- Em 1998 o cientista Andrew Wakelield publicou a respeitada revista The Lancet um estudo mostrando a relação entre a vacina tríplice viral e o autismo. Era uma amostra minúscula, com 12 crianças. Em 2010 houve a retratação e Wakefield perdeu sua licença médica.
- Em 2014, a pesquisadora Haruko Obokata publicou na Nature estudo demonstrando poder reprogramar células com estímulo ácido simples. Descobriu-se imagens manipuladas. O escândalo levou ao suicídio um co-autor.
- Em maio de 1998, o NYT publicou matéria de primeira página sobre o pesquisador Judah Folkman, de Harvard, que estudava drogas capazes de bloquear a formação de vasos sanguíneos que alimentam tumores. O texto sugeria que poderíamos estar diante de uma revolução no tratamento do câncer. A reportagem foi baseada em estudos com camundongos, não com humanos. Ações de empresas de biotecnologia dispararam, investidores correram para o setor, pacientes sonharam com a expectativa de cura próxima. Nos anos seguintes, esses medicamentos mostraram eficácia limitada. O NYT publicou textos posteriores reconhecendo que a empolgação havia sido exagerada.
- Nos anos 90, outra matéria do NYT sobre pesquisas que sugerem que suplementos antioxidantes podem prevenir câncer no pulmão, especialmente em fumantes. Depois vieram grandes ensaios clínicos randomizados — e o resultado foi chocante: com fumantes, o beta-caroteno aumentava o risco de câncer de pulmão. Os estudos anteriores estavam confundindo correlação com causalidade.
- * Entre 2014 e 2015, a Universidade de São Paulo, campus de São Carlos, produziu, em laboratório, cápsulas de fosfoetanolamina sintética, desenvolvidas pelo químico Gilberto Orivaldo Chierice. A substância vinha sendo distribuída informalmente a pacientes com câncer, sem registro na Anvisa e sem ensaios clínicos conclusivos. Criou-se tamanho alarido que houve decisões judiciais obrigando a USP a fornecer as cápsulas. A ponto de, em 2016, o Congresso aprovar uma lei autorizando o uso da substância, mesmo sem a aprovação da Anvisa. O Ministério da Saúde encomendou estudos clínicos e testes toxicológicos. Resultado: não houve comprovação de eficácia anticâncer; em alguns casos, não havia sequer padronização adequada da substância; estudos in vitro não demonstraram efeito relevante.
O caso da polilaminina
Até agora o estudo da professora Tatiana Sampaio foi feito em cobaias entre 5 a 10 pessoas.
Há registro de um estudo piloto clínico inicial envolvendo polilaminina em pacientes com lesão medular, mas o objetivo principal não é provar cura, mas avaliar segurança, tolerabilidade e possíveis sinais iniciais de eficácia.
Em resumo
| Etapa | Número aproximado |
| Estudos iniciais | Apenas animais |
| Estudo piloto humano | Cerca de 5–10 pacientes |
| Ensaio clínico amplo | Ainda não divulgado/publicado |
Um estudo com 5–10 pacientes pode mostrar:
- Sinal clínico promissor
- Melhora funcional individual. Como explicou o professor Paulo Lotufo, há casos em que o paciente melhora sem nenhuma interferência externa
- Recuperação parcial
Mas não pode provar:
- Que funciona de forma consistente
- Que não foi efeito placebo
- Que é replicável em grande escala
Portanto, esse grande carnaval lembra, em muito, o carnaval em torno do remédio contra o câncer.
Espera-se, apenas, que o final seja melhor, e que possa resultar em um medicamento eficaz. Mas isso só se saberá daqui a 5 ou 10 anos.
Hoje em dia, esse campeonato futebolístico atende apenas à necessidade de manchetes otimistas. Mas demonstra a vulnerabilidade da mídia para tratar de temas médicos.
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Joao Maria
24 de fevereiro de 2026 11:13 amA direita ja esta tentando lacrar com a polilaminina. Sem levar em conta os anos de trabalho da doutora, alguns alegam “milagre divino”. Se é milagre entao é milagre catolico. Lideres religiosos de direita nao aceitam a cruz como simbolo, nem a oração Pai nosso.
fabricio coyote
24 de fevereiro de 2026 12:56 pmnão existe ciência sem erro porque ela sempre se encaminhará a partir de uma dúvida.
Nietszche comparava a exaltação da “ciência” moderna com a ideia de deus
rs rs rs
segundo o CÉU da enel só jesus salva sã pablo dos apagões
rs rs rs
André LB
24 de fevereiro de 2026 1:54 pmEngraçado… durante um período, apareceram aqui no site artigos acriticos sobre a a homeopatia, um verdadeiro terraplanismo médico.
Não tenho visto todo esse mencionado oba-oba da grande mídia com essa, no mínimo, promissora pesquisa da UFRJ. Não entendi a troco de quê essa exemplificação, quase comparação, de fraudes neste artigo sobre a necessidade de “cautela” com a polilaminina.
O que vejo é uma cautela até excessiva do autor, notoriamente inteligente, perspicaz e dono de conhecimento enciclopédico, mas sempre tão rápido em enxergar sucessivos renascimentos na nossa cultura e indústria ou frequentes alertas de que dessa-vez/finalmente/agora-é-sério acontecerá perda de credibilidade MP, mídia e outras instituições e grupos conhecidos pelo grande compromisso com a verdade e invencível carinho pela esquerda.
Agnaldo
24 de fevereiro de 2026 2:01 pmEssa estória da polilaminina é o mesmo embuste da fosfoetanolamina.
Ficam anos fazendo pesquisas que não apresentam resultado positivo. Assim, a única maneira de conseguir verba para a continuidade da pesquisa é apresentar resultados sabidamente falsos, pois sem nenhuma comprovação, e jogar para a mídia que faz o resto.
Evandro
25 de fevereiro de 2026 10:16 amPoderia esclarecer como sabe que os dados são sabidamente falsos?
Silvio Sá
25 de fevereiro de 2026 11:30 amNunca imaginei que Luis Nassif fosse se dar ao trabalho de publicar algo tão raso e precipitado. Comparações impróprias. O carnaval está sendo feito por quem gosta de carnaval. Não é a pesquisadora que busca carnaval. Ela está fazendo o papel dela, buscando soluções para problemas que afetam as pessoas, com boa intenção e muito estudo. Isso é juízo de valor antecipado e só depõe contra a ciência e favorece negacionistas. De retrate, é o mínimo que deveria fazer.
cassiomoreira1977
26 de fevereiro de 2026 12:00 pmJá parei de ler após o primeiro parágrafo do texto… A médica… Ela é bióloga…