Comentário sobre o Oscar (2), por Walnice Nogueira Galvão

Entre os candidatos a melhor filme, Os 7 de Chicago, em que se destaca Sacha Baron Cohen (o Borat) num papel sério e não debochado como de hábito, resgata uma dívida de meio século.

Comentário sobre o Oscar (2)

por Walnice Nogueira Galvão

As duas categorias mais importantes e mais disputadas na premiação Oscar são as de melhor filme e melhor direção.  Este ano a corrida foi apertada e não foi fácil decidir entre alguns excelentes filmes, feitos por excelentes diretores(as).

Entre os candidatos a melhor filme, Os 7 de Chicago, em que se destaca Sacha Baron Cohen (o Borat) num papel sério e não debochado como de hábito,  resgata uma dívida de meio século. Vemos o injusto julgamento por um juiz parcial, que chegou a mandar amordaçar e agrilhoar um dos réus, de sete líderes estudantis à frente de um protesto contra a Guerra do Vietnã, quando da Convenção do Partido Democrata em Chicago, em 1968. Embora o protesto fosse pacífico, o prefeito Daley mandou a polícia agredir violentamente  os manifestantes desarmados. E, depois disso, os culpados eram os estudantes… Um famoso filme de Wesley Haskell, Medium cool,  que documentou os eventos,  misturando-os a personagens fictícios, foi o registro que restou.

Os outros candidatos ao galardão de melhor filme foram Meu pai e Mank, comentados na coluna anterior, e mais Judas e o Messias negro (sobre os idos do Black Power dos anos 60 e a feroz perseguição que lhe moveu J.Edgar Hoover, diretor do FBI), Minari (imigrantes coreanos nos Estados Unidos), Bela Vingança (ácida crítica à “cultura do estupro”), O som do silêncio e Nomadland. Este último, premiadíssimo no país e no exterior, foi o campeão.

Já para melhor diretor foram indicados os que fizeram Druk: mais uma rodada (Thomas Vinterberg, com Mads Mikkelsen no papel principal), Mank, Minari, Bela vingança (diretora mulher), e Nomadland, cuja diretoramulher saiu vitoriosa.

Mas há outros bons filmes que ficaram de fora desta vez, ou então foram indicados para categorias insignificantes, como melhor figurino, ou coisa parecida. Entre eles está um  de Spike Lee, Destacamento Blood, sobre ex-soldados negros que voltam ao Vietnã depois de meio século, em busca de um tesouro em barras de ouro que ficou enterrado e dos despojos de seu comandante. Não é dos melhores, mas não se pode negar que qualquer filme dele é sempre interessante.

Outro caso a sublinhar refere-se às atrizes. Frances McDormand, já antes agraciada por Fargo e Três anúncios para um crime, levou seu terceiro Oscar com toda justiça.  Esta é a estória de uma mulher de meia-idade, que sai pelas estradas sem destino em sua  castigada caminhonete e vai encontrando seus semelhantes, que também ficaram à margem da prosperidade: um road-movie no feminino. A atriz  sempre soube escolher filmes relevantes e independentes, tendo estrelado vários de autoria dos irmãos Coen, que são uma espécie de Pedro Almodóvar de Hollywood. Em 2018, ao aceitar o segundo Oscar, ofereceu a láurea a todas as mulheres indicadas, convidando-as a ocupar o palco. Elas então se levantaram, numerosas, e receberam uma ovação.  É uma lufada de ar fresco vê-la desafiadora, nem um pouco estrela de Hollywood, comparecendo a essascerimônias despenteada e sem cílios postiços, discrepante do visual embonecado. Com  três Oscars, atingiu as alturas rarefeitas de Meryl Streep, ambas só perdendo para Katharine Hepburn, que ganhou quatro no passado. Bem humorada, Meryl Streep costuma  dizer que é campeã de prêmios, mas também de perdas:  21 é o número de vezes em que “perdeu” o Oscar, isto é, que foi indicada ao mas não levou. Outra candidata a recordista de indicações perdidas é igualmente uma grande atriz, Glen Close, que nesta edição completou a soma de 8.

Afora a auspiciosa novidade de ser este o Oscar da diversidade, inclusive pelos assuntos abordados, nota-se o papel preponderante da Netflix, que  não costumava concorrer em festivais porque seus filmes não atendiam ao pré-requisito de estrear em salas, saindo diretamente em streaming. Até o ano passado o festival de Cannes, o mais importante de todos, assim procedia: vamos ver no próximo. O fato é que, devido à desorganização que a pandemia ocasionou nos grandes estúdios, abriu-se oportunidade para os independentes e para a Netflix. Esta, com 35 indicações, ou 11 a mais que no ano passado, liderou absoluta a competição.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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