Individualismo e fascismo na nova “Matrix”, por Alexandre Camargo de Sant’Ana

“Matrix” é um produto de Hollywood, ou seja, não é possível esperar uma crítica marxista direta ao sistema capitalista e ao individualismo neoliberal. Sem levar essa obviedade em consideração, a análise tende a errar o alvo e atingir o jogador (a obra) e não o jogo (seu contexto de produção).

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Individualismo e fascismo na nova “Matrix”

por Alexandre Camargo de Sant’Ana

Apesar de seu permanente sucesso desde o lançamento em 1999 e das inúmeras discussões a respeito do caráter filosófico da obra, sempre existiram aqueles que torcem o nariz para a trilogia das irmãs Wachowski. Para seus críticos mais vorazes, além das novidades técnicas e dos efeitos especiais, “Matrix” não tem nada de filosófico ou libertário, podendo inclusive passar uma mensagem errada e demasiadamente focada no indivíduo. Com o lançamento do trailer do quarto filme, a simbologia de “Matrix” retornou ao centro de várias análises. Mas para ser justo, antes de iniciar qualquer discussão sobre “Matrix” e questionar se a mensagem da obra é contestadora ou não, precisamos compreender de onde as irmãs Wachowski falavam. “Matrix” é um produto de Hollywood, ou seja, não é possível esperar uma crítica marxista direta ao sistema capitalista e ao individualismo neoliberal. Sem levar essa obviedade em consideração, a análise tende a errar o alvo e atingir o jogador (a obra) e não o jogo (seu contexto de produção).

Além disso, esperar que uma obra da indústria cinematográfica hollywoodiana ofereça respostas a dilemas sociais, econômicos e políticos não deixa de ser inocência. Afinal, os autores tiram suas influências do acúmulo de conhecimentos da humanidade e por mais inteligente que o roteiro possa ser, não tem a obrigação de superar a produção das elites intelectuais de onde saíram suas referências. Se nem os pensadores possuíam uma solução aos problemas do mundo ao final do milênio, como um filme produzido em Hollywood poderia ter? No máximo a obra consegue levantar questionamentos importantes em seu tempo.

Por fim, o individualismo presente é resultado não apenas por “Matrix” ser um produto hollywoodiano e assim já podado desde a origem. O primeiro filme é de 1999, quando ainda havia certa expectativa positiva e inocente sobre a potência revolucionária da liberdade individual e o fim das grandes narrativas normatizadoras e limitadoras do sujeito. No senso comum pautado pela mídia corporativista, o fim dos discursos totalizantes de verdade e a redução do Estado eram vistos como um progresso que traria mais liberdade aos indivíduos e por consequência um mundo melhor. “Matrix” é criado dentro desta ideologia.

Sendo assim, considerando todas as suas limitações, devemos perguntar novamente, mas de forma diferente: “Matrix”, como um produto de entretenimento de massa produzido por Hollywood e dentro da ideologia neoliberal individualista, foi de alguma forma contestador, libertário ou rebelde? E se foi, existe como este quarto filme manter o a mensagem contestadora dos filmes anteriores? Vamos começar tentando responder a primeira questão para então chegar ao segundo ponto.

Não podemos ignorar que mesmo na época de seu lançamento, “Matrix” recebeu duras críticas de pessoas importantes. Walter Sales, em 2003, antes da última parte da trilogia, ao atacar o individualismo e a falta de soluções coletivas da obra, chegou a comparar as irmãs Wachowski com a famosa cineasta nazista: seriam a Leni Riefenstahl da Era Digital? Para ele, “Matrix” tinha uma equivocada visão dicotômica do mundo (entre bem e mal), mostrava o Estado como “asfixiante” e oferecia apenas soluções individuais para o problema da opressão, pois Neo precisaria vencer sozinho. Havia muito talento, ele admitia, mas a trabalho de “uma ideologia que é, de alguma forma, fundamentalista e totalizante”[1].

Dois meses após as acusações de Sales, o filósofo Slavoj Zizek também comentou os dois primeiros filmes. Para Zizek, “Matrix” não tinha nada de filosófico e poderia ser lido de várias formas, mas não traria resposta alguma, pois os filmes seriam apenas “intérpretes … dos antagonismos inerentes à difícil situação ideológica e social” do capitalismo da época: 1) como a realidade (nosso vida real de trabalhos, estudos, etc) com suas regras limita o prazer prometido pelo sistema; 2) como a liberdade só é possível dentro do próprio sistema, que por sua vez impede a liberdade total. O real não passa de um conjunto de regras que podem ser quebradas, mas mesmo após quebrar as regras, essa liberdade adquirida só acontece dentro do próprio sistema opressor. Se primeira parte tratava do impulso de escapar do sistema, a parte dois afirmava que a luta deveria acontecer dentro dele. Sendo assim, segundo Zizek, “Matrix” mostraria como a batalha por um mundo melhor precisa acontecer tanto no real (economia) quanto na Matrix, ou seja, “nos campos da política e da ideologia”[2]. Então, os dois primeiros filmes não eram filosóficos e nem ofereciam respostas aos dilemas sociais, mas refletiam uma discussão existente na esquerda em sua luta contra o sistema capitalista.

A extrema diferença entre as duas análises acima – com o filósofo lendo os filmes como um espelho dos antagonismos capitalistas e da falta de respostas da esquerda e o diretor acusando a obra de ser individualista e liberal – valida a afirmação de Zizek sobre “Matrix” poder ser compreendido de maneiras variadas. Mas não é assim com praticamente todos os filmes? A conclusão da análise não depende muito mais da base teórica do espectador? Eduardo Simonini Lopes, por exemplo, também afirmou que “Matrix” não é revolucionário, pois além de repetir perguntas que existem “há milênios”, muitas religiões já apresentaram a realidade como uma ilusão. Todavia ele possui uma visão positiva do individualismo no filme, pois a mensagem seria que não existe verdade alguma e que para não cairmos em falsos projetos de verdade devemos reinventar nossa vida constantemente, deixando surgir “novas maneiras de sentir” e evitando estabilizar o Eu[3]. “Matrix” seria uma grande metáfora sobre a liberdade do indivíduo de se reinventar constantemente quando ruem as velhas narrativas de verdade.

Uma quarta visão tem Giovanni Alves, mas novamente é uma leitura que depende da base teórica do espectador. Em sua análise, a narrativa dos filmes permite a “percepção clara” da exploração capitalista e do controle social, pois Neo é um “tecnoproletário” oprimido pelo trabalho e pela solidão de um capitalismo bárbaro. Sendo assim, “Matrix” teria uma mensagem revolucionária denunciando a exploração capitalista, entretanto o filme aborda esta questão de forma indireta, colocando as máquinas como as exploradoras de toda a raça humana: todos seriam explorados da mesma forma pelo sistema. Deste modo, apesar de a obra tratar sobre a “emancipação humana” e falar a respeito da liberdade do sujeito, faz isso a partir da luta individual do protagonista, sem colocar em discussão a luta de classes e as desigualdades capitalistas, pois o Capitalismo não aparece como “mediação histórica” no filme[4]. Novamente, vale a pena relembrar que estamos falando de um produto de Hollywood, criado dentro de severas fronteiras ideológicas e regras de Mercado que limitam a crítica e condicionam a obra.

Apesar de suas diferenças gritantes, entendo que as quatro análises possuem algo em comum: a importância do indivíduo no meio disto tudo. Sales enxergou a mensagem individualista contra um possível Estado opressor como algo perigoso, mas Lopes viu isso como positivo e libertário, uma possibilidade de sempre alterar o Eu e não cair em falsas verdades totalizantes que oprimem o indivíduo. Zizek afirma que o filme apenas representa antagonismos do Capitalismo e as limitações das propostas da esquerda e da liberdade individual, mas Alves acredita ser possível perceber uma crítica à exploração capitalista na narrativa de “Matrix”, todavia a solução apresentada cai no individualismo. Em minha opinião, o indivíduo sempre está no centro das análises porque ele, o indivíduo, é a personagem principal do filme. “Matrix”, mesmo que de forma geral e abstrata (sem colocar a luta de classes em evidência), faz uma crítica à opressão do sistema sobre o indivíduo. Todavia esta crítica acontece a partir da ideologia neoliberal daquele contexto. Era uma época na qual as grandes narrativas e verdades prometidas pela Modernidade estavam em questionamento, pois seriam opressoras do indivíduo e limitadoras da liberdade individual. O conceito de verdade há tempos vinha sendo colocado em dúvida e as antigas promessas de progresso pareciam cada vez mais distantes. Além disso, era um momento de extrema força do discurso neoliberal de liberdade individual contra o Estado opressor. No interior da meritocracia defendida pelo Mercado, as diferenças resultantes do capitalismo permaneciam ignoradas e até escondidas, colocando a responsabilidade de vitória nas costas do indivíduo, mas oferecendo em troca uma promessa de liberdade e gozo inesgotáveis. Tendo tudo isso em mente, torna-se compreensível por quais motivos “Matrix” focou tanto no indivíduo em sua narrativa. Apesar disto, mesmo limitada pelo individualismo neoliberal da época, a trilogia conseguiu passar uma mensagem de rebeldia contra as opressões sociais que impedem o sujeito de ser livre e fazer suas próprias escolhas, conectando-se desta forma ao espectador médio, que apesar de nem sempre entender como funciona o Capitalismo, sente na pele a opressão do Capital e do Estado burguês. É fácil simpatizar com os heróis que no cinema lutam contra policiais, militares e agentes opressores representantes do Sistema quando na vida real se está do lado dos oprimidos e de quem sempre apanha, vai preso ou acaba morto.

Além de seu caráter libertário empoderando o indivíduo e desafiando os discursos totalizantes, desafiando o poder, “Matrix” chegou a flertar com o revolucionarismo, pois também sugeriu a possibilidade de uma guerra contra as máquinas, contra o sistema. Até o terceiro episódio, existia a esperança do triunfo da revolução através da luta armada: após a vitória contra os opressores, os rebeldes libertariam todas as pessoas e criariam uma nova sociedade mais justa e igualitária, na qual o indivíduo seria livre das opressões. Essa era a mensagem e não tem como negar seu teor revolucionário e coletivo. Todavia a trilogia termina sem a prometida revolução! Mas isso não deve ser visto como falha da obra e sim como um reflexo da falta de solução teórica para os antagonismos do sistema capitalista neoliberal: como deveria ser a revolução contra um inimigo tão poderoso?

Carlos Carujo, analisando o filme em 2014, afirmou que a trilogia “Matrix”, apesar de não colocar o Capitalismo, o Consumismo e a Sociedade do espetáculo em discussão, mostrou muito bem a impossibilidade da revolução contra o sistema capitalista. No fim das contas, a mensagem dos filmes não conseguiu ser totalmente revolucionária, pois os rebeldes não venceram o totalitarismo. Frente ao terrorismo do agente Smith (é preciso ter em mente que os dois últimos filmes vieram após o 11 de Setembro) e a impossibilidade de uma revolução total e real, a solução apresentada foi colaborar com o sistema para salvar o mundo – mesmo isso significando que apenas uma minoria seria libertada enquanto a maioria continuaria explorada pelas máquinas. Apesar desse final, afirma Carujo, o roteiro teria “ressonâncias marxistas” e mesmo que isso pudesse ser um engodo para disfarçar que “Matrix” não passa de um produto de entretenimento de massa, tais ressonâncias levantam a questão já apresentada por Zizek: devemos “sujar as mãos na política” para tentar resolver os dilemas revolucionários que até agora nem os intelectuais e nem os militantes de esquerda conseguiram solucionar. Achar uma resposta revolucionária é obrigação nossa e não da trilogia “Matrix” (ou de qualquer filme). Se nós desejamos um mundo melhor, devemos enfrentar os dilemas políticos sem fugir e agirmos através da organização e trabalho de base[5].

Analisando “Matrix” como um produto da indústria cinematográfica hollywoodiana da virada do milênio, percebemos como a trilogia atacou a opressão do sistema sobre os indivíduos a partir de uma crítica limitada pelo individualismo liberal do contexto de produção da obra. Neo nunca foi um ativista político incomodado com as guerras, catástrofes ecológicas, desigualdades capitalistas ou ascensão do fascismo. Ele era apenas um jovem branco trabalhador alienado e descontente com sua vida monótona e sem sentido, como afirmou Nicholas Barber[6], mas isso não anula a crítica do filme à sociedade capitalista daquele momento. Mesmo não realizando um ataque direto ao capitalismo ao esconder a luta de classes, “Matrix” passou uma mensagem libertária e rebelde denunciando o poder normatizador do sistema e sua opressão sobre o indivíduo. A própria Lilly Wachowski disse recentemente que sua inspiração para criar “Matrix” foi o ódio ao capitalismo, à estrutura corporativista e às várias formas de opressão deste sistema. Naquela época, nem ela e nem a irmã haviam assumido a transexualidade e isso foi um fator importante na produção dos filmes: “A raiva fervente dentro de mim era sobre minha própria opressão, que estava me forçando a permanecer no armário”, ela contou[7]. Algum tempo depois, Lilly também confirmou que “Matrix” seria uma metáfora sobre a transexualidade, mas que em 1999 não podiam fazer isso escancaradamente, pois o mundo corporativista não estava preparado para este tipo de debate[8].

Por conta disso tudo discutido até aqui, enxergo o filme como crítica ao sistema daquela época e às suas formas de opressão, ainda mais após as afirmações de Lilly. Além disso, também acredito que a trilogia permite discutir os dilemas e dificuldades da luta revolucionária da virada do milênio. “Matrix” é sobre o sonho revolucionário, mas não tem resposta para a impossibilidade da revolução porque a esquerda não possuía uma resposta para esse problema naquela época. Então vem a questão: nestes vinte anos, a teoria revolucionária já encontrou uma solução que permita a revolução?

Acredito que a trilogia original foi sim rebelde e libertadora em suas provocações a respeito das pressões sociais sobre os indivíduos na virada do milênio. Além disso, os filmes flertaram com o sonho revolucionário da luta armada contra o sistema opressor e mesmo ao aceitar a impossibilidade de revolução, a trilogia só evidenciou a falta de respostas da esquerda aos dilemas da luta contra o capitalismo. Da mesma forma que o filme é limitado pela ideologia liberal em diversos momentos, a solução acabou limitada pelas limitações da teoria revolucionária.

Trazendo para os dias de hoje e considerando todos os limites óbvios da indústria cinematográfica, é possível manter a mensagem rebelde e provocadora neste novo filme de “Matrix”? Eu realmente acredito que sim, principalmente porque a produtora Lana Wachowski possui muito mais poder e liberdade criativa para continuar sua crítica ao capitalismo. Entretanto será necessário atualizar a crítica. Mesmo que a luta de classe permaneça fora da narrativa, nossa sociedade atual não tem mais nada a ver com a sociedade da época da trilogia de “Matrix” e isso exige uma atualização das discussões para conectar a narrativa ao espectador médio. A liberdade individual, tão celebrada há vinte anos, acabou não sendo assim tão positiva e o fim das grandes narrativas opressoras não trouxe a felicidade prometida. O indivíduo encontra-se sozinho e abandonado e não mais pressionado por grandes discursos de verdade como em 1999. Perdidos em um individualismo exacerbado e infelizes com nossas vidas, o sujeito busca uma saída no consumismo. Hoje, as pressões sobre o indivíduo, guardadas as diferenças socioeconômicas, são mais a respeito de uma necessidade de consumir e de se reinventar do que uma padronização totalizante que impediria a liberdade do sujeito. Sendo assim, o novo filme de “Matrix” pode continuar contestatório e relevante se levantar novas provocações, mesmo que o Capitalismo não apareça explicitamente na narrativa.

O controle social para manter os indivíduos passivos – tão criticado na trilogia original – continua forte, mas totalmente diferente. Ele não acontece mais através de ideologias totalitárias e normatizadoras, mas a partir da sedução do consumo e da fragmentação do sujeito. Por outro lado, o retorno dos discursos totalizantes, conservadores, reacionários e fascistas, deixa evidente que a liberdade individual é algo frágil e sem garantia. Além de estar muito mais agressivo no ataque aos direitos sociais e ao meio ambiente, o capitalismo atual ainda conta com o apoio de um fascismo crescente: liberdade econômica e conservadorismo nos costumes, uma quimera que significa mais capitalismo e menos direitos individuais. Sendo assim, mesmo sem uma crítica marxista direta, mesmo escondendo a luta de classes como fez na trilogia original, o novo filme de “Matrix” pode manter a mensagem rebelde e libertária em suas provocações se souber condensar as aflições individuais do nosso tempo. Muitas críticas negativas sobre a trilogia original são sobre a narrativa ter focado demais no indivíduo, mas arrisco a afirmar que o novo filme deveria permanecer com o mesmo foco.

Hoje, muito mais do que naquela época, é sobre o indivíduo que cai toda a responsabilidade pelo seu sucesso ou fracasso. Sem o Estado ou qualquer Instituição protetiva e afundado em um contexto de intensa rivalidade, o indivíduo está sozinho e cria suas próprias simulações para escapar da triste realidade de um mundo de incertezas. As vidas virtuais, em contraste com a feiura do dia-a-dia, são sempre belas e felizes, mas escondem que o indivíduo está correndo sobre um gelo fino e não pode parar, caso contrário afundará e morrerá na água congelante. Buscando criar e recriar sua subjetividade e identidade, o indivíduo alimenta a máquina com suas preferências, hábitos e opiniões. Em troca, recebe uma bolha de informações que o mantém seguro em seu casulo de próprias verdades. O problema atual não são grandes narrativas oprimindo o indivíduo, mas o contrário, pois o indivíduo não tem mais referência e deve se reinventar constantemente. Houve uma atualização do sistema e os tipos de opressão mudaram, todavia o indivíduo está mais pressionado e escravizado do que nunca. A conexão com o sistema de controle é direta e constante, pois a internet e os aparelhos móveis como celulares e tablets possibilitam um controle totalmente individualizado. Sozinho, abandonado, perdido, explorado e fragmentado, o sujeito vira alvo fácil para novas narrativas de verdade, muitas vezes fundamentadas em discursos de ódio e pensamentos fascistas. Para continuar provocador e rebelde, “Matrix” precisaria conversar com várias destas questões. Obviamente não devemos esperar respostas aos dilemas, pois como afirmei anteriormente, essa não é a função da indústria cinematográfica. Mas seria interessante se o novo filme atualizasse o discurso crítico e conseguisse manter, mesmo que indiretamente, sua mensagem de rebeldia contra a sociedade capitalista atual.

Se por um lado o contexto hollywoodiano continua limitando a crítica direta ao capitalismo, por outro lado Lana tem um desafio importante e complicado pela frente para garantir o simbolismo de sua criação. Se precisar agradar demais ao mundo corporativo e deixar a mensagem muita aberta novamente, como na trilogia original, corre o risco de sua obra ser deturpada e descontextualizada outra vez. Nestas duas décadas, houve muitas leituras sobre a simbologia de “Matrix”, inclusive uma deturpação total da mensagem pela extrema-direita. Recentemente, Lilly reagiu ao péssimo uso de sua obra pelo na época ministro da Educação, Abraham Weintraub, que usou a metáfora das pílulas para afirmar que Bolsonaro ofereceria a verdade por trás da “Matrix” de ilusões dos seus opositores: “Vai se f…”, ela disse em inglês[9]. Deste modo, por mais abstrata e individualista que a crítica seja, Lana deverá deixar bem claro seu posicionamento ideológico neste novo filme e assim evitar que a direita fascista continue deturpando a simbologia rebelde e contestatória de “Matrix”.


[1] SALES, Walter. “Matrix” mistura Bosch, Bush e Filosofia de Botequim Francês. Folha de São Paulo – 24 de maio de 2003.

[2] ZIZEK, Slavoj. Resistência entre Quatro Paredes. Folha UOL – 27 de julho de 2003.

[3] LOPES; Eduardo Simonini. A Realidade do Virtual. Psicologia em Revista, v11, n17. Minas Gerais – junho de 2005

[4] ALVES, Giovanni. Trabalho, Técnica e Estranhamento: Uma Análise Sociológica do filme “Matrix”. Cronos, v07, n02, p373-382. Rio Grande do Norte – Julho/dezembro de 2006.

[5] CARUJO, Carlos. Matrix e a Impossibilidade da Revolução. Correio da Cidadania – 04 de agosto de 2014.

[6] BARBER, Nicholas. Por que o Filme Matrix Envelheceu Mal? BBC News Brasil – 14 de maio de 2019.

[7] Matrix: Criadora surpreende ao revelar origem do filme de Keanu Reeves. Observatório da Imprensa – 03 de junho de 2020.Disponível em: https://observatoriodocinema.uol.com.br/filmes/2020/06/matrix-criadora-surpreende-ao-revelar-origem-do-filme-de-keanu-reeves

[8] GARÓFALO, Nicolaos. Lilly Wachowski Explica Narrativa Trans por Trás de Matrix. Omelete – 04 de agosto de 2020. Disponível em: https://www.omelete.com.br/matrix/matrix-metafora-transexual-lilly-wachowski

[9] Weintraub posta cena de “Matrix” e diretora do filme responde: “Fuck you”. Diário do Centro do Mundo – 28 de maio de 2020. Disponível em: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/essencial/weintraub-posta-cena-de-matrix-e-diretora-do-filme-responde-fuck-you/

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