Sob o céu do futuro
por Felipe Bueno
Num tempo que podemos chamar de hoje indefinido, o veterano cineasta italiano se reúne com seus assistentes, uns contemporâneos, outros mais novos, para discutir o contexto do filme que estão preparando. O cenário da obra em questão é a Itália de 1956, mais especificamente a redação do L’Unità, o jornal do partido comunista local. No meio do encontro, a pergunta: mas os comunistas não viviam só na Rússia?
O verbo no pretérito imperfeito fere, mas a dor logo passa. Certas sutilezas retóricas caem sobre nós como os pianos desabam de prédios nos antigos desenhos animados. O bom é que, em ambos os casos, no minuto seguinte, estamos inteiros de novo.
Quando as sutilezas são fatos, porém, a coisa não é tão simples assim. No tempo “filmado”, a redação do L’Unità, em 1956, se pergunta o que aconteceu de errado com o mundo quando uma trupe circense aparece na cidade, fugindo da invasão soviética na Hungria. Os gritos contra a opressão ameaçam sair da garganta, alguns efetivamente saem, mas logo são contidos pelo fantasma da devoção à santidade laica cuja sombra vem do leste. Um incômodo paradoxo que ainda hoje deixa aturdidas certas mentalidades que esperam que classes transformem o mundo: quando o microscópio sociológico desce ao patamar do indivíduo, tudo são diferenças e a utopia, digamos, se desmancha no ar. No tempo “real”, Giovanni, o cineasta romântico e impaciente, se confronta com um bloqueio criativo, com uma incapacidade de entender que o cinema mudou, e com a impossibilidade de enxergar o fim de seu casamento e a transformação de sua filha em um ser adulto e independente. Também é, a seu modo, um homem de fé: fé em si mesmo e na sua causa, ainda que ambos estejam em inevitável e acelerada decadência.
Esses dois tempos e outros mais se sobrepõem em O Melhor Está por Vir, cujo título original pode ser traduzido do italiano por O Sol do Futuro, filme de Nanni Moretti que chegou aqui este ano às telas e merecia ser mais visto e comentado. Pela obra em si, claro, mas também pela urgência das questões colocadas na tela. Porque até os sonhos e as utopias, assim como os aplicativos, precisam constantemente de atualização.
Felipe Bueno é jornalista desde 1995 com experiência em rádio, TV, jornal, agência de notícias, digital e podcast. Tem graduação em Jornalismo e História, com especializações em Política Contemporânea, Ética na Administração Pública, Introdução ao Orçamento Público, LAI, Marketing Digital, Relações Internacionais e História da Arte.
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