5 de junho de 2026

Movimento feminista na Argentina, por Angelita Matos Souza e Marina de Oliveira Gomez

Neste texto, o objetivo é fazer um breve comentário sobre o sucesso do movimento feminista argentino, em sua luta pela legalização do aborto.
Solange Avena - LatFem

Movimento feminista na Argentina

por Angelita Matos Souza e Marina de Oliveira Gomez

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Nancy Fraser costuma fazer afirmações incômodas para o movimento feminista, entre elas a de que este é voltado a uma minoria privilegiada, além de apontar a convergência entre segmentos de movimentos identitários (entre os quais o feminista) com a agenda neoliberal.

Os movimentos feministas contemporâneos podem ser enquadrados nos denominados novos movimentos sociais, que começaram a chamar mais a atenção na segunda metade do século passado, quando se passou a discutir a perda de centralidade dos conflitos distributivos, centrados nas relações capital-trabalho, abrandados pelo Estado de bem-estar social e pela redução da classe operária, em tamanho e, supostamente, em capacidade de protagonismo político. Neste contexto, movimentos sociais novos foram despontando na cena política com demandas diversificadas, em geral, consideradas não econômicas.

Quer dizer, o campo dos movimentos sociais foi dividido entre os movimentos sociais tradicionais, em torno das relações capital-trabalho, e os novos movimentos sociais, pós-materiais. Como defendeu Fraser em vários textos, foram se distinguindo dois campos de lutas por justiça social: a pauta por redistribuição (da riqueza social) e a pauta por reconhecimento (dos direitos das mulheres, dos negros, daqueles não inseridos no universo da heteronormatividade, etc.).

Neste texto, o objetivo é fazer um breve comentário sobre o sucesso do movimento feminista argentino, em sua luta pela legalização do aborto. A pergunta que nos orienta é a seguinte: como o movimento feminista argentino conseguiu se espraiar para além dos bairros dos estratos sociais privilegiados? Ou seja, como conseguiu ir além das Vila Madalena e Ipanema de Buenos Aires e se tornar um movimento massivo, nacional, e com repercussão internacional?

A hipótese com a qual trabalhamos (na pesquisa de Mestrado de Marina Gomez) reside naquilo que Verónica Gago (em A Potência Feminista) chamou de “aliança insólita”, a entre o movimento feminista e o movimento sindical argentino. Como entendemos, teria sido principalmente o encontro dos dois campos que alavancou o movimento feminista argentino.

A aproximação vinha se delineando há tempos, em função da atuação das mulheres nos sindicatos argentinos, mas foi fortalecida depois de uma tragédia que abalou o país em 2016: o feminicídio de Lucía Pérez, uma adolescente de 16 anos, drogada, estuprada e morta por empalamento em Mar del Plata. Os protestos convocados para outubro daquele ano, com uma paralisação das trabalhadoras no meio do dia, tomaram as ruas de Buenos Aires e se fizeram presentes em todo o país e mesmo no exterior. De fato, o grito de resistência “Nenhuma a Menos” (Ni Una Menos) percorreu o mundo.

A partir daí, o movimento feminista argentino avançou massivamente, até a conquista da legalização do aborto em 2020. Feministas argentinas gostam de afirmar que o movimento feminista obrigou os sindicatos a se reinventarem/modernizarem. Todavia, é igualmente verdadeiro que o apoio dos “piqueteiros” foi decisivo.

Por certo, agora não faltam analistas que associam a ascensão da extrema-direita à força do movimento feminista. Para nós, a explicação da eleição de Javier Milei deve ser buscada, fundamentalmente, na esfera econômica. Apostaríamos que a força do movimento feminista foi, no máximo, um ator coadjuvante e, provavelmente, por causa da “aliança insólita”. Os antigos e os novos movimentos sociais precisam ser mantidos separados, como no Brasil, e de preferência brigando no seu próprio campo.

Pior, por aqui o movimento sindical não consegue sequer organizar um 1º de maio expressivo e o movimento feminista tende a favorecer uma minoria privilegiada. Sem falar nas denúncias de um ministro preto (ao que tudo indica, assediador) a uma ONG, Me Too Brasil (ou seria Brazil?), em vez de se buscar uma solução discreta, a portas fechadas, que não oferecesse um banquete à direita, atingindo negativamente governo e movimento negro.


Angelita Matos Souza, Cientista Social, docente no IGCE-UNESP.

Marina de Oliveira Gomez, Mestranda em Geografia no IGCE-UNESP.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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