8 de junho de 2026

A pesada herança econômica de Trump, por Luis Nassif

Segundo Roubini, não se espera de Biden grandes movimentos radicais. Mas um conjunto consistente de políticas fiscais direcionado às famílias, trabalhadores e pequenas empresas, gastos com infraestrutura, geradoras de empregos, e investimentos na economia verde.
Foto: Reprodução

Ontem, à noite, as três redes nacionais de televisão dos Estados Unidos protagonizaram episódio histórico: interromperam uma transmissão de coletiva de Donald Trump e informaram seus telespectadores que o presidente estava mentindo.

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A política sempre foi um terreno caro para a hipocrisia. Nem se pense em visões depreciativas do exercício da política. Há acordos que só se fazem em privado, promessas jamais cumpridas, que só valem para efeito eleitoral.

Mas de alguns anos para cá, estimulada pela desestruturação da informação pelas redes sociais, a mentira explícita passou a ser instrumento político. Antes, um político flagrado em mentira explícita (não confundir com promessas impossíveis) estava destruído.  A estratégia desenvolvida pela ultradireita americana, e disseminada pelo mundo, normalizou a mentira explícita.

Quando se trata da economia, o jogo é mais disseminado, pela defasagem temporal entre medidas e consequências facilitando narrativas falsas.

É o caso do apregoado sucesso econômico de Trump no período pré-pandemia. Ele herdou uma economia pujante, preparada no governo Barack Obama na resposta à crise de 2008. E deixou inúmeras bombas de efeito retardado.

A maneira imediatista como atuou, respondendo às demandas de empresas amigas ou do eleitorado, desestruturou o equilíbrio herdado de Barack Obama.

Segundo o Nobel de Economia, Joseph Stiglitz, sob Trump cerca de 30 milhões de residentes dos EUA passaram a viver em famílias sem alimentos suficientes. A maioria dos que estão na metade inferior da pirâmide de renda vive de salário em salário, em um momento em que Trump não apenas cortou os impostos corporativos mas também implementou políticas que recairão sobre os mais vulneráveis. O número de americanos sem seguro de saúde aumentou em milhões, depois de cair na administração Obama. Com isso, a expectativa média de vida caiu abaixo do nível de meados da década de 2010.

Uma outra frente de destruição foram os ataques sistemáticos às instituições norte-americanas – comportamento em tudo similar ao seu clone, Jair Bolsonaro. Atacou o FBI, o Centro Para Controle e Prevenção das Doenças. No plano internacional, estimulou o aparecimento de lideranças fascistas.

Seu pior ato foi a tentativa de eliminar o programa DACA, para estrangeiros que foram trazidos para os EUA quando crianças e ainda não obtiveram documentos. Mesmo criados nos EUA, enfrentam as ameaças da deportação.

Na outra ponta, implementou cortes agressivos de impostos corporativos sob a falsa promessa de que geraria mais investimento, crescimento e emprego. Trouxe apenas mais concentração de renda e o aumento do déficit fiscal, a um custo de US$ 1,5 trilhão. Foram criados menos empregos do que nos últimos três anos do governo Obama.

Um segundo abuso foram os favores prestados a grupos econômicos de amigos e aliados. Especialistas apontaram nesse tipo de política um desestímulo ao empreendedorismo e à inovação.

Para reduzir o déficit comercial, promoveu terremotos no comércio mundial e um aumento das tensões com a China. E em apenas três anos, o déficit comercial aumentou em mais de 12%. E não se concretizou a promessa de criação de empregos.

Como anotou o cientista Michael Lewis, o  país agora está sofrendo de umapandemia e permanece totalmente à mercê de uma iminente crise climática, crises socioeconômicas e crises de democracia e justiça racial, sem mencionar as divisões emergentes entre urbano e rural, litoral e interior, jovens e velho.

A partir desse histórico terrível, alguns economistas mais progressistas apostam as fichas em Biden. Julgam que combaterá a desigualdade crescente de renda, encarará as ameaças ambientais, retornará ao Acordo do Clima – do qual os EUA se afastaram nos últimos dias.

Mas o ponto central é a economia. Diz o Nobel de Economia, Edmund Phelps que desde os anos 70 os EUA convivem com a estagnação virtual da economia . Aumenta a frustração dos assalariados, a falta de perspectivas das famílias.

Essa mesma visão sobre o marketing dos republicanos, de serem melhores administradores da economia, foi criticada também por Noriel Roubini, que se tornou conhecido ao prever a crise de 2008.  Constatou ele que as piores recessões dos EUA quase sempre ocorreram em governos republicanos .

A razão é simples: movimentos especulativos estimulados por políticas regulatórias frouxas  promovendo crises financeiras.

Barack Obama herdou de George W. Bush a pior recessão desde a Grande Depressão, diz ele,. No início de 2009 a taxa de desemprego estava em 10% e o mercado de ações caía quase 60%. Situação totalmente distinta do início de 2017, quando o bastão foi passado para Trump.

Segundo Roubini, não se espera de Biden grandes movimentos radicais. Mas um conjunto consistente de políticas fiscais direcionado às famílias, trabalhadores e pequenas empresas, gastos com infraestrutura, geradoras de empregos, e investimentos na economia verde.

Há uma demanda dos democratas por salários mínimo mais altas, para aumentar a renda do trabalho e o consumo. Defendem também proteção para os poupadores vítimas de instituições financeiras predatórias.

Em relação à China, diz Roubini, haveria uma política de “coopetição”, de uma cooperação competitiva.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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7 Comentários
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  1. vera lucia venturini

    6 de novembro de 2020 8:53 am

    Se os orgãos de segurança americanos não atacarem os grupos obscuros da blogosfera (como o QAnon) que bestificam as pessoas com teorias da conspiração, não ampliar a vigilância sobre as igrejas neopentecostais que atuam mais na política do que na questão religiosa e usam a blogosfera para espalhar a ignorância e o obscurantismo, uma boa parcela da população americana vai continuar apoiando a caminhada da “América” para o abismo. Terroristas virtuais como Steve Bannon (ontem ele pregou a decapitação e fixação em estacas das cabeças do infectologista Anthony Fauci e do diretor do FBI) tem que ser acusados e presos pela manipulação que fazem contra o estado de direito. Líderes religiosos também tem ser enquadrados e processados porque atuam mais na área financeira e politica do que na religiosa. O FBI não perseguiu o PT, destruiu as empresas brasileiras e possibilitou um golpe fazendo espionagem financeira? Pois que trabalhem agora para evitar que a sociedade ocidental caminhe para o obscurantismo e a barbárie fascista.
    Um país tomado pelas corporações financeiras e militares de um lado e com rebeliões obscurantistas com uma população fortemente armada de outro vai precisar de um grande esforço gigantesco por parte do seu governo e de sua elite para retomar o respeito e reconhecimento dos direitos dos seus cidadãos.

  2. Dermeval Santos Lopes Junior

    6 de novembro de 2020 10:46 am

    Nassifão,não sei se possível,mas vou lhe pedir um grande favor.
    Na próxima vez que se encontrar com seu amigo Pai Ambrósio,e antes da certeira facada você fará o seguinte:Ô Pai,o negócio é o seguinte:Eu ia lhe dar $ 200 pilas,mas você induziu ao erro o melhor comentarista político do meu Blog.Ele previu que Joe Biden seria indicado por 304 DELEGADOS,mas você conveceu-o-o a cravar 280.Tome $ 100 mangos e desapareça da minha frente que tenho muito o que fazer,além de você correr o risco d’eu espalhar que você é um Pai de Santo Paraguaio,algo parecido com o FDP do Celso Russomano.Antecipadamente agradeço.

  3. Dermeval Santos Lopes Junior

    6 de novembro de 2020 12:02 pm

    Vejam o preço de se habitar na República Federativa da Gatunagem(espero na ocasião encontrar-me bem longe daqui).
    Corre a boca grande que Joe Biden,pela idade avançada,cumprirá os primeiros 4 anos de mandato e indicará como substituta aquele avião Concorde dos anos 90,eleita sua Vice-Presidente.
    Aqui já se fala a boca pequena,que o abestalhado do Gal Mourão será substituído pela esquizofrênica e feia pra dedeo ,Damares Alves.
    Caso isto se concretize,o Estado Islâmico terá um novo integrante que não responderá por seus atos.

    1. Vera Lucia Venturini

      6 de novembro de 2020 2:45 pm

      Nenhuma mulher pode ser desqualificada pra ocupação de um cargo por sua aparência. O que nos define é o nosso intelecto.

      1. Dermeval Santos Lopes Junior

        6 de novembro de 2020 5:32 pm

        Concordo plenamente com a senhora,desde que não tenha visto Nosso Senhor Jesus Cristo em cima de um pé de goiaba.

        1. Dermeval Santos Lopes Junior

          6 de novembro de 2020 8:29 pm

          Dona Vera,gosto muito da Senhora,mas mexeu com meus brios.”Me desculpem as feias,mas a beleza é fundamental”.Se encontrar o autor da frase,recomendações a ele.Por óbvio,sendo a senhora espírita.Tem mais.A Senhora acha que para montar um avião daqueles,não é necessário intelecto aos borbotões.Sinta-se abraçada,ficando a certeza de que mexer comigo não é uma boa.

  4. FLÁVIO PAZATTO DO AMARAL

    8 de novembro de 2020 8:57 pm

    Biden é a vitória da democracia americana frente aos fascismo, racismo, xenofobia. É inegável que Biden não é o melhor para os povos latinos , todavia é o que temos no momento ou vcs queriam mais 4 anos de Trump?? aí o Bozo 2022 seria uma possibilidade, posto que forças internacionais apoiariam este genocida brasileiro. Penso, pelo lado democratas com a eleição de 40 deputadxs com pensamento de esquerda. Em suma, vamos pensar e torcer por Boulos no 2* turno em SP e Benedita no RJ, aqui em Porto Alegre nossa meta é 30% Manuela para que no 2* turno fica mais tranquilo a sua vitória.

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