3 de novembro de 2026

André Lara e o princípio de Lampedusa, por Luís Nassif

Mercado faz um carnaval em torno de uma proposta que não arranha os fundamentos do modelo para evitar medidas mais drásticas.
André Lara Resende em foto de Antonio Scarpinetti/Jornal da Unicamp

André Lara Rezende propõe transferir controle da política monetária para o CFMN e mudar metodologia de projeção da inflação.
Mercado reage com volatilidade e carry trade mantém pressão sobre câmbio; BC realiza intervenções para conter instabilidade.
Experiências internacionais indicam controles parciais a fluxos de capital; Brasil deve limitar riscos e ajustar regras prudenciais.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

O carnaval que o mercado irá fazer, contra a proposta André Lara Rezende, é a tática do esperneio. Faz um carnaval em torno de uma proposta que não arranha os fundamentos do modelo para evitar medidas mais drásticas.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Os pontos centrais para disciplinar o mercado são óbvios:

  1. Definir limites legais aos spreads bancários.
  2. Restringir o máximo possível as operações de carry trade e o prazo de permanência do capital volátil

Em seu paper, André esbanja conhecimento sobre teoria monetária, mas passa ao largo de medidas administrativas essenciais inclusive para fases de transição para a nova política monetária.

Há dois pontos centrais em sua proposta.

O primeiro, tirar o poder de definir projeções de inflação e taxas de juros das mãos do mercado. E definir novas metodologias para estimar as expectativas de inflação.

Hoje em dia, a Selic é definida da seguinte maneira:

  1. O CMN estabelece a meta de inflação

    Desde janeiro de 2025, a meta é contínua, de 3% ao ano, com intervalo de tolerância entre 1,5% e 4,5%. O Banco Central escolhe os instrumentos para perseguir essa meta. O CMN é composto pelo Ministro da Fazenda, do Planejamento e pelo presidente do BC.
  2. Os departamentos técnicos do Bacen preparam os estudos

    São examinados inflação, atividade econômica, emprego, salários, crédito, contas públicas, câmbio, juros internacionais e expectativas. Também são elaborados cenários e projeções. Todos eles são baseados na Curva de Phillips e Curva IS, que joga todo o peso da inflação nas costas da demanda e dos salários.
  3. Primeiro dia da reunião: apresentações técnicas

    Normalmente na terça-feira, os técnicos apresentam a conjuntura econômica nacional e internacional aos integrantes do Copom. As decisões são tomadas pelo presidente e por 8 diretores do Bacen.
  4. Segundo dia: projeções e deliberação

    Na quarta-feira, são discutidas as perspectivas de inflação, os riscos e as alternativas de política monetária. Os dirigentes deliberam sobre a Selic.
  5. Votação

    Os integrantes presentes votam. A decisão é por maioria simples, e o presidente tem voto de qualidade em caso de empate.
  6. Comunicado e ata

    O comunicado sai na própria quarta-feira, a partir das 18h30. A ata, mais detalhada, normalmente é divulgada na terça-feira seguinte, às 8h.
  7. Execução pelo Banco Central

    O Departamento de Operações do Mercado Aberto utiliza operações com títulos públicos para manter a Selic efetiva próxima da meta definida.

A proposta de André Lara Rezende propõe duas mudanças:

Mudança 1 – o novo CFMN

A proposta é meio vaga, sem especificar a composição do CFMN (Conselho Fiscal e Monetário Nacional), o número de integrantes, o procedimento de votação, os critérios objetivos para autorizar juros acima do teto, a relação jurídica com a autonomia do Banco Central. Mas retira o poder do Copom e transfere para uma outra instituição.

Pelo artigo, o CFMN teria as seguintes atribuições:

AtribuiçãoO que faria o CFMN
Metas fiscaisEstabeleceria metas plurianuais de arrecadação, custeio e investimentos, orientadas pela racionalização e simplificação das contas públicas.
Meta de inflaçãoDefiniria a meta de inflação em conjunto com a trajetória de juros.
Limites para a SelicFixaria uma faixa para a taxa básica, vinculada à meta de inflação e ao crescimento nominal potencial.
Autorizar exceçõesTeria de autorizar juros fora da faixa estabelecida, em circunstâncias excepcionais.
Coordenação fiscal e monetáriaCompatibilizaria as metas fiscais com a política de juros e seus efeitos sobre a dívida pública.
Planejamento plurianualEstabeleceria as diretrizes para quatro ou cinco anos, reduzindo a dependência de decisões conjunturais.

Mudança 2 – a metodologia de projeção da inflação.

Modelo Atual — convencional: inflação explicada por expectativas, hiato do produto, câmbio, inércia e choques de oferta, com os efeitos defasados da Selic.

Modelo ALR — acrescentaria os efeitos dos juros sobre custos empresariais, serviço da dívida, condições fiscais e inflação de longo prazo, sem presumir que toda redução dos juros seja imediatamente desinflacionária.

A lógica do carry trade, a bet do mercado financeiro

A proposta passa ao largo de pontos centrais do mercado financeiro: os spreads bancários e as operações de carry trade – aquela pela qual o investidor toma dinheiro emprestado em países de juros baixos e aplica em países de juros altos.

Os investidores acompanham diariamente as taxas de juros de 8 países emergentes e comparam com as dos países centrais.

PaísJuros básicosDiferencial vs. EUA
Turquia37,00%+33,13 p.p.
Brasil13,75%+9,88 p.p.
Colômbia12,25%+8,38 p.p.
África do Sul7,25%+3,38 p.p.
México6,50%+2,63 p.p.
Indonésia5,75%+1,88 p.p.
Índia5,50%+1,63 p.p.
Chile4,50%+0,63 p.p.

Sobre esses dados, eles calculam o risco de variação cambial. Se houver uma desvalorização cambial, a remuneração encolhe. Se houver valorização, a remuneração engorda.

Em torno desse jogo, há um enorme cassino montado no mercado de derivativos. Trata-se de um mercado onde os jogadores apostam sobre a cotação do dólar, mas só utilizando reais. O vendido vende um contrato referenciado em dólares para o comprado, que adquire o contrato. Não entram dólares no meio. No vencimento, se o valor do dólar for superior ao fixado no contrato, o vendido paga a diferença ao comprado. E vice-versa.

Embora em reais, essa bet interfere diretamente nas cotações do dólar;

Em dezembro de 2024, por exemplo, o mercado meramente suspeitou que o real poderia se desvalorizar em relação ao dólar. Bastou um instante de dúvida para três grandes instituições começarem a tirar dólares do país, provocando um estouro da boiada que obrigou o BC a aumentar a Selic – quando todos os demais países reduziam suas taxas básicas.

Todo esse movimento foi uma resposta à decisão da Fazenda, de aplicar isenção de Imposto de Renda para rendimentos de até R$ 5 mil.

DataAcontecimento
27/11Anúncio do pacote fiscal e da proposta de isenção de IR até R$ 5 mil; reação negativa dos mercados
11/12Copom eleva a Selic para 12,25% ao ano
12/12BC inicia sequência intensa de intervenções cambiais
16–17/12Novos leilões de dólares à vista e linhas cambiais
18/12Dólar fecha próximo de R$ 6,27; Fed sinaliza menos cortes de juros nos EUA
19/12Dólar chega a R$ 6,30 intradiariamente; BC vende US$ 8 bilhões à vista; cotação fecha em R$ 6,124
30/12BC realiza nova venda de US$ 1,815 bilhão à vista

Esse é o grande poder de retaliação do mercado, que precisa ser anulado concomitantemente com qualquer tentativa de racionalizar o mercado e o Copom.

O que outros países fizeram

A experiência internacional mostra que há alternativas entre deixar os movimentos financeiros correrem livremente e fixar o câmbio por decreto.

Nos anos 1990, o Chile exigiu que parte de determinados capitais que entravam no país fosse depositada no Banco Central sem remuneração. O mecanismo, conhecido como encaje, tornava mais custosas as operações de prazo curto. A experiência ajudou a alongar o prazo dos recursos, embora as evidências sobre seu efeito duradouro no câmbio sejam menos conclusivas.

A Coreia do Sul seguiu outro caminho. Depois da crise de 2008, passou a limitar posições dos bancos em derivativos cambiais em relação ao seu patrimônio. O objetivo era reduzir a exposição das instituições a movimentos bruscos e ao financiamento externo de curto prazo.

A Indonésia também recorreu a prazos mínimos para determinados títulos do Banco Central e, posteriormente, a exigências de proteção e liquidez para empresas com dívidas em moeda estrangeira. Em comum, essas iniciativas procuravam reduzir vulnerabilidades específicas, não proibir todo investimento estrangeiro.

A Malásia adotou uma resposta mais dura na crise asiática. Em 1998, fixou o câmbio, restringiu saídas de capital e a negociação externa do ringgit. Ganhou margem para conduzir sua política monetária, mas fez isso em condições de crise e com controles severos. A recuperação não pode ser atribuída exclusivamente a essas medidas.

O ponto brasileiro

No Brasil, qualquer estratégia terá de considerar o mercado de derivativos.

O desafio não é acabar com o hedge, nem presumir que toda operação financeira seja nociva. É impedir que a alavancagem excessiva e a concentração de posições ampliem os movimentos do câmbio. Para isso, podem ser examinados limites prudenciais, exigências de capital e regras de margem ajustadas ao risco, preservando o acesso de empresas à proteção cambial.

Outra frente seria desestimular novas entradas de capital de curtíssimo prazo, por meio de tributação ou de exigências calibradas segundo o prazo e o risco da operação.

As reservas continuam importantes para enfrentar a falta de liquidez e movimentos desordenados. Mas há uma diferença entre suavizar uma oscilação e garantir ao investidor que poderá sair do país a uma cotação protegida pelo Estado. No segundo caso, o risco privado pode acabar transferido ao setor público, enquanto as reservas, que são finitas, são consumidas.

Nem o FMI trata mais toda medida sobre fluxos de capital como heresia. Em 2022, o Fundo passou a admitir, em circunstâncias específicas, medidas preventivas sobre ingressos de dívida que também tenham finalidade macroprudencial, diante de vulnerabilidades financeiras relevantes. Não se trata de um aval a controles generalizados nem de um substituto para ajustes macroeconômicos necessários.

Uma agenda para baixar os juros

O mérito da discussão aberta por Lara Resende é questionar a naturalização dos juros elevados. Mas a mudança não depende apenas de decidir uma nova trajetória para a Selic. Exige preparar a economia para a transição: acompanhar posições cambiais, limitar riscos excessivos, proteger o financiamento da produção e definir como o Banco Central atuará diante de movimentos desordenados.

Nenhuma dessas medidas elimina o risco cambial ou assegura, por si só, inflação menor. E o dinheiro que deixa uma operação especulativa não se transforma automaticamente em investimento produtivo: para isso são necessários projetos, financiamento e condições de rentabilidade.

A proposta de André tem o mérito de mudar institucionalmente o controle da política monetária, transferindo-a para o CFMN. 

Mas não se pode esquecer a experiência recente.

Em dois momentos, o presidente do BC, Gabriel Galípolo valeu-se do risco representado pela alta volatilidade do mercado, para impedir qualquer avanço sobre a influência do mercado no banco.

A primeira foi em dezembro de 2024, quando Haddad procurou acalmar o mercado, dizendo que o BC poderia segurar a volatilidade do câmbio. Imediatamente Galípolo saiu a campo dizendo que “o BC não vai segurar câmbio no peito, não é assim que funciona”, que foi interpretado como desrespeitoso a Haddad.

A segunda vez foi quando Haddad pensou em indicar o economista Guilherme Mello – então Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda – como diretor do BC. Galipolo foi até Lula insinuando que a indicação poderia ser interpretada como intervenção governamental no BC. Segundo reportagens da época, alegou que a indicação provocaria pressão sobre os juros futuros de longo prazo.

Os episódios determinaram a ruptura definitiva entre Haddad e Galipolo. Padrinho da indicação de Galípolo ao BC, Haddad considerou-se traído.

Mas o episódio confirmou dois fatos:

  1. A captura do mercado sobre o BC.
  2. O uso da alta volatilidade do mercado (fruto do carry trade) como instrumento de pressão.

OBS Editor: O Princípio ou Estratégia de Lampedusa (também conhecida como a lógica de “mudar tudo para que tudo fique na mesma”) é um conceito político e sociológico baseado na famosa frase do romance O Leopardo, escrito pelo nobre italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa.

LEIA TAMBÉM:

Receba os artigos de Luís Nassif pelo WhatsApp

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Recomendados para você

Recomendados