20 de junho de 2026

Começa a virada da indústria, por Luís Nassif

O plano traz as melhores lições dos planos de desenvolvimento anteriores, evitando os vícios e reforçando as qualidades.

Anunciado ontem, o plano da neoindustrialização tem alguns componentes essenciais.

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Primeiro, marca a virada na apatia interna no primeiro ano de governo. Ontem, repetindo a inauguração da Refinaria Abreu e Lima, Lula reforçou as linhas gerais do seu projeto, focado na produção, na inovação, em torno de temas centrais, como as mudanças energéticas e a mobilidade.

Segundo, explicita o grande pacto de Lula com um setor relevante – e abandonado – da economia: a indústria. Mais um pouco, ele evoluirá para um conceito mais amplo: a produção, e colocará debaixo do guarda-chuva a indústria, o comércio, o cooperativismo, o MST, as associações comerciais.

O plano é assinado por algumas das principais associações empresariais e sindicais. E traz as melhores lições dos planos de desenvolvimento anteriores, evitando os vícios e reforçando as qualidades.

Os pontos centrais do programa são:

  1. Compras públicas

Os setores com mais probabilidade de sucesso são aqueles que dependem de compras públicas, pois já têm a perspectiva de receita futura. Foi assim com o mais bem sucedido programa industrial brasileiro – o complexo industrial da saúde. Esse plano passa por compras públicas e pela exigência de conteúdo nacional para setores relevantes.

  1. Montado com setor privado

O plano foi fruto de muitas reuniões do Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI), juntando os principais setores da indústria. O método, além de permitir uma visão sistêmica do conjunto da indústria, é uma boa vacina contra tentativas de reeditar os campeões nacionais.

  1. Estímulos fiscais

Os incentivos fiscais são uma arma poderosa. Na semana passada, foi anunciada a possibilidade da depreciação acelerada para investimentos industriais.

  1. Financiamento acessível

O BNDES está trabalhando na captação de recursos para novas linhas, que permitirão oferecer financiamentos fora da camisa de força da Selic.

  1. Visões integradas, definindo temas prioritários e metas de desempenho.
    1. Economia verde
    2. Mobilidade
    3. Mecanização agricultura familiar
  2. Tocada por instituições oficiais e ligadas a inovação

Um plano só funciona adequadamente, no plano operacional, nas mãos de grandes empresas públicas. A neoindustrialização será tocada pelo BNDES, Petrobras, Finep (Financiadora de Estudos e Pesquisas) e Embrapii, uma parceria do Ministério de Ciência e Tecnologia com a Confederação Nacional da Indústria, visando financiar inovações industrial.

  1. Metas

O plano define metas para cada programa para os próximos anos.

As missões

O plano foi dividido em 6 missões:

  1. Cadeias agroindustriais sustentáveis e digitais para segurança alimentar, nutricional e energética.
  2. Complexo econômico e industrial da saúde, para reduzir as vulnerabilidades do SUS (Sistema Único de Saúde).
  3. Infraestrutura, saneamento, moradia e mobilidade sustentáveis.
  4. Transformação digital da indústria.
  5. Bioeconomia, descarbonização e transição e segurança energéticas.
  6. Tecnologias de interesse para a soberania e defesas nacionais.

As dúvidas

A principal dúvida é quanto a articulação e a coordenação do plano, já que haverá necessidade de ações conjuntas de várias áreas. A coordenação deveria ser do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Mas não tem quadros suficientes.

Provavelmente haverá um conselho superior, composto por representantes dos órgãos operacionais e da indústria, visando monitorar as ações.

Por exemplo, haverá necessidade de uma interação entre instrumentos financeiros e pesquisas acadêmicas. O país dispõe de uma ampla estrutura de universidades públicas e institutos federais, criados na época de Fernando Haddad, Ministro da Educação. Como fazer a integração?

São inúmeros desafios, que demandarão uma discussão aprofundada da mídia.

Por enquanto, o que se viu foi meia dúzia de papagaios, repetindo o bordão de que política industrial é coisa antiga que atrapalha a eficiência da economia.

Constata-se, mais uma vez, que um dos maiores custos do país é a incapacidade da mídia de se aprofundar em qualquer tema relevante.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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2 Comentários
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  1. Daniel Zanin

    23 de janeiro de 2024 9:52 am

    Insegurança jurídica, alto custo financeiro para contratação e manutenção do empregado, logística cara, valor alto de impostos,nosso mercado consumidor está individado e sem poder de compra. Aumento volumoso de gastos , principalmente com compromissos fixos,bolsas e afins , aumento do gastos com estrutura do estado , orçamentos parlamentares altíssimo, isso inclui campanha política. Se tivermos mais defit, teremos Aumento do dólar, inflação e juros altos. Isso provavelmente aumentará a criminalidade que já é bem permissível, pelo menos pelo lado da imprensa.
    Já vimos isso no governo Dilma.
    Além do mais faz 15 anos de governo PT,se olharmos para 2003 e agora , é o mesmo cenário, nada mudou , e vou lhe dizer o motivo, se alguém quisesse mudar alguma coisa aqui , a primeira medida seria consertar a educação, este é o único investimento capaz de acabar com a desigualdade.
    Ontem assisti o filme de Napoleão, e no começo do filme aparece Maria Antonieta sendo degolada,que fim trágico, que ponto chegou a França.

    1. Moacir Rodrigues de Pontes

      23 de janeiro de 2024 6:37 pm

      Então nossos atuais juros estratosféricos não têm nada a ver com nosso “defit”?

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