17 de junho de 2026

Como as organizações criminosas conquistaram a política, por Luís Nassif

Se Al Capone precisasse hoje operar a partir de bares clandestinos, provavelmente perderia espaço para um algoritmo bem calibrado no TikTok.
Al Capone

Corrupção nos EUA atual supera Chicago histórica, com esquema pay to play movimentando US$ 2,25 bi até 2026.
Ultradireita usa redes digitais e financiamento institucional para influenciar política e crime, modelo exportado ao Brasil.
Lavagem de dinheiro cresce com financeirização, fintechs e fundos opacos, facilitando capital ilícito no sistema financeiro.

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Resumo gerado por Inteligência artificial

A corrupção que se instalou na administração pública dos Estados Unidos talvez só encontre paralelo na Chicago das décadas de 1920 a 1970.

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Chicago tornou-se o símbolo histórico da fusão entre crime organizado, máquina partidária e poder econômico. Desde o fim do século XIX, a cidade era marcada pela corrupção política sistêmica, pela prostituição aberta e pelo domínio de chefes do crime organizado. O auge veio com Al Capone e a Chicago Outfit, que controlavam jogos, bebidas e prostituição enquanto subornavam sistematicamente políticos, policiais e juízes. Paralelamente, consolidou-se a poderosa máquina democrata de Richard J. Daley, sustentada no clientelismo, no controle sindical e num domínio eleitoral quase absoluto.

Ainda assim, segundo críticos do segundo governo Donald Trump, o modelo atual superou Chicago em escala e sofisticação. A diferença fundamental é que o sistema contemporâneo opera menos nas sombras e mais à luz do dia — protegido por mecanismos legais, financiamento político institucionalizado e ecossistemas digitais de mobilização.

Relatório da minoria do Comitê de Supervisão da Câmara estima que os esquemas de pay to play (pedágio para conseguir negócios com o Estado) ligados a Trump movimentaram cerca de US$ 2,25 bilhões até janeiro de 2026, envolvendo entidades estrangeiras, oligarcas e interesses privados. O PAC MAGA Inc. arrecadou quase US$ 300 milhões em eventos realizados em propriedades da família Trump, com ingressos chegando a US$ 1 milhão por pessoa.

Os exemplos se multiplicam: contratos militares beneficiando empresas ligadas aos filhos do presidente; investimentos estrangeiros associados a negócios da família; perdões presidenciais concedidos após doações eleitorais; arquivamento de investigações contra grandes corporações financiadoras; e decisões regulatórias sistematicamente favoráveis a grupos econômicos aliados.

O quadro resultante é o de uma privatização do Estado federal americano: cargos, contratos, perdões e políticas públicas convertidos em moeda de troca política e financeira. A ampliação da imunidade presidencial pela Suprema Corte em 2024 reduziu ainda mais os riscos jurídicos inerentes a esse modelo.

Ultradireita e crime organizado

Esse fenômeno não é isolado. A ascensão global da extrema direita tem sido sustentada por alianças entre grandes interesses econômicos, lobby organizado, redes digitais e mecanismos sofisticados de influência política, abrindo espaço para o crime organizado.

Nos Estados Unidos, a NRA (Associação Nacional do Rifle) tornou-se o modelo pioneiro. De associação técnica de atiradores, transformou-se num movimento político-cultural estruturado a partir de mobilização identitária, pressão eleitoral permanente, uso intensivo de redes sociais, produção de conteúdo emocional de alta circulação e campanhas sistemáticas de guerra cultural.

Esse modelo foi exportado ao bolsonarismo no Brasil, especialmente através do movimento armamentista dos CACs. Os mecanismos são os mesmos: criação de uma sensação permanente de ameaça existencial, redes de influenciadores digitais, conteúdo algorítmico de alto impacto emocional e construção artificial de uma suposta maioria cultural.

O mesmo padrão se reproduziu em outros setores fortemente regulados, como apostas online e mineração: financiamento de influenciadores, campanhas digitais segmentadas, fabricação de “movimentos espontâneos” corporativamente financiados, captura de narrativas regionais e pressão contínua sobre marcos regulatórios.

No Brasil, tanto o mercado de bets quanto parcelas do setor mineral replicaram essa arquitetura com fidelidade.

Identifica-se assim um padrão estrutural comum, sustentado em quatro pilares: entidades aparentemente legítimas como fachada pública; financiamento eleitoral institucionalizado; ecossistemas próprios de mídia e redes sociais; e mobilização popular — real ou fabricada — como instrumento de pressão política.

A grande diferença é tecnológica

O suborno clássico dependia de malas de dinheiro, favores locais e acordos mantidos no silêncio. O modelo contemporâneo opera em escala industrial, impulsionado por algoritmos de engajamento, plataformas digitais e campanhas emocionais permanentes.

Se Al Capone precisasse hoje operar a partir de bares clandestinos, provavelmente perderia espaço para um algoritmo bem calibrado no TikTok.

Mercado financeiro e crime

A invasão do mercado financeiro pelo crime organizado decorre de dois fenômenos interligados: a ultra financeirização da economia e a espiral da especulação financeira.

O ganho do investidor se realiza sobre a valorização do ativo adquirido. Décadas de ultra fincanceirização, no entanto, tornaram os ativos reais extremamente caros em relação à oferta de dinheiro disponível. A saída encontrada pelo sistema foi abrir as comportas do mercado para a lavagem de capital em larga escala.

No Brasil, esse fenômeno tornou-se nítido a partir da gestão de Roberto Campos Neto no Banco Central. Sob sua condução, autorizou-se o funcionamento irrestrito de fintechs e permitiu-se a constituição de fundos de investimento sem transparência mínima — criando as condições institucionais para que capital de origem ilícita circulasse livremente pelo sistema financeiro regulado.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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2 Comentários
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  1. jose carlos lima

    27 de maio de 2026 2:10 pm

    Tudo consequência da Lava Jato, cujo objetivo foi tirar Lula da disputa política de 2018 e em seu lugar eleger a máfia que entregou tudo aos EUA e a gringos em troca de joias a título de propina pelo deságio de 80% para a entrega de gasodutos, BR Distribuidora, Eletrobrás, e tudo que gerasse grana para as empresas americanas
    
    Dai o apoio dos EUA a Farsa a Jato, afinal de contas o Brasil era a 6a maior economia mundial e disputava mercados numa disputa por espaços com os americanos
    
    Pois é, dado o golpe contra Lula e Dilma, o Moro recebeu como propina o cargo de MJ
    
    Na Itália ocorreu algo idêntico, a Operação Mãos Limpas destruiu a política e o vácuo foi ocupado pelo corrupto Silvio Berlusconi
    
    Moro se inspirou na Mãos Limpas para instalar um processo fajuto baseado em falsas acusações, muita gente não suportou: o reitor Luís Carlos Cancellier tirou a própria vida ao ser falsamente acusado. Fona Maruse não resistiu
    
    Enquanto isso Moro não respondeu por seus crimes
    
    Brasil celeiro das falsas acusações

  2. Doraci Alves Lopes

    28 de maio de 2026 7:26 pm

    É muito assustador! O combate ao atual crime organizado deve ser sofisticado.

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