22 de junho de 2026

De volta à Lollapalooza da inadimplência, por Luís Nassif

No primeiro semestre de 2024, mais de 1,3 milhão de brasileiros ficaram inadimplentes, e não apenas pelas bets.

Há dias, nosso colunista Luiz Alberto Melchert – um observador detalhista da realidade – já vinha alertando para novo festival de inadimplência. E o problema não eram apenas as bets.

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Ontem, a Confederação Nacional do Comércio, Bens, Serviços e Turismo (CNC) mostrou os dados. No primeiro semestre de 2024, mais de 1,3 milhão de brasileiros ficaram inadimplentes, e não apenas pelas bets.

A lógica da inadimplência é simples:

  1. Há uma montanha de dinheiro circulando na economia. Quando o Tesouro remunera o investidor, esse dinheiro não evapora. Volta para a terra, na forma de novos investimentos.
  2. Esse dinheiro precisa ser reciclado. E a reciclagem é feita pelos bancos no mercado de crédito.
  3. Os bancos definem um spread (diferença entre custo de captação e de empréstimo) que compensa as inadimplências. No final do período, haverá uma multidão de mortos-vivos da inadimplência. Parte do prejuízo o banco lança em balanço e reduz o imposto a pagar. Mas sua clientela foi reduzida porque inadimplente não toma financiamento.
  4. Aí vem o governo e permite a negociação geral das dívidas. Como o banco já lançou o prejuízo em balanço – reduzindo o imposto a pagar – o que entrar é lucro. Mais que isso: é cliente voltando ao mercado.
  5. Começa a rodada seguinte, seguindo o mesmo script da rodada anterior, e, agora, com as bets.

Repare que, em todo esse processo, o Banco Central atuou exclusivamente como promotor dos lucros bancários. Fôsse um Banco efetivamente preocupado com o sistema de crédito integral – que é composto por investidores, intermediários e tomadores – teria tomado um conjunto de medidas:

  1. Definiria taxas de juros máximas, especialmente para o crédito direto e para o cartão rotativo.
  2. Definiria limites para a concessão de crédito, quando percebesse aumento da inadimplência.
  3. Definiria regras severas para os bancos, em relação aos clientes que renegociaram sua dívida.
  4. Obrigaria a explicitação das taxas de juros desses tais 10 x supostamente sem juros.

Mas não tem problema. As bets vieram para salvar as contas públicas e a punir os ímpios.

Aliás, me lembra um debate que tive com Eduardo Gianetti da Fonseca no Instituto de Estudos Avançados da USP, ele empenhado em definir analogias entre o mundo animal e o humano.

Sua conclusão era a de que o homem é cigarra e os juros são altos porque os humanóides não negociam. Instituiu o cartel no reino animal.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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3 Comentários
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  1. Marcos Lopes

    26 de setembro de 2024 11:06 am

    Não se pode esquecer que o STJ numa interpretação teratologica do artigo 833 do CPC, estabeleceu a possibilidade da penhora de salários e aposentadorias para a quitação de qualquer dívida,fora dos parâmetros estabelecidos em lei, abrindo caminho para os interesses de financeiras e bancos. Tal decisão está só agravando a situação de trabalhadores, aposentados e pensionistas.

  2. Paulo Alberto Lima da Cruz

    26 de setembro de 2024 4:48 pm

    Essa questão de pessoas que recebem o Bolsa Família e/ou outros benefícios e que jogam em Bet, o governo deveria exigir que para jogar nas Bets a pessoa deve informar o CPF, e cruzar informação com os beneficiários. Constatado a jogatina, os benefícios seriam cancelados. Benefício social é para ser usado no sustento e não em jogatina!

  3. Georges

    26 de setembro de 2024 7:00 pm

    Taxxad chamou as bets de importante setor econômico e que precisa ser taxado. Dá para acreditar? Setor econômico? O sistema de crédito à população é cruel e predatório mas quem dos “representantes” do povo se incomoda com isso? Orçamento paroquial não tem juros né?

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