Ontem, no Projeto Brasil Nova Economia, reuni o perito em fraudes Marcelo Alcides Carvalho Gomes e o ex-trader e professor Manfred Back para discutir problemas e soluções no mercado de capitais, em um debate que percorreu das tradicionais maracutaias bancárias às novas engenhocas digitais do submundo financeiro.
Tecnologia: o crime avança, a fiscalização tenta acompanhar
Se há algo que não muda é o DNA da fraude. Continua tudo lá: crédito fictício, offshore para lá, entreposto para cá, e a velha engenharia para esconder dinheiro. O que mudou? A velocidade. A digitalização não criou novos pecados; apenas entregou aos fraudadores um par de patins elétricos.
Fintechs e instituições menores, alertam os especialistas, ainda patinam no compliance — e, sem controles à altura, viram terreno fértil para operações suspeitas. Pirâmides e esquemas Ponzi agora têm website moderno, logo futurista e promessa de “ganhos diários”. Só o golpe continua do século passado.
Regulação: técnica impecável, decisões… nem tanto
O debate abriu um flanco sensível: a aparente desconexão entre a excelência técnica dos fiscais do Banco Central e as decisões tomadas nos andares de cima. Marcelo foi direto: a fiscalização do BC é de altíssimo nível — a dificuldade está no topo, onde autonomia virou sinônimo, às vezes, de opacidade decisória.
Na CVM (Comissão de Valores Mobiliários), o problema é outro: um órgão que regula o mercado de capitais sem contadores na chefia e sem ex-traders no corpo técnico. Resultado: decisões frágeis em casos complexos que exigem profunda leitura contábil. Enquanto isso, operações mal fiscalizadas, como as do Banco Master e de certos fundos imobiliários, seguem como sintomas de um problema sistêmico.
Compliance e responsabilidade social: leis sobram, aplicação falta
Não faltam normas. Falta cumprir as que já existem. A profusão regulatória cria a ilusão de rigor, enquanto no mundo real prevalece o famoso “se colar, colou”.
A autorregulação da Febraban é vista como avanço, mas insuficiente diante do ambiente onde falsidade documental, uso indevido de dados de contadores e aberturas fraudulentas de empresas continuam rotina. Pequenas melhorias aparecem — como sistemas que alertam imediatamente o profissional cujo nome foi usado indevidamente —, mas o buraco é mais embaixo.
Mercado de capitais: comissões gordas, produtos opacos e incentivos tortos
O ambiente perfeito para golpes é fácil de descrever: ganância alta, informação baixa e comissões ainda mais altas. O trio funciona como combustível de cripto-tulipas, COEs vendidos como “super seguros” e consultorias que empurram produtos mais por incentivo que por adequação ao cliente.
No fim, quem deveria proteger é quem empurra o investidor para a boca do lobo, tudo dentro da lei — ou pelo menos da interpretação mais criativa dela.
Paraísos fiscais: o velho caminho do dinheiro sujo
A rota internacional segue imbatível: Delaware, Ilhas Virgens Britânicas, Panamá. Empresas abertas em 48 horas, estruturas em camadas, triangulação de notas e transações que atravessam três fusos horários antes que o fiscal termine o café.
Os EUA, agora mais atentos ao uso de seu sistema financeiro por organizações criminosas, têm buscado cooperação com o Brasil via tratados como o EMILAT.
EMILAT (ou “Tratado de Assistência Jurídica Mútua em Matéria Penal entre os Países do Mercosul e Associados”) é um acordo internacional que regula a cooperação jurídica e investigativa entre países da América Latina, sobretudo no combate a crimes financeiros, lavagem de dinheiro e delitos transnacionais.
Mas, como lembrou Back, para cada porta fechada surge uma janela criativa aberta pelo submundo.
O caso Refit, detalhado no debate, resume bem o jogo: múltiplas jurisdições, operações fictícias, sonegação em escala industrial e dinheiro retornando ao país por entrepostos cuidadosamente escolhidos.
O caso Banco Master: um microcosmo da crise regulatória
Um dos pontos mais delicados da reunião foi a crítica ao tratamento dado ao Banco Master: fiscalização técnica correta, mas decisões finais que ignoraram alertas sobre fraudes no consignado, movimentações atípicas e operações arriscadas. A aprovação da compra pelo BRB, sem análise adequada, virou símbolo dessa desconexão entre o que os técnicos veem e o que o topo decide.
Como lembrou Marcelo, liquidação não é sinônimo de crime — mas quando há indícios repetidos e nenhuma ação contundente, o sistema vira cúmplice involuntário.
O que fazer agora?
Os participantes convergiram em um ponto: soluções existem, falta implementá-las. Entre elas:
- Colocar contadores e auditores na diretoria da CVM.
- Reforçar compliance nas fintechs e instituições menores.
- Cumprir, de fato, as normas existentes.
- Integrar BC, CVM, MPF e polícias em um fluxo de inteligência único.
- Aumentar a transparência nas decisões regulatórias.
- Firmar acordos internacionais mais céleres para rastrear dinheiro sujo.
- Proteger dados de profissionais usados de forma fraudulenta.
- Educar a população para reconhecer golpes — antes de cair neles.
A síntese: tecnologia corre, o crime surfa — e o Estado precisa remar mais rápido
No fim, ficou uma sensação paradoxal: o país tem capacidade técnica para coibir fraudes; o que falta é vontade e estrutura para transformar alertas em ação. Enquanto isso, a ganância — esse motor perpétuo do crime financeiro — continua sendo o melhor aliado dos fraudadores.
A conclusão dos especialistas foi clara: só punição real, com prisão de executivos e desmonte das estruturas criminosas, pode quebrar o ciclo da impunidade. Até lá, o Brasil seguirá correndo atrás do prejuízo — e das operações “criativas” que brotam a cada nova tecnologia.
Veja o programa a seguir:
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José Machado
28 de novembro de 2025 9:05 amQuem desmontou a CVM, a Susep, o Banco Central?
O mercado financeiro, oras. A Faria Lima. Ela é a responsável direta, agora
até pelos golpes de Estado e o controle da mídia, da opinião pública.
O controle da mídia e da opinião pública nos últimos anos é um conjunto, de desinformação, enganação
mentira (estelionato puro) e semeação de muito (muito) ódio na política (todo sabem disso).
Quais as mídias do Brasil? Todas estão nas mãos do mercado financeiro, eles que são
os culpados, não só pelos golpistas que tiraram a Dilma e o Lula, e ascenderam bolsonaro.
mas também pelo desmonte do Estado, dos órgãos regualadores.
São culpados por toda miséria, pobreza de toda população e desigualdade social do Brasil.
A corrupção dos políticos é resultado deles do ataque ao Judiciário e da falta de um mísero
controle (por exemplo) das licitações públicas. A corrupção pode acabar com controles, não
se confia em pessoas, se confia em informações, controle, sistema de informações. As pessoas
são (a maioria) todas corruptas por natureza.
Aurélio Medina Dubois
28 de novembro de 2025 10:15 amNão, não é um “Esquema Ponzi”. É o “Esquema Vorcaro”, uma genuína “jabuticaba”. No devido tempo, é merecedor de um verbete no Wikipedia.
Caracteriza-se pela combinação criativa de empresário sem escrúpulos (criminoso), associado a políticos influentes (criminosos), que designam burocratas (criminosos) para operacionalizar prejuízos ao patrimônio público (BRB, Fundos de Previdência Públicos), além de explorarem a ingenuidade, credulidade e ganância de milhares de cidadãos brasileiros, carentes de um ganho “rápido, fácil e garantido”.
Neste esquema criminoso, cabe aos políticos atuarem para garantir a sobrevivência do esquema pelo máximo tempo possível, ou, se possível, sua legalização legislativa. São muito bem remunerados($$) por isso.
Aos burocratas/dirigentes de instituições públicas e coletivas cabe realizar as ações necessárias para transferir (roubar) o patrimônio público mediante singelas “canetadas”, e sem sombra de dúvida, e recebem seu quinhão ($$).
Na “divisão do bolo” dos atos criminosos, o empresário e “cabeça” da organização fica com a “parte do leão”, a seguir, os políticos e por último os dirigentes de instituições como BRB, Rio Previdência., …
No Esquema Vorcaro, com prejuízos a terceiros avaliados em BILHÕES, o “cabeça” fica com Bilhões. Os políticos mancomunados ficam com dezenas de MILHÕES, e os burocratas ficam com alguns milhões.
É ilustrativo o recebimento de uma mesada de R$ 250 mil, por um ex-presidente do INSS, atualmente preso, nas fraudes do INSS. Recebe enquanto o esquema criminoso perdurar. Durou pouco menos de 36 meses, é só fazer a conta de sua parte ($$).
Afinal, quando o esquema chegar ao seu fim, e vier a público, cada um resolva sua participação, a seu modo, com o sistema de justiça. Nesta hora, é preciso dinheiro, quanto mais melhor, para pagar a renomadas bancas de advocacia para livra-los dos crimes cometidos.
A este respeito, é recomendável a leitura da seção “Sérgio, o CEO de um banco, explica como se compra o mundo”, do livro “A Classe Média no Espelho”, do sociólogo Jessé Souza.
Aurélio Medina Dubois
28 de novembro de 2025 10:40 amEm relação a conclusão dos especialistas ” só punição real, com prisão de executivos e desmonte das estruturas criminosas, pode quebrar o ciclo da impunidade”.
Só condenar os criminosos na esfera cível é insuficiente, sempre o criminoso devolverá parte do que amealhou, mesmo se tratando de alguns BILHÕES, e sempre sobrará vários bilhões.
Pode satisfazer o MP e o sistema de justiça, ser divulgado pela mídia corporativa em manchetes garrafais, e sua circunscrição a esfera cível só estimulará novos e criativos crimes financeiros.
Tal como vem ocorrendo com os golpistas do 08 de janeiro de 2023, só a prisão, com trânsito em julgado”, por longos anos, é capaz de desestimular a recorrência deste evento criminoso, e frear por algum tempo outras iniciativas criminosas por parte do restante da Faria Lima.