É hora de superar as superstições monetárias, por Luís Nassif

Um conselho para revisar a política econômica, com representantes vários, seria a semente de um futuro Conselho Monetário Nacional

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O incensamento de presidentes de Bancos Centrais é uma prática universal, mesmo que o homenageado não seja nenhum gênio. Faz parte da retórica do mercado, um vício tão recorrente quanto a manipulação da relação causa-e-efeito na economia.

Se a economia vai bem, sob uma administração heterodoxa, é porque anos atrás ortodoxos aprovaram reformas, cujos frutos são recolhidos posteriormente. De 2008 a 2010 o país viveu um apogeu econômico, quando Lula não desperdiçou as oportunidades do mercado internacional com fórmulas ortodoxas esdrúxulas. Mas, para os idiotas da causalidade, o mérito foi de Fernando Henrique Cardoso, que deixou o país com déficit comercial a um aumento exponencial da dívida pública.

Em 2016, quando a crise abateu o governo Dilma, os idiotas da causalidade atribuíram os problemas de 2016 às medidas de 2008/2010.

James Keneth Galbraith não é apenas filho de um dos mais influentes economistas do século 20, Kenneth Galbraith. É também um economista renomado, formado em Yale, sendo professor das Universidades de Harvard e de Vermont. E é um crítico mordaz das narrativas de mercado.

Há 6 meses, os economistas do FED (o Banco Central norte-americano) consideravam improvável o chamado pouso suave da economia americana, diz ele, em artigo para o Project Syndicate. Isto é, a inflação caindo, a economia se desaquecendo um pouco, sem necessidade de novas altas nos juros.

Agora que seus prognósticos falharam, o que diz a mídia? Segundo Jeanna Smialek, do The New York Times, “o Fed neste momento parece muito bom (…) certamente eles se saíram muito bem”

Segundo os apologistas do FED, supostamente, as ações da Fed “desempenharam um papel em… impedir que os consumidores ajustassem as suas expectativas”. “No entanto”, diz Galbraith, “nenhum dos especialistas, incluindo os profissionais que orientam a política, partilhou o otimismo inflacionário agora atribuído às massas consumidoras ou sequer detectou a sua presença. Com todas as suas pesquisas e todos os seus modelos, eles ficaram surpresos”.

Diz ele que na medicina moderna, um diagnóstico específico  leva a um tratamento específico. Mas esse não é o caso da economia moderna. “Em vez disso, a ausência de uma sequência ordenada no episódio recente lembra a abordagem medieval da medicina, segundo a qual todas as doenças resultavam de um desequilíbrio dos quatro “humores” corporais. E, como na medicina pré-moderna, o tratamento é sempre o mesmo, independentemente da natureza do desequilíbrio humoral. Os médicos medievais tiravam sangue; os banqueiros centrais modernos aumentam as taxas de juro. O paralelo é exato, porque o pensamento não mudou (…) Na macroeconomia dominante de hoje, o sangue, a fleuma, a bílis amarela e a bílis negra foram substituídos por dinheiro, gastos governamentais, empregos e expectativas. Enquanto os poucos monetaristas restantes culpam a “impressão de dinheiro”, os fiscalistas concentram-se nos déficits  orçamentários. Depois, há os remanescentes da curva de Phillips, para os quais uma baixa taxa de desemprego deve sinalizar perigo. As teorias das expectativas cobrem as lacunas deixadas pelas outras três”

De fato, a economia está no final do ciclo da financeirização. A crise de 2008, o comportamento dos bancos centrais americanos e europeus, o avanço da ultradireita e, finalmente a constatação das malefícios das políticas de austeridade, exigem uma discussão ampla e aberta do governo. A idéia do elixir único para todas as doenças só pega os incautos e a mídia.

O ideal seria montar uma comissão de revisão da política econômica, e começar a discutir seriamente os impasses das políticas de austeridade.

Por exemplo:

1. É correto impedir o BNDES de cobrar taxas mais baixas que os títulos do Tesouro, sabendo-se que a liberação do financiamento é apenas o ciclo inicial do processo? Que o financiamento permitirá a criação de novas fábricas, que demandarão novos fornecedores, novos empregos, um aumento do investimento interno e, em operação, o pagamento de impostos? Ora, o cálculo do suposto subsídio ao BNDES tem que levar em conta todas as externalidades de um financiamento. Fazendo as contas em cima do histórico do banco, haverá todos os argumentos racionais para permitir a queda das taxas de juros dos financiamentos.

2. É correto tratar todas as inflações com o mesmo remédio da alta da taxa básica de juros, sabendo do impacto sobre o orçamento público?

3. É correto fazer política monetária, de controle da liquidez, com títulos públicos altamente remunerados?

4. É correto tratar o câmbio como uma variável de ajuste, sabendo que a volatilidade do câmbio espanta investimentos externos produtivos?

Não se vá esperar que essa discussão nasça de maneira espontânea na mídia. Mas um governo minimamente inovador não poderá ser conduzido eternamente pelas superstições de mercado. A criação de um conselho para discutir o tema, com representantes de várias correntes de economistas, representantes da indústria, comércio, dos trabalhadores, do agro, poderá ser a semente de um futuro Conselho Monetário Nacional, que tira definitivamente a política econômica do controle absoluto do mercado.

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Luis Nassif

1 Comentário

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  1. Quando se tem um político influente no governo ao qual só pensa em tirar impostos/desoneração/compensação tudo vira atraso,está provado q q esse pensamento guediano de atrair investimento é PURA FALÁCIA,não funciona,não funcionará e tem raiva do que funciona,essa maco.naria é atrasada,especulativa e desculpem a sinceridade sem moral e ética,não há espaci2 mais a viralatismo,defendem a entrega de ativos energéticos estratégicos a estrangeiros algo essencial para o desenvolvimento econômico industrial de um país,é preciso empresários racionalistas q queiram não só viver do Agroatraso e especulação imobiliária financeira,o povão quer desenvolvimento a todos e não especulações q beneficiem o 1 por cento,não a toa abocanham setores energéticos públicos muito lucrativos para podar e controlar lucrar o desenvolvimento do País é só verem o comportamento da Instituição privada bc dos banqueiros sufocando toda uma nação em nome do lucro dos 1 por cento!!!

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