Se a cobertura da mídia usasse o critério da relevância para hierarquizar suas notícias, a manchete de todos os veículos deveria ser a abertura da 5a Conferência Nacional de Ciência Tecnologia e Inovação. E não as declarações diplomáticas de Lula sobre a Venezuela. Poderá ser o 1º dia de um governo que, até agora, trabalhou em cima dos escombros deixados por Bolsonaro, mas com um Ministério desconjuntado e de pouco brilho.
Para um público composto por representantes das maiores associações empresariais, Ministros, sociedade civil, indígenas e uma multidão de cientistas e funcionários do setor, Lula mostrou que, pela primeira vez, há um projeto estruturante para seu governo, feito de fora para dentro, e com participação da sociedade.
Com a coordenação de Sérgio Rezende – apresentado por Lula como “o maior Ministro de Ciência e Tecnologia” da história -, foi-lhe entregue o arcabouço do desenvolvimento, um conjunto de estudos sobre os temas mais relevantes do país, tudo visto sob a ótica da ciência e da tecnologia.
O Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia (CCT), um relevante órgão público, quase desconhecido da opinião pública, e subordinado ao Ministério de Ciência e Tecnologia, foi incumbido pelo próprio Lula de montar os estudos em cima das novas oportunidades de industrialização e de inovação. E encomendou um estudo especial sobre Inteligência Artificial, para ser utilizado em todas as ações públicas.
O Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE), uma OS, deu a assessoria técnica ao Conselho.
Na abertura do encontro, viu-se um Lula que não se via desde os tempos gloriosos de 2010. No discurso, apresentou um objetivo claro de país grande, com o desafio de construir um dos cinco maiores supercomputadores do mundo, de ter sua própria IA e de montar sua nuvem de dados públicos. E conclamou todos os presentes a pensar na grandeza do país.
Recentemente, o Instituto Roosevelt, dos Estados Unidos, apresentou um estudo sobre a crise das democracias. A única salvação seria o aprofundamento das democracias. Não conseguiu encontrar nenhuma experiência válida no Ocidente. Voltou-se então para outros locais e encontrou no Brasil a melhor experiência participativa, moldada na Constituição de 1988, das Conferências Nacionais.
Não apenas isso. Ao longo de uma história marcada por inúmeros períodos ditatoriais (como 1964-1985) ou autoritários (2016-2022), o país conseguiu desenvolver uma rede impressionante de organizações sociais.
O trabalho da 5CNCTI foi ouvir cientistas, movimentos, empresários, militares (da tecnologia, não do Forte Apache) em cima de temas pré-definidos, abrindo espaço para a proposta de temas pelas organizações sociais.
Depois, as conclusões foram consolidadas em dois ebooks e, de ontem a amanhã, serão discutidas e aprofundadas em vários seminários presenciais e virtuais.
No dia anterior, foi apresentado ao Conselho Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, um órgão colegiado, de caráter consultivo e deliberativo, que se reporta diretamente ao presidente da República.
Mas não se ficará nesses trabalhos. Nos próximos meses, como anunciou Lula, haverá comitês definindo as ações a serem implementadas em cada Ministério, as metas, os passos que têm que ser dados.
Enfim, tudo aquilo que vínhamos cobrando há meses aqui: grupos de trabalho interministeriais e intersetoriais executivos, definindo os projetos, as metas, identificando os obstáculos e reportando-se diretamente ao presidente da República.
Lula foi claro no espaço aberto: quer que o grupo lhe diga o que precisa ser feito, passo a passo.
O projeto grande Brasil vai esbarrar na falta de recursos do país. A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) não tem concursos públicos desde 2013. O INPI (Instituto Nacional de Propriedade Industrial) fez um concurso recentemente, mas insuficiente para repor seus quadros. Os trabalhadores de ciência, tecnologia e inovação não têm reajustes há anos.
Mas, pelo menos, agora há um fio condutor e um presidente que acordou para a importância de um plano de metas.
Em relação ao financiamento, o encontro propôs a saída: a constituição de um novo fundo, com contribuições de dois setores profundamente beneficiados pelos avanços tecnológicos. Um deles, o agronegócio, que deve muito do que tem à Embrapa; outro, o mercado financeiro, que anualmente ganha até 700 bilhões de reais com os juros da dívida pública.
Todos os eventos estão sendo transmitidos (https://5cncti.org.br/conferencia-nacional/) e podem ser consultados.
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pedroe eneas
31 de julho de 2024 11:10 am“Em relação ao financiamento, o encontro propôs a saída: a constituição de um novo fundo, com contribuições de dois setores profundamente beneficiados pelos avanços tecnológicos. Um deles, o agronegócio, que deve muito do que tem à Embrapa; outro, o mercado financeiro, que anualmente ganha até 700 bilhões de reais com os juros da dívida pública”.
Que REALMENTE aconteça!
Haavcsjasabemquemééé
31 de julho de 2024 11:54 amNassif eu lendo hj somente as manchetes do ggn foi uma sensação de prazer e até surpresa,foi tão diferente como se tivesse um mundo informacional além da bolha uma espécie de mundo paralelo analitico e crítico,bem diferente da mídia chata,manipulativa e unissona dos bilionários da panelinha do cercadinho MUITO OBG EQUIPE GGN !!!
Milton
2 de agosto de 2024 8:13 pmBingo !
Caetano.
31 de julho de 2024 3:25 pmGovernar é isso. Sem metas e plano de execução, perdido no meio do varejo e de picuinhas políticas, não se vai a lugar nenhum. Antes tarde do que nunca!
Chico Pedro
31 de julho de 2024 3:51 pmO Lula é um timoneiro obtuso incapaz e que tem pela frente um furacão de classe 5. Mas os bajuladores não arredam pé do reverencismo tolo
Paulo Dantas
1 de agosto de 2024 12:34 pmConselhos , Grupo de Estudo, Planos de Metas etc.
Não tem a menor chance de dar certo.
Alguma BigTec nasceu de algo assim ?
Mas bom saber que o governo vê a importância da tecnologia.
Luiz
2 de agosto de 2024 3:43 pmPor falar em C&T, meu caro, saiba que a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (CEPLAC), órgão que passou à subordinação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), em 1984, nascida em 1957 com JK, foi a responsável pela dinamização da lavoura cacaueira do país. Se entre as décadas de 1960 e 1990 se o cacau alcançou quase 450 mil toneladas isso se deveu ao trabalho dos seus extensionistas, pesquisadores e cientistas que atuavam no Centro de Pesquisas do Cacau (na rodovia Ilhéus-Itabuna).
Pois saiba que este organismo reconhecido mundialmente está morrendo aos poucos. A maioria do se pessoal no Sul da Bahia, Pará e Rondônia se aposentou ou morreu. Dede 1987 não se efetivou nenhum, repetindo, nenhum concurso público para lhe dar sobrevida.
Agora, que a tonelada do cacau no mercado mundial alcançou até US$ 12 mil, mas se mantendo em média a US$ 7,5 mil, se fala no MAPA em projetos e outros planos mirabolantes. A sua atual dirigente deve ter ouvido falar de cacau na faculdade ou nas gôndolas de supermercados ao adquirir chocolate, pois não sai de Brasília para conhecer a realidade da CEPLAC em quaisquer centros que ainda mantém, inclusive no Espírito Santo, Amazonas e Mato Grosso.
Triste Ceplac, oh qual dessemelhante e triste (parafraseando o baiano Gregório de Matos, o Boca do Inferno e musicado por outro baiano Caetano Veloso).