16 de junho de 2026

O Liberalismo Autoritário: O Pacto entre Mercado e Repressão, por Luís Nassif

Aliança entre a liberdade de mercado e a repressão política, sustentado por ultradireita e conglomerados globais, por controle do Estado.

Um dos grandes equívocos da retórica política contemporânea é a associação automática entre liberalismo econômico e liberalismo político. Embora compartilhem o termo “liberalismo”, suas premissas e objetivos são distintos — e, em muitos momentos históricos, até contraditórios.

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Enquanto o liberalismo político se fundamenta na defesa dos direitos individuais, na separação de poderes e na soberania popular, o liberalismo econômico prioriza a liberdade de mercado, a propriedade privada e a mínima intervenção estatal. Essa dissociação é essencial para compreender o pacto internacional entre a ultradireita, setores da ilegalidade, mercados financeiros e grandes conglomerados globais — um pacto que sustenta o que chamamos de liberalismo autoritário.

A Concentração de Renda como Gatilho

A formação dos Estados modernos como instrumentos de concentração de renda gerou um desequilíbrio estrutural: de um lado, grupos econômicos extremamente poderosos; de outro, uma massa crescente de desassistidos. Esse contraste alimenta uma reação contra o “sistema”, mesmo que a maioria não compreenda os mecanismos que sustentam a desigualdade.

Esse mal-estar difuso corrói a legitimidade institucional e abre espaço para forças oportunistas — políticas, empresariais, criminosas e corporativas — que disputam o controle do Estado em processo de esgarçamento.

O liberalismo autoritário se alia aos grandes grupos econômicos, manobra o discurso do anticomunismo e da redução dos direitos trabalhistas para conquistar os setores desorganizados da sociedade. E, na fase final, recorre a milícias, como aconteceu na Itália e na Alemanha e começa a acontecer nos Estados Unidos.

Os Pilares do Liberalismo Autoritário

1. Desregulamentação Econômica

A regulação é o principal instrumento de proteção contra abusos de mercado, concentração de poder e violação de direitos. Ela abrange desde normas sanitárias até leis antitruste e garantias às minorias. A sua eliminação favorece a informalidade, o crime organizado, os monopólios e atividades nocivas como o jogo, a mineração predatória e a indústria bélica. É um discurso que cativa de organizações criminosas a grandes grupos econômicos.

2. Controle de Salários e Retórica Anti-Proletária

O controle salarial é justificado por um discurso que se diz pró-empresarial e anticomunista. Essa retórica desvia o foco dos problemas estruturais — como juros abusivos, spreads bancários e privilégios de grandes grupos — e constrói um inimigo imaginário, geralmente associado à classe trabalhadora organizada.

3. Privatização do Estado

A captura de funções estatais por interesses privados se dá pela venda de estatais estratégicas e pela privatização de serviços públicos essenciais, como saúde e educação. Trata-se de uma reconfiguração do Estado como instrumento de negócios, e não de cidadania.

O Apoio do Grande Capital ao Autoritarismo

Historicamente, o liberalismo autoritário se consolidou com o apoio de grandes grupos empresariais. Hitler e Mussolini ascenderam prometendo conter greves, sindicatos e partidos de esquerda. Em troca, ofereceram incentivos à indústria pesada e química, além de obras públicas que garantiram apoio popular e empresarial.

Na Itália (1922–1943)

Empresas como Fiat, Pirelli, Montecatini e grandes bancos aderiram ao regime fascista, reunidas no Conselho Nacional Corporativo e beneficiadas com contratos militares para a expansão colonial.

Na Alemanha (1933–1945)

Conglomerados como Krupp, IG Farben, Siemens, Allianz e Deutsche Bank lucraram com o rearmamento e o trabalho forçado. Com o fortalecimento do regime, iniciou-se a “arianização”: apropriação de empresas judaicas e expulsão de funcionários judeus.

Conglomerados e o Lucro com o Nazismo

Diversos megaconglomerados alemães prosperaram sob o nazismo, mantendo o poder e a riqueza de suas famílias fundadoras:

  • Volkswagen e Porsche: Criadas por Ferdinand Porsche, engenheiro favorito de Hitler, com uso de trabalho escravo.
  • BMW: Controlada pela família Quandt, ligada ao nazismo, que produziu aço e armas para o Eixo.
  • Krupp: Fabricou armamentos e empregou cerca de 100 mil trabalhadores forçados.
  • Siemens, Daimler-Benz, Allianz, Dr. Oetker: Todas colaboraram com o regime e utilizaram mão de obra escrava.

Empresas como IG Farben (BASF e Bayer), Degussa e Topf & Söhne lucraram diretamente com o fornecimento de insumos para o genocídio, como o pesticida Zyklon B e os fornos crematórios usados em Auschwitz.

Na Itália fascista, estudos mostram que empresas com vínculos com o Partido Nacional Fascista obtiveram vantagens mensuráveis. O mesmo padrão se repetiu na gestão Trump, nos EUA, onde o direito de propriedade era garantido apenas aos aliados.

Conclusão

O liberalismo autoritário é uma contradição em termos: promove a liberdade econômica ao mesmo tempo em que sufoca liberdades políticas e sociais. Historicamente, essa fórmula foi decisiva na ascensão de regimes fascistas e continua a ser utilizada como ferramenta de dominação.

A aliança entre grandes conglomerados e regimes autoritários revela que, em momentos de crise, o capital tende a se alinhar com a repressão — desde que seus interesses estejam protegidos. A história nos mostra que, quando o mercado se sobrepõe à democracia, o preço é pago pela sociedade.

Mas, pela lógica do fascismo, pode-se entender o namoro da Faria Lima com o governador paulista Tarcísio de Freitas.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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3 Comentários
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  1. Rafael

    1 de outubro de 2025 9:03 am

    O “sistema” é concentrador-excludente. Ele trabalha para que menos pessoas ganhem mais e mais pessoas ganhem menos. E quanto mais pessoas acreditarem e, a partir disso, afastarem-se do Estado e da política, mais o Estado trabalhará para o “sistema”.

    O Estado é um pêndulo. Quanto mais a população acreditar nele e participar do seu controle, menos ele colaborará para o “sistema”.

    Daí a importância das grandes empresas de mídia, inclusive as novas mídias digitais estadunidenses via algorítmicos, fomentarem o descrédito no Estado e na política (controladora do Estado). Essas empresas de mídia participam do “sistema”.

    Em outras palavras, quanto mais a população acreditar que o Estado é o “sistema” e, a partir disso, menos acreditar nele, mais útil ela será para o “sistema”. E assim, a população alimenta um círculo vicioso para ela e virtuoso para o “sistema”.

    Muito provavelmente um dia a conta virá para o “sistema”. Porque foi ele quem criou o Estado liberal e acabar com ele pode levar o “sistema” junto.

  2. jotadoAFFpontomarcelo

    1 de outubro de 2025 9:24 am

    O GATILHO DESTE INFERNO FOI LÁ ATRÁS COM O STF E A LAVAJATO,JÁ FAZEM DEZ ANOS E NÃO CONSEGUEM PÔR NA CADEIA OS CHEFES DA BAGUNÇA AFF,TODOS LEVES LIVRES E SOLTOS SÓ ESPERANDO A PRÓXIMA OPORTUNIDADE PARA FAZER UMA MALDADE,AFF !!!obs.:desde lá milhões de empregos perdidos com a lavajato r instalouse no judiciário a esbornia algo parecido no brasil aconteceu com a lei dos africanos livres ao qual todos viram uma opprtunidade de lucro e atingir objetivos pessoais deixando a coisa pública e institucionalidade na lata do lixo aff !!!

  3. Fábio de Oliveira Ribeiro

    1 de outubro de 2025 10:50 am

    Tem sido assim desde que Napoleão III subiu ao poder na França em meados do século XIX. No chão da fábrica o capital é fundamentalmente tirânico. E os donos dele têm uma tendência perversa de deformar sistemas políticos para impor ao conjunto da sociedade o mesmo tipo de relação hierárquica e brutal que mantém com seus empregados. O ciclo dos líderes políticos do capitalismo autoritário sempre termina por causa de uma guerra perdida. Mas no caso de Getúlio Vargas ele terminou por causa de uma vitória, o que não deixa de ser paradoxal.

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