O papel da educação pública e o conceito de projetos, por Luis Nassif

Não se trata de tarefa trivial, porque exige uma mudança de postura do professor. Não mais o comandante supremo da classe, mas o orientador.

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Alguns pensamentos sobre a educação pública, que expus na abertura do encontro da Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação.

Nas últimas décadas, o mercadismo desvairado consolidou um individualismo exacerbado em todas as instâncias da vida nacional, inclusive na pública.

Vigorou o padrão Jorge Paulo Lemann, exemplarmente desmascarado no caso Americanas. No caso das empresas, os princípios giraram apenas nas prioridades dos dividendos que ela poderia gerar. Para tanto, consolidou um conjunto de princípios:

  • Esprema os fornecedores o máximo que puder.
  • Aproprie-se das operações mais rentáveis dos fornecedores.
  • Monte sua política de recursos humanos visando reduzir sistematicamente o custo do trabalho.
  • Minimize as preocupações com a sustentabilidade da empresa a longo prazo, cortando investimentos, reduzindo os gastos com manutenção.
  • Se a estratégia prejudicar os indicadores, manipule-os sem que a manipulação seja percebida pela opinião pública.
  • Dívida o corpo de funcionários em dois: a diretoria, cúmplice da estratégia e participando dos resultados; e a rapaz, com poucas oportunidades de crescimento interno.

Esses princípios se impuseram nas políticas públicas do ultraliberalismo, especialmente no período Michel Temer- Jair Bolsonaro.

Toda política voltou-se para a privatização de serviços públicos, deturpando o sentido de empresa pública. Em vez de ter como objetivo o bem público, passa a ter como meta apenas o benefício ao acionista privado.

Os gastos sociais passaram a ser reduzidos com a tal âncora fiscal e com a manipulação de estatísticas – tal e qual a dos balanços das empresas.

Por exemplo, para melhorar os indicadores de educação de um estado, a orientação era fechar escolas noturnas e rurais – que concentram os alunos mais carentes e, por isso mesmo, com menor desempenho escolar.

Conseguiam ao mesmo tempo reduzir custos, melhorar indicadores, à custa de deixar de fora todo sistema a parte mais necessitada.

Sentimentos centrais na construção da cidadania – como a solidariedade, o foco no bem coletivo – passaram a ser substituídos pela fantasia da meritocracia, deixando a responsabilidade nas mãos de cada indivíduo, e não mais do Estado.

Na economia, empresas, associações comerciais, perderam totalmente a visão sistêmica. Apoiaram a fragilização dos direitos trabalhistas, porque significava uma redução dos custos do trabalho para cada uma. E não perceberam que levava, automaticamente, ao enfraquecimento do mercado de consumo.

Apoiavam os cortes sistemáticos de investimento – na presunção de que pagariam menos impostos. E não se devam contas do aumento de custos com estradas mal conservadas, obras inacabadas, educação prejudicada.

As escolas e a civilização

Tudo isso aumenta substancialmente o papel da educação e da rede escolar pública.

Não se trata apenas de ensinar o português e a matemática, mas incutir nos alunos valores de solidariedade, de responsabilidade social, de amor ao país.

Mas, para tanto, tem que haver uma modernização nos currículos – mas não essa loucura documentada pela mídia, de matérias tipo “como enriquecer” ou “como fazer bolo de fubá”.

O verdadeiro aprendizado tem que passar ao aluno a sensação sólida das transformações proporcionadas pelo conhecimento. Mais que isso, a interação entre as diversas matérias, visando resolver problemas reais da sociedade.

O melhor modelo é o do projeto: juntar a classe para montar um projeto útil, que envolva várias formas de conhecimento. E, em cada forma, incluir a grade escolar definida pelo Ministério da Educação.

Por exemplo, uma forma de conhecimento excepcional – especialmente na rede pública – são as chamadas tecnologias sociais: como organizar uma cooperativa de compras para pequenas empresas; um aprendizado sobre as formas de organização do MST e do MTST; princípios de cooperativismo. Em suma, o exercício da solidariedade implica, também, na soma dos pequenos, para enfrentar uma economia que carteliza-se a cada ano.

Não é tarefa trivial. Por isso mesmo, o MEC ajudaria envolvendo universidades que preparassem pacotes de projetos, temas de utilidade geral, devidamente definidas as formas de conhecimento envolvidas e a maneira de compatibilizar com a grade escolar.

No episódio histórico da ocupação das escolas secundárias, em São Paulo, alunos de muitas escolas passaram a utilizar o sábado para convidar pessoas de fora, para trazerem conhecimentos adicionais.

Não se trata de tarefa trivial, porque exige uma mudança de postura do professor. Não mais o comandante supremo da classe, mas o orientador, ensinando, mas aprendendo também com os novos temas e, principalmente, passando aos alunos o sentido de cooperação.

Luis Nassif

1 Comentário

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  1. Fazeno uma brincadeira, mas séria: Só pedir aos alunos para escolherem pelo Google Maps um lugar onde gostariam de morar. E fazer a pergunta: vai ser mais fácil morar lá estudando ou sem estudar? E vamos a partir daí.

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