5 de junho de 2026

Truculência de Trump faz renascer o nacionalismo brasileiro, por Luís Nassif

Politicamente, a truculência de Trump conseguiu o feito inédito da montagem da grande feita midiática em favor do Brasil.
Ricardo Stuckert

Nessa loucura tarifária do governo Trump, o Brasil foi o único caso em que se alegou questão política. Na prática, igualam o Brasil às sanções impostas ao Irã, Venezuela e Cuba.

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Estão em jogo dois pontos essenciais para o projeto Trump. O primeiro, a tentativa de substituir os poderes nacionais pelo poder das big techs. E o Brasil, graças ao Supremo Tribunal Federal e ao Ministro Alexandre Moraes, transformou-se na principal cidadela global contra o poder absoluto das grandes plataformas. O segundo motivo são os BRICS e o papel central do Brasil nas articulações geopolíticas.

A truculência de Trump vai provocar problemas imediatos. Mas, a médio prazo, levará cada vez mais os países a saírem da órbita de uma potência errática – os Estados Unidos – em direção a outra potência, que defende o multilateralismo e a colaboração entre nações.

Internamente, ficam caracterizados os crimes de lesa-pátria da família Bolsonaro e exposta a submissão vergonhosa do governador Tarcísio de Freitas ao Make America Great Again.

Politicamente, a truculência de Trump conseguiu o feito inédito da montagem da grande feita midiática em favor do Brasil. O nacionalismo poderá se converter em uma grande bandeira, a ser empunhada por Lula.

O Estadão antecipou seu editorial para, com o título  “Coisa de mafiosos”, proclamar “que  o Brasil não se vergue diante dos arreganhos de Trump. E que aqueles que são verdadeiramente brasileiros não se permitam ser sabujos de um presidente americano que envergonha a democracia”. O Jornal Nacional se redimiu de edições recentes com reportagens expressando a indignação ante a truculência de Trump.

Haverá desafios pela frente. Um deles é a definição de estratégias para os produtos brasileiros a serem taxados pelos Estados Unidos.

A balança comercial com os Estados Unidos registrou os seguintes números de janeiro a junho.

As principais exportações brasileiras são de insumos industriais elaborados, categoria que engloba aço laminado, alumínio refinado, polietileno, solventes industriais, resinas plásticas, PVC, placas de circuito impresso etc.

É o único setor em que o mercado norte-americano é dominante para o Brasil.

Em 2024, o Brasil exportou aproximadamente 4,08 milhões de toneladas de produtos siderúrgicos para os Estados Unidos, representando cerca de 42,6% do total das exportações brasileiras desse setor.  Em valor, essas exportações corresponderam a cerca de US$ 2,99 bilhões, dos quais US$ 2,3 bilhões foram referentes a produtos semielaborados (como placas de aço). 

Dados oficiais do governo brasileiro (ministério e Aço Brasil) indicam que, entre janeiro e março de 2025, o volume exportado para os EUA cresceu 40% em relação ao mesmo período do ano anterior, atingindo 661,1 mil toneladas em março, e acumulando um aumento de 34% no trimestre.

O volume de carne bovina exportada pelo Brasil para os Estados Unidos em 2024 foi de aproximadamente 229 000 toneladas, gerando uma receita de cerca de US$ 1,35 bilhão. 

Esse volume dos EUA representou cerca de 7,9% do total das exportações brasileiras de carne bovina em 2024, considerando que o volume total foi de 2,89 milhões de toneladas .

Com a ajuda da Inteligência Artificial, há as seguintes alternativas de mercado:

1. Produtos Siderúrgicos

  • Mercado atual (EUA): ~42% das exportações brasileiras.
  • Alternativas principais:
    • México – já é comprador relevante, tem acordo com Mercosul.
    • União Europeia – demanda por aço verde pode favorecer o Brasil, mas barreiras ambientais são crescentes.
    • Turquia – importante polo de reexportação e transformação.
    • Sudeste Asiático (Vietnã, Indonésia, Tailândia) – em expansão industrial.
    • China – mais difícil, pois é autossuficiente, mas pode importar semiacabados.

2. Carnes (bovina, suína, de frango)

  • Mercado atual (EUA): ~8% da carne bovina brasileira.
  • Alternativas principais:
    • China e Hong Kong – principais compradores (carne bovina e frango).
    • Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita – carnes halal, crescente demanda.
    • Egito e Irã – forte demanda por carne bovina congelada.
    • Indonésia, Filipinas e Malásia – mercado em expansão.
    • Chile e Egito – para carne suína.

Mas há uma alternativa melhor. O governo poderia conceder isenção aos produtores, mais financiamento do BNDES, para direcionarem a carne para o Bolsa Família.

3. Petróleo bruto e derivados

  • Mercado atual (EUA): relevante para petróleo leve brasileiro.
  • Alternativas principais:
    • China e Índia – principais compradores.
    • Países europeus – após sanções à Rússia, buscam diversificar fontes.
    • Chile e Argentina – para derivados.

4. Celulose e Papel

  • Mercado atual (EUA): importante, mas não dominante.
  • Alternativas principais:
    • China e União Europeia – principais destinos.
    • Índia e Indonésia – setor industrial em crescimento.

5. Produtos Químicos e Fertilizantes (quando aplicável)

  • Mercado atual (EUA): importante para químicos finos.
  • Alternativas principais:
    • América Latina – crescente demanda por químicos industriais.
    • África Subsaariana – emergente para fertilizantes.
    • Ásia (Índia, Vietnã) – uso agrícola e industrial crescente.

Já as importações dos Estados Unidos concentram-se mais em motores e máquinas, aeronaves e demais produtos da indústria de transformação.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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6 Comentários
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  1. fabricio coyote

    10 de julho de 2025 8:50 am

    TOXO aparato de carpintaria tecnológica do projac depende de importaçâo. como diz Ben Jonson, rival de Shakespeare: a carpontaria é a alma da farsa. ou seja, moraes não terá coragem de condenar boçalnaro. pois o seu patrão temer depende de importações ao porto de Santos.

  2. jsfilho

    10 de julho de 2025 9:53 am

    Com oera de se esperar, Trump saiu explicitamente em defesa do Bolzo. Não que ele  tenha grande apreço pelo ex-presidente. Trump sabe que ele não passa de um idiota sabujo, um vassalo imbecil. Porém ele também sabe que o Bolzo pode ser um ativo útil para ser usado em benefício dos interesses dos EUA, pois ele ainda tem significativa base eleitoral no Brasil. O presidente dos EUA  age como um jogador de pôquer. Blefa e dissimula, para tirar a atenção de seus reais movimentos e intenções.

    Cabe destacar que o momento para essa manifestação bizarra do governo norte-americano foi claramente planejado: logo após a reunião da cúpula do BRICS realizada no Brasil. O BRICS, capitaneado pela China, é hoje a grande ameaça à supremacia norte-americana. Para alguns analistas, trata-se de uma guerra já perdida para o Tio Sam. Porém o gigante vai espernear até o fim, vai vender caro a sua derrota. O problema é que os países periféricos sofrerão as piores consequências. Nós entre eles.

    O Panamá, coitado, já foi subjugado.

    O blá-blá-blá non-sense da cartinha do Trump é mero teatro. O recado é claro: se o Brasil não se submeter aos interesses dos EUA,será sabotado com todos os meios disponíveis: desde sanções comerciais e tarifárias abertas, até ações do submundo da guerra híbrida, com a CIA e a NSA atuando a todo vapor. Vejam só:quase toda infraestrutura digital do governo está nas mãos das bigtechs(Microsoft, Google, etc).  Elas têm acesso em suas nuvens a muita documentação estratégica produzida pelo governo. Não faltará material para sabotagem. A espionagem norte-americana no governo Dilma, que deu a base para a lava-jato, vai parecer fichinha.

    As bravatas do Trump visam negociar em posição de força para impor seus interesses. Ele já afirmou que deseja bases militares em pontos do nosso território que utilizaram na Segunda Guerra Mundial(Natal e Fernando de Noronha).  Na época, sem ter como resistir, Vargas negociou em troca o investimento na nossa indústria de base. Agora Trump se acha no direito de cobrar essa conta.O fato é que, para os EUA, um país da dimensão do Brasil, com os recursos naturais que possui, pode se tornar um competidor perigoso caso se desenvolva de forma soberana.

    Passada a segunda guerra, a pressão dos EUA para manter o país asfixiado foi contínua. Cooptou a elite econômica e militar local com o terror da “guerra fria” e a suposta ameaça do comunismo.   A criação da Petrobrás e da Eletrobrás custou a vida de Vargas. A industrialização do país foi dificultada e mesmo Juscelino Kubitschek não teve vida fácil. Até a ditadura militar encontrou resistências. O tal “milagre econômico” se deu de forma submissa, com dependência de capital externo e sem transferência de tecnologia. Teve que negociar com a Alemanha o programa nuclear. Mais recentemente, a cooperação com a França para desenvolver a tecnologia de propulsão nuclear em submarinos sofreu pressões pesadas, como o próprio ex-presidente francês admitiu em sua biografia. Tivemos ainda um “misterioso” acidente no programa aeroespacial (inovadores foguetes com combustível sólido),com a morte dos principais cientistas (o recente assassinato de cientistas iranianos por Israel talvez tenha essa inspiração),seguido da entrega da base de Alcântara para os EUA pelo Bolzo. E ainda houve a pressão para reverter a compra de caças suecos por causa da transferência de tecnologia. Isso entre muitos outros exemplos ( a lava-jato é um capítulo à parte).

    Enfim,os EUA sempre farão de tudo para impedir que o Brasil tenha um desenvolvimento soberano e se torne uma potência econômica e tecnológica. Para eles, somos o seu quintal, destinado a ocupar uma posição periférica e dependente. Um quintal que foi continuamente objeto de golpes e ações desestabilizadoras.

    Os EUA, quando estimularam o desenvolvimento de algum país ou região,foi somente para afastá-los da ameaça soviética. O Plano Marshall foi o que permitiu o Estado de bem estar social na Europa. A reconstrução do Japão e a ascensão da Coréia do Sul seguiu o mesmo script.Com a queda da URSS, os EUA sentaram nos louros da vitória.Arrogantes, subestimaram a revolução silenciosa que estava sendo gestada na China.

    A China está se desenvolvendo de forma muito interessante para os países parceiros: oferece fortes investimentos em infraestruturas nacionais para criar rotas de escoamento para os seus produtos pelo mundo. Oferece ganhos mútuos. Dessa forma o BRICS se tornou uma imensa ameaça para o Tio Sam. E o Brasil é um dos elos mais fracos dessa aliança. Por isso será um pólo de ataques impiedosos.

    O ano de 2026 será difícil. Teremos uma amostra do que virá já nesse segundo semestre, quando iremos testemunhar as ações desestabilizadoras nas eleições do Chile, Colômbia, Bolívia e Honduras, sob a batuta de Marc Rubio.

    O governo brasileiro, preso à diplomacia de punhos de renda que caracteriza o Itamaraty, não irá além de declarações genéricas sobre soberania e autodeterminação e, talvez, acrescida de alguns arroubos retóricos do Presidente.

    Só a sociedade organizada poderá oferecer alguma resistência. Está na hora de sacudir velhas bandeiras, retomar slogans – que alguns acham meio surrados – das velhas lutas antiimperialistas. E não haverá anacronismo algum nisso. 

    Será importante vincular a resistência às intervenções trumpianas com a pauta da luta de classes em nosso país, que hoje passa pelo fim da escala 6×1 e a exigência de justiça tributária. Se essa articulação for bem sucedida, fragilizando os quintas colunas da elite política e econômica nacional, haverá chances de vitória.

    Um fato a ser considerado com cuidado é a reação da elite brasileira (agronegócio, indústria, bancos) diante das ameaças trumpistas. A histórica submissão da dessa elite neocolonial, por pura opção de classe, está abalada ao vislumbrar graves riscos para os seus lucros. Os seus jornalões estão publicando editoriais e matérias que parecem manifestos de uma revolução burguesa.  Que ninguém se iluda que a suposta burguesia nacional irá despertar para a necessidade de que tenham um projeto de país inclusivo. Fica o alerta. A elite econômica brasileira não é vítima. Ela pariu o Bolzo. E está preparando um substituto similar, que apenas saiba se portar à mesa. É bom nunca esquecer disso.

  3. evandro

    10 de julho de 2025 3:38 pm

    E aí me solta uma resposta via redes sociais. Me pergunto:esperando o que para em rede nacional mostrar o que há por trás, as consequencias para o país e quem apóia estas medidas do Trump

  4. MARCO ANTONIO DA ROCHA FARES

    10 de julho de 2025 8:03 pm

    Nassif, tua análise, como de costume, foi brilhante. No entanto, só discordo que nossa mídia e elites assumam uma posição, de fato, patriótica. Historicamente, com raras exceções, sempre foram submissas ao capital dominante. Por outro lado, espero que o planalto faça esforços no sentido da busca pela diversificação de mercado, mas receio que os efeitos não sejam sentidos no prazo das próximas eleições. Esperar pra ver.

  5. Jeferson

    11 de julho de 2025 8:01 am

    Ei Nassif, se puder recuperar aquela imagem em que o patriota Bolsonaro faz continência pra bandeira americana, please, seria bom

  6. Iuri

    11 de julho de 2025 11:48 pm

    Nacionalismo? Esse conceito é realmente muito, mas muito difícil. (Mas um parênteses: o nacionalismo não é essa ideologia catárstica, somente um problema econômico).

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