
O jogo para 2026 está curioso. Vamos por etapas.
Peça 1 – a recuperação de Lula
A última reunião do Conselhão – que passou a se chamar Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS) – trouxe uma informação relevante: o fato de Lula ter estendido sua fala por mais de uma hora e meia, reeditando o entusiasmo de outros tempos.
Como era de se esperar, ocorreram três eventos simultâneos. O primeiro, o entusiasmo dos participantes do encontro, em torno da bandeira da soberania e da solidariedade. O segundo, o silêncio completo da imprensa, que se limitou a ecoar resmungos de fontes individuais, e anônimas. O terceiro, a ofensiva da Secom em redes sociais, demonstrando um controle maior da linguagem.
Lula entusiasmado é algo que não se via desde a posse. Resta saber o que esse entusiasmo reverterá em eventos e em políticas públicas efetivas. Ou, na melhor das hipóteses, no Plano de Metas, sempre aguardado e que nunca chega.
O entusiasmo completa a melhoria de posição nas pesquisas, depois das primeiras reações contra o companheiro Donald Trump.
Peça 2 – Faria Lima e mídia
Mas vamos analisar outros atores relevantes.
É revelante entender o que pensa a Faria Lima, através da maneira como se comporta a imprensa, especificamente a Folha de S. Paulo.
No dia seguinte ao do recolhimento domiciliar de Bolsonaro, o jornal soltou um editorial surpreendente, com ataques pesados ao Supremo Tribunal Federal e ao Ministro Alexandre de Moraes.
Impulsos inesperados da mídia podem indicar duas coisas: mudanças radicais na orientação editorial, ou falta de comando. Não se deve desprezar o fator falta de comando na Folha, acrescido de um nível de editoriais ultra-radicais e de baixo nível como jamais vi em 50 anos acompanhando o jornal.
De qualquer modo, os movimentos da mídia, o enquadramento ou demissão de jornalistas, indicam um processo claro de desgaste de Lula, cujo desenvolvimento foi brevemente ofuscado pelas diatribes de Donald Trump.
Até o tarifaço, a mídia era inclemente nos ataques diários a Lula, em esconder pontos positivos e dramatizar pontos vulneráveis.
Quando sobrevieram os ataques de Trump, os jornais tiveram que rever sua estratégia. Era demais ignorar o atentado à soberania, mesmo dentro de sua visão parcial.
Então, por alguns dias houve uma trégua e uma coesão, ainda que frágil, em torno da Presidência, enquanto se preparava o novo tom do discurso.
Na primeira semana de tarifaço houve alguns ensaios de crítica, como as afirmações de Carlos Alberto Sardenberg e de comentaristas da CNN, de que o governo Lula deixou os empresários falando sozinho, de que não previu a ofensiva de Trump, que não criou laços com a nova administração e outras tolices, que não resistiram aos fatos concretos.
Após esse ensaio, vieram as novas rodadas de críticas, mas aí envolvendo Alexandre de Moraes.
Peça 3 – o fator Alexandre de Moraes
E por que Alexandre de Moraes?
As explicações são simples. Vamos dividir o eleitorado em três grupos: petistas, bolsonaristas e os indecisos.
Primeiro, porque a ofensiva de Moraes contra 8 de janeiro mantém aceso o alerta da opinião pública contra as intenções bolsonaristas, podendo prejudicar qualquer candidato bolsonarista.
Segundo, porque os ataques de Trump se concentraram em Moraes. De certa forma, amarrou seu destino ao de Lula. Desestabilizar Moraes significará abrir a guarda do país à ofensiva de Trump. E qualquer vacilo de Lula significará entregar a eleição ao bolsonarismo.
Os velhos repórteres diziam que havia dois tipos de lobby. Um deles, é elogiar o padrinho. O outro é criticar o adversário do padrinho, sem explicitar que é defesa indireta do padrinho. Atacando Moraes, a mídia faz o jogo do padrinho sem se expor. Não irão endossar Trump, mas encontrarão outros motivos para atacar Moraes.
Terceiro porque os poderes atuais do Supremo fizeram dele uma espécie de filtro de abusos. E a estratégia de uma futura eleição de Tarcísio ou de outro bolsonarista, é o de abrir as porteiras e permitir o desmonte final do Estado brasileiro – com todos os negócios aí incluídos. Ou seja, poderiam conquistar o Executivo e o Legislativo, mas o Judiciário seria uma interrogação.
Peça 4 – a estratégia de Lula
Aí entra a estratégia de Lula.
Seus dois anos iniciais de governo mostraram dois Lulas. Externamente, o político acurado de sempre, referência mundial de liderança, especialmente o Sul Global. Internamente, um político sem a menor paciência para repetir o jogo de miudezas, de almoços diários, de convites para os churrascos na granja do Torto.
Mostrou ter acordado na reunião do Conselhão. Mas continuou levantando a possibilidade de não se candidatar em 2026. Então, por que o entusiasmo?
Porque desde a campanha eleitoral já tinha definido a estratégia da sucessão, com duas cartas especiais. De um lado, transformando Fernando Haddad em seu Ministro da Fazenda, como maneira de acalmar e até conquistar a Faria Lima. Mas embora siga o receituário liberal, Haddad tem um defeito terrível (para a Faria Lima): não faz negócios.
A segunda carta foi o vice-presidente Geraldo Alckmin, indicado também para Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, para a interlocução com o empresariado industrial, especialmente paulista.
Alckmin tem duas características importantes. A primeira, o fato de ser egresso do PSDB paulista. A segunda, de ser um político leal, da escola de Mário Covas. E ganhou uma enorme projeção no meio empresarial, articulando o plano contra o tarifaço.
Em 2026, Lula terá uma trinca de ases para jogar. Dependendo dos ventos, o candidato será Haddad; dependendo dos ventos, será Alckmin; dependendo dos ventos, será Lula. E ainda haverá candidaturas ao governo ou ao Senado por São Paulo.
Leia também:
fabricio coyote
8 de agosto de 2025 8:11 amLula deveria escoar o excedente de alimentos que foram taxados pelos ianques para o mercado interno e para Gaza. No final os contribuintes pagarão a conta.
José de Almeida Bispo
8 de agosto de 2025 8:38 amEu ainda acho que deveria ser UM(A) candidato(a), fora do circuito provincial primordial (Bahia, Pernambuco, São Paulo), com Alckmin novamente de vice. Presidente paulista puro… é complicado!
Aurélio Medina Dubois
8 de agosto de 2025 10:08 amNo cenário atual do Brasil e do mundo, Lula é insubstituível para a eleição de 2026.
Há que aprovar e implantar as mudanças no IRPF, no IOF, as mudanças aprovadas pelos BRICs na recente reunião no Rio de Janeiro, as rotas de integração dos países da América do Sul, as obras do PAC, o contencioso com Trump 2.0, e muitas outras iniciativas já citadas neste Jornal GGN.
Possivelmente, o Plano de Metas, tão demandado por seu diretor, está disperso pelos muitos relatórios dos GT setoriais que trabalharam no anexo do BB em Brasília após as eleições de 2022.
Com a realidade é fluída, várias recomendações ficaram no papel, outras surgiram como as mudanças no IOF, IRPF, as rotas de integração sul-americanas, …
Salvo melhor juízo político de Lula, considero Alckmin fora da eleição presidencial de 2026 como cabeça de chapa. Há alternativas palpáveis para ele na candidatura ao governo paulista, ao senado ou continuar como vice-presidente.
Fernando Haddad é uma possibilidade. Figura de qualidades pessoais excepcionais, atuação ministerial impecável, sua atuação na eleição presidencial de 2018, além de ter-se elegido prefeito de São Paulo há tempos.
Desfavorece sua candidatura não ter-se reelgido a prefeito da capital, vencendo o cerco político-midiático da imprensa corporativa daquele estado.
Uma carta disponível na manga de Lula, que pode ser acionada a depender de sua avaliação política em 2026.
Trata-se do ministro do STF Flávio Dino. Igual a Haddad em sua qualidades pessoais e atuação ministerial. Tem a vantagem de ser um animal político em sua plenitude, com vitórias eleitorais expressivas no Maranhão, desbancando a dinastia Sarney, e demonstrando novamente no STF suas qualidades políticas no combate às emendas parlamentares criminosas.
Naldo
8 de agosto de 2025 12:52 pmSeo Nassif rogando praga? Aidemin? Quem disse que ele eleito seguiria as mesmas orientações da esquerda e do PT? Já engoli, à força ele.de.vice, cabeça de chapa é outra estória….nem o Haddad é tão digerivel, com a sua remessa conforme que acabou com o ecommerce…
AMBAR
8 de agosto de 2025 7:32 pmSe Lula tiver planejamento e se mantidas as condições de hoje, duas coisas importantes poderão ser feitas: 1- A conquista do governo de São Paulo com a candidatura do Alkmin e mais um outro aliado.
2- A candidatura de Lula para presidência tendo o Haddad como vice e mais um outro candidato simpático à oposição para tirar o candidato mais forte do segundo turno.
A eventual candidatura de Alkmin pode espantar o Tarcísio, que não deverá enfrentar Lula.
Lênin and The Ulianovs
9 de agosto de 2025 7:31 amSim, mas…e daí?
Se já foi difícil governar o ingovernável capitalismo de 2003 até ontem, com o hiato do golpe de 2016, como será governar o capitalismo em ruínas na periferia?
Com um presidente em fim de ciclo político e no fim da vida?
Vamos ter que nos contentar com os surtos de euforia dele?
E a depressão do fim dos tempos (dele), quando chegar, o que será de nós?
Sem uma força política de enfrentamento para a transição que se anuncia no mundo, vamos para os andares mais baixos da cadeia alimentar, de novo…
O nosso timoneiro tem mais de 80 anos…
Arf…
Haja tadalafila.
Daí a pergunta?
Vai ganhar a eleição para que mesmo?
emerson57
10 de agosto de 2025 10:52 amA hora e a oportunidade de Lula unir o povo do Brasil é agora.
Campanhas:
-Todo apoio ao povo Palestino. Todo repúdio as ações de Israel. Com medidas substantivas e divulgação adequada.
-O petróleo é nosso! Pré sal e Petrobrás são dos Brasileiros. Idem terras raras e etc.
-Banco central é patrimônio do Brasil e não aceita ingerências nativas ou importadas.
-Convidar a Venezuela para os BRICS. Adesão crescente aos BRICS, Rota da seda e mais.
-Transformar as FAs em núcleo de inteligência. Cibernética e outras. Desenvolver o mundo cibernético e internético brasileiro. Recompor florestas e impedir desmatamento como missão do Exército.
-Melhorar o poder de consumo dos pobres. Fiscalização dos preços e volumes das embalagens explorados por capitais estrangeiros, que dominam o setor mercadista.
-Garantir INSS, SUS, para todos os brasileiros.
Creio que levando a bom termo algumas dessas ações e não deixando dúvidas quanto as outras a reeleição se dará em 1° turno, com possível maioria no congresso.
….
(sonho de uma noite fria de inverno.)