20 de junho de 2026

Do protecionismo comercial americano ao risco da armadilha extrativista, por Feijó & Feil

A Nova Indústria Brasil (NIB) surge como tentativa de aumentar a complexidade da indústria brasileira, e se afastar do modelo extrativista.

Do protecionismo comercial americano ao risco da armadilha extrativista: desafios e caminhos para o desenvolvimento brasileiro com base na Nova Indústria Brasil

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por Carmem Feijó e Fernanda Feil

Com a volta do governo Trump, os Estados Unidos adotam como estratégia de política comercial o protecionismo, discriminando explicitamente contra países que identifica como ameaçadores em termos de desenvolvimento tecnológico à estrutura produtiva americana. O  tarifaço – aumento das tarifas sobre importações, especialmente vindas da China, está sendo justificado como uma forma de reerguer a indústria nacional e os empregos norte-americanos. No entanto, essa estratégia de eficácia duvidosa para a economia americana, tem repercussões muito negativas na estrutura de comércio global, atingindo particularmente países fortemente dependentes da exportação de commodities como o Brasil.

Para essas economias, a retração da demanda externa representa uma ameaça direta à geração de receitas e ao equilíbrio das contas externas. Diante disso, essas economias se veem constrangidas de promoverem a diversificação produtiva, e muitas recorrem à intensificação do modelo extrativista como forma de compensar a perda de mercados. Essa reação imediata pode parecer uma solução viável no curto prazo, mas aprofunda uma armadilha de longo prazo: a perpetuação de um padrão de especialização regressivo, altamente dependente de recursos naturais.

A experiência mostra que economias baseadas na exportação de bens primários enfrentam forte volatilidade nos preços internacionais, pressões ambientais crescentes e dificuldades em criar empregos de qualidade. Isso resulta na consolidação de estruturas produtivas frágeis, baixo dinamismo tecnológico e maior vulnerabilidade externa — características estruturais do subdesenvolvimento.

Diante desse cenário, a resposta não pode ser a reafirmação do extrativismo, mas sim a construção de uma estratégia de desenvolvimento sustentável e autônoma. É urgente pensar além das commodities e apostar em inovação, reindustrialização verde e políticas públicas capazes de agregar valor às exportações. Em tempos de crise climática e tensões geopolíticas, insistir em um modelo baseado apenas na extração de recursos é um erro estratégico.

A Nova Indústria Brasil (NIB) surge como uma tentativa concreta de aumentar a complexidade da indústria brasileira, e se afastar do modelo extrativista. Vale ressaltar que, diferentemente das políticas industriais adotadas nas últimas décadas, a NIB apresenta uma abordagem sistêmica e orientada por missões estratégicas que integram crescimento econômico, sustentabilidade ambiental e inclusão social. Ela reconhece o papel central da coordenação das ações do Estado na transformação produtiva e busca articular-se com outras agendas estruturantes, como o Plano de Transformação Ecológica (PTE), consolidando-se como um instrumento fundamental para um novo modelo de desenvolvimento baseado na inovação, na descarbonização e na sofisticação tecnológica da base produtiva nacional.

Entretanto, seu sucesso dependerá da capacidade de superar os limites impostos pelo atual arranjo macroeconômico. A ausência de coordenação entre política industrial e as políticas monetária, fiscal e cambial — especialmente em relação à taxa de juros real, ao câmbio competitivo e ao espaço fiscal para investimentos estruturantes — compromete a eficácia de longo prazo da neoindustrialização proposto. Sem um ambiente macroeconômico favorável, mesmo políticas industriais bem desenhadas correm o risco de repetir os fracassos do passado, sendo neutralizadas por um contexto adverso.

Evitar a alternativa de desenvolvimento baseado em um modelo neoextrativista exige, portanto, reconhecer que a abundância de recursos naturais não deve ser tratada como um fim em si mesma, mas como uma alavanca estratégica para promover transformações estruturais. A exploração desses recursos deve estar vinculada a políticas que incentivem o adensamento das cadeias produtivas, o fortalecimento da base tecnológica nacional e a redução da dependência externa.

A história brasileira comprova que o dinamismo do setor manufatureiro é decisivo para o aumento da produtividade, a geração de empregos de qualidade e o crescimento sustentado. Uma política industrial moderna, entendida como política sistêmica, requer articulação com agendas de inovação, desenvolvimento regional, comércio exterior e sustentabilidade ambiental — com a indústria de transformação como eixo articulador.

Para isso, é fundamental criar um espaço de política que permita a formulação e execução de projetos de investimento de longo prazo, amparados por estabilidade e previsibilidade macroeconômica. Nesta direção, busca-se a construção de uma convenção para o desenvolvimento sustentável, que se contraponha à convenção liberal de desenvolvimento que se apoia no Estado mínimo. Na nova convenção de desenvolvimento, a política industrial deve funcionar como âncora das expectativas e catalisadora da transição para uma economia mais resiliente, tecnológica e sustentável. Nesse sentido, a política industrial é essencial para fortalecer uma base produtiva mais resiliente, tecnologicamente avançada e sintonizada com os desafios do século XXI — da crise ambiental às transformações da nova economia global.

Blog: Democracia e Economia  – Desenvolvimento, Finanças e Política

Carmem Feijó- Professora titular na Universidade Federal Fluminense, pesquisadora CNPQ e coordenadora do Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento – Finde/UFF

Fernanda Feil – Professora colaboradora no Programa de Pós-graduação em economia da UFF, pesquisadora de pós-doutorado do programa CAPES/PIPD e pesquisadora do Finde/UFF

O Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE) congrega pesquisadores de universidades e de outras instituições de pesquisa e ensino, interessados em discutir questões acadêmicas relacionadas ao avanço do processo de financeirização e seus impactos sobre o desenvolvimento socioeconômico das economias modernas. Twitter: @Finde_UFF

Grupo de Estudos de Economia e Política (GEEP) do IESP/UERJ é formado por cientistas políticos e economistas. O grupo objetiva estimular o diálogo e interação entre Economia e Política, tanto na formulação teórica quanto na análise da realidade do Brasil e de outros países. Twitter: @Geep_iesp

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Finde/GEEP - Democracia e Economia

O Grupo de Pesquisa em Financeirização e Desenvolvimento (FINDE) congrega pesquisadores de universidades e de outras instituições de pesquisa e ensino. O Grupo de Estudos de Economia e Política (GEEP) do IESP/UERJ é formado por cientistas políticos e economistas.

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