10 de junho de 2026

Não é moeda única, é financiamento de exportações, por Luis Nassif

Em paralelo a esse acordo, será montado um Grupo de Trabalho para estudar a viabilidade de uma unidade de troca comum
Agência Brasil

Vamos entender melhor o que é que a mídia vem tratando como “moeda única” latino-americana, segundo um de seus formuladores.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

A Argentina quis vender a ideia de uma moeda única ao Financial Times, mas por desespero. Não há nada próximo a isso em discussão, a não ser a criação de um Grupo de Trabalho pensando em uma moeda futuramente, mas apenas para trocas comerciais.

Com a crise da Argentina, a relação comercial com o Brasil voltou ao período pré-Mercosul. O espaço foi ocupado pela China, porque esta oferece crédito e swap cambial de um Banco Central para outro. Swap cambial é a troca de moedas, quando um dos lados não pode controlar o risco embutido em determinadas operações por falta de moedas conversíveis.

O primeiro passo do Brasil, para retomar o comércio com a Argentina, será voltar a ter um Eximbank (banco de financiamentos do comércio exterior) e fazer swap cambial de um banco para outro.

Mas há dificuldades com Banco Central independente que não quer correr o risco Argentina. O Ministério da Fazenda ofereceu o Tesouro para garantir, mas há limitações legais para o Tesouro atuar como emprestador do BC e, ao mesmo tempo, como garantidor. O BC tem operações de swap cambial dos Estados Unidos para o Brasil, mas com o Tesouro não.

Nas negociações, a Argentina queria acesso a uma linha fixa de reais para poder convertê-los em dólares. Decidiu-se  que o crédito será exclusivamente para importar produtos e serviços do Brasil.

A operação será garantida pelo Fundo Garantidor de Exportações (FGE). Para os bancos, é o melhor caminho. Como o FGE tem o risco soberano Brasil – que é baixo -, não afeta os limites da Basiléia – que, de acordo com o perfil de crédito de um banco, define limites para empréstimos.

Qualquer banco – inclusive bancos privados – poderão tomar linhas para financiar o comércio com a Argentina. O pagamento será feito diretamente ao exportador brasileiro.

Por exemplo, a Fiat vai exportar para a Argentina. Pede financiamento em 180 dias. O banco brasileiro paga à vista, em reais. 

Aí entra em jogo a questão das garantias. A Argentina que só tem reservas de US$ 7 bilhões em caixa e apenas as exportações brasileiras são de US$ 13 bilhões por ano. 

Nessa operação, há dois riscos a serem administrados:

  1. O risco do importador argentino.
  2. O risco da própria Argentina. Ou seja, o importador paga, mas a Argentina não tem dólares suficientes para fazer a transferência. Poderia pagar em pesos, mas há risco nítido de, no curto prazo, ocorrer uma maxidesvalorização do peso e um default, o que transformaria a garantia peso em pó.

O grande desafio, então, é como administrar esse duplo risco: do importador e da Argentina. 

Para o banco comercial, o FGE é o melhor caminho, porque troca o duplo risco de default pelo risco do Tesouro, que é o mesmo do risco soberano Brasil – baixíssimo. Pelo acordo de Basileia, o limite de crédito de um banco depende da qualidade da sua carteira. Com o risco soberano Brasil, os limites de crédito bancário não serão afetados.

Até hoje, o fundo sofreu três calotes: de Cuba, Moçambique e da Venezuela. Para se prevenir no projeto Argentina, montou-se o seguinte acordo:

  1. A Argentina fica com o risco do importador, via Banco da Nação Argentina.
  2. Já o risco Argentina será trabalhado com garantias adicionais, ativos com liquidez internacional e conversíveis em reais: receitas de petróleo, soja, trigo e gás.
  3. Essas garantias serão depositadas em locais em que possam ser executadas – Nova York, Londres ou no Brasil.
  4. Além dessas garantias, haverá uma outra garantia adicional de 200% em peso, para compensar a diferença entre o câmbio oficial e o paralelo.

Nesse modelo, há uma garantia contra o duplo default. O valor da linha dependerá do tamanho das exportações brasileiras.

Depois de decidido o modelo, passou-se aos detalhes. Sérgio Massa, o Ministro da Economia da Argentina, ofereceu o gás de Vaca Muerta como garantia. Como há muita volatilidade nas cotações internacionais de gás, o Brasil exigiu, como referencial, um valor mais barato do que aquele pago pelo gás boliviano, para ter alguma gordura, se o preço internacional cair.

Outro ponto negociado foi uma questão de retirada de capitais da Argentina. Hoje em dia há grandes restrições à saída de capitais, devido à situação das reservas argentinas. O Banco do Brasil, por exemplo, tem um banco na Patagônia, mas não consegue retirar dividendos e convertê-los em reais. A linha 4 do acordo vai garantir essa saída.

O segundo passo

Em paralelo a esse acordo, será montado um Grupo de Trabalho para estudar a viabilidade de uma unidade de troca comum, uma câmara de compensação de comércio no Sul – que nada tem a ver com a tal moeda única.

Com governança conjunta, nesta câmara de compensação/unidade de conta e de troca, se conseguirá algum tipo de coordenação econômica entre países. Aí a integração econômica será um pouco mais profunda, com a possível adesão do Uruguai e do Chile. Mas é um projeto para um ponto qualquer do futuro.

A definição do modelo atual foi possível graças ao empenho e experiência do Banco do Brasil. Apesar de ter sido o grande financiador das exportações brasileiras, por alguma razão interna o BNDES não participou dos estudos.

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

11 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Renato Cruz

    23 de janeiro de 2023 12:53 pm

    A Argentina é o que sempre foi, uma tragédia sem solução. Tenho certeza absoluta que eles vão trapacear, como sempre fizeram com o Brasil. Lembro bem que quando Nestor Kirchner era presidente entre 2003 e 2007, por duas vezes ele chantageou Lula, impondo condições e exigindo ajuda para manter ou renovar certos acordos comerciais. Lula aceitou a chantagem cafajeste do capacho da Cristina apenas para manter o Mercosul funcionando, e lembro das incansáveis denúncias de toda a imprensa brasileira sobre o golpe dos argentinos no tesouro brasileiro, o prejuízo brasileiro passou de 1 bilhão de dólares em favor dos argentinos. Basta ler o Clarín, o La Nacion para ver o entusiasmo deles, a alegria esfuziante deles com essa péssima ideia do Fernando Haddad, que eu espero que seja abortada pelo Congresso. Os argentinos estão vendo nisso uma oportunidade de ouro, escorar seu papel pintado, o peso, no real. FORA MOEDA ÚNICA. JAMAIS MOEDA ÚNICA COM ARGENTINOS. Eles que se virem com sua economia de coisa nenhuma.

  2. Renato Cruz

    23 de janeiro de 2023 1:38 pm

    Sem entrar no mérito do assunto da tal moeda, em que eu sou mero palpiteiro, vejo a cobertura da viagem do Lula a Buenos Aires, comparo com as viagens do Bolsonaro, Presidente da República do Brasil por quatro longos anos, e me pergunto com angústia e dor na alma: como foi que descemos tanto? Como foi possível chegar ao ponto que chegamos, entre janeiro de 2019 e dezembro de 22? Como aconteceu isso? Desde já, aviso que não compro e nunca comprei o papo furado da esquerda de “conspiração da mídia golpista”, porque haja Globo e Folha pra criar 58 milhões de votos no Bolsonaro. Não sei explicar o Brasil que rejeitou um homem sério como Márcio França e deu 10 milhões de votos a um astronauta idiota, para a vaga de senador por São Paulo. Quem é essa gente?

  3. EUGENIA C LOUREIRO

    23 de janeiro de 2023 3:42 pm

    Concordo com a exposição do Nassif. A questão central E nosso comércio com Argentina. Queremos viabilizar que eles possam comprar nossas manufatura, como acontecia antes. Daí queremos retomar o espaço que corre o risco da China ocupar.

  4. Jose Augusto Consul

    23 de janeiro de 2023 5:55 pm

    Renato Cruz quem elegeu o astronauta foi a boiada de bolsominions já de idiota ele não têm nada, fez o PT torrar uma fortuna para seu passeio turístico no espaço e não deu nada em troca ao Brasil e ainda por cima faturou ilegalmente com abertura de empresas e publicidade

  5. Luiz Fernando Juncal Gomes

    23 de janeiro de 2023 6:07 pm

    Em meados dos 70, havia a ALALC – Associação Latino Americana de Livre Comércio, “convênio” sob o qual o Brasil exportava EM CRUZEIROS para países paupérrimos – na época -, como Paraguai e Bolívia, que não tinham indústria e dependiam dessas exportações para o básico do básico. Por que em CRUZEIROS? Porque Paraguai e Bolívia não tinham dólares/divisas para pagar importações regulares de outros países. Era uma solidariedade entre as ditaduras do Cone Sul. É o caso da Argentina, com míseros US$ 7 bi de reservas. Empresários brasileiros vão vender com garantias, como descrito pelo Nassif. E transformam isso em comoção nacional no submundo das redes golpistas/terroristas. Paulo Pimenta, ministro da SECOM, saia a campo. Vi isso na CACEX – Carteira de Comércio Exterior do Banco do Brasil, em Ponta Porã, entre 1975/1977. Alguns produtos, petróleo/derivados, só em US$, mas o básico do básico em cruzeiros.

  6. Endurecer

    23 de janeiro de 2023 8:13 pm

    Uma cineasta brasileira recentemente observou que a final da Copa foi disputada pelos times de Argentina e França. Em comum, a autoestima de si mesmos no sétimo céu. Nosso complexo somente cresceu e buscamos agora um técnico europeu. Não sabia que as reservas estavam em apenas 7 bilhões, o que reforça a ideia força de Nelson Rodrigues sobre nossa autoconsciência, para nós mesmos.
    O Barão do Rio Branco quando liderou nossa política externa na República Velha, tentou construir a política ABC (Argentina, Brasil e Chile) que daria acesso ao Pacífico e Atlântico viabilizando o poderio do Sul. Nos anos 1930s ficou claro para os militares brasileiros que havia um Heartland na região da Bolívia Amazônica. A America do Sul não precisa de ninguém. Mas as coisas não se resolvem pela economia, o que os economistas otimistas não entendem. Do ponto de vista econômico é bem fácil. Os americanos do norte sabem disso mais que nós latinos. Divide et impera. E ficamos assim…

  7. Felipe

    23 de janeiro de 2023 10:29 pm

    Muito interessante essa proposta. Vale a pena fazer a ressalta para o grande publico de que essa moeda seria de comercio entre nações e não vai ser o substituto para as moedas nacionais. Outro ponto fundamental, como sera feito o pagamento dos balancos comerciais?

  8. Paulo Dantas

    24 de janeiro de 2023 7:39 am

    A chance de isto sair do papel e dar certo é baixa, seria um acordo de Estados, aqui no Cone Sul troca o governo começa tudo do zero.
    A ideia é boa, mas não rola, um lado acaba “roendo a corda”.

  9. ADILTON DOS SANTOS

    25 de janeiro de 2023 9:29 am

    A Argentina está quebrada, mesmo que estivesse sobra do dinheiro no Brasil, o que não é o caso,porque entrar num negócio que já se sabe vai dar errado, vai sobrar pra alguém pagar a conta e não vai ser a Argentina, qual o interesse político baixo está por detrás desta manobra? De novo vão dar dinheiro a países quebrados que não honram suas dividas, muitos interesses nisso mas nenhum a favor do Brasil.

  10. Gilson

    25 de janeiro de 2023 12:24 pm

    Qual o custo do Brasil extender a mão para nossos vizinhos pequenos da America do sul?

    Resposta: INVASAO DE EMPRESAS CHINESAS E QUEBRA DA INDUSTRIA NACIONAL.

  11. KONRADO MASSING DEUTSCH

    25 de janeiro de 2023 2:21 pm

    Não dá pra usar para o comércio uma moeda comum chamada dólar?

Recomendados para você

Recomendados