A economia a serviço da vida, por Carlos Gadelha

Tendo a vida social e no planeta como finalidade última da economia, a saúde oferece a possibilidade de uma saída estrutural em torno de um novo projeto de desenvolvimento.

Agência Brasil

A economia a serviço da vida

por Carlos Gadelha

Nem economia, nem vida, nem Estado. A relação entre economia e sociedade tem sido tratada de modo muito limitado no debate nacional e internacional. Na Fiocruz, num programa de pesquisa desenvolvido há duas décadas, refutamos a polarização binária entre economia e vida que, na pandemia da Covid-19, mostra a sua face perversa. Simultaneamente, vivemos num país que não cresce, tem um Estado desestruturado e em que a violência social se manifesta contra pobres, pretos e excluídos dos mínimos direitos de cidadania, como revela a barbárie cometida contra o imigrante congolês negro e pobre.

Na saúde, enquanto ficam evidentes para o mundo os frutos das tecnologias das vacinas, vemos a transmissão nos transportes públicos, as casas abarrotadas em espaços sem condições mínimas, a fome de 20 milhões e o desemprego e subemprego que atingem mais de 30 milhões. A expectativa de vida varia em mais de 20 anos, dependendo das condições sociais. A Constituição e os direitos elementares à vida são rasgados a cada dia.

Em meio a este drama nacional e global, é possível superar a falsa dicotomia entre economia e vida social e planetária. Com a Covid-19, atualizamos as análises do déficit comercial em saúde, que, avisamos há décadas, deixaria o SUS de joelhos frente a qualquer emergência de saúde pública. Em 2021, batemos o recorde histórico da dependência de importações no Complexo da Saúde, atingindo US$ 20 bilhões. Recorde na economia e na ameaça à vida!

A saúde passa a liderar o déficit comercial do país se somarmos os produtos eletrônicos. É como se um orçamento inteiro do Ministério da Saúde fosse gasto com importações sem gerar um emprego, uma renda, um incentivo para um empreendimento local e ainda sob a chantagem da disputa mercantilista global pelos produtos, que sempre deixam a vida “a ver navios”.

São mais de 630 mil mortes pela Covid-19, mas não podemos deixar de olhar os 625 mil novos casos de câncer por ano, de pessoas desassistidas, no contexto de uma tragédia sanitária em meio a uma pandemia. Tendo a vida social e no planeta como finalidade última da economia, a saúde oferece a possibilidade de uma saída estrutural em torno de um novo projeto de desenvolvimento.

A saúde está para o século XXI como estiveram o aço, o petróleo e o automóvel para o século XX, permitindo um desenvolvimento que atenda às pessoas e seja sustentável. Está na hora de mudar o triste paradigma dominante. Vida pode gerar renda, emprego, investimento e um novo padrão que, em vez de ser capturado por interesses espúrios de um protecionismo sem resultados, sustente um pacto político, social e democrático em defesa da economia nacional, das pessoas e do planeta.

É possível fazer. A experiência da Fiocruz oferece evidências de que a mesma ousadia adotada para encomendar uma vacina que não existia pode ser ampliada para a superação da cisão entre economia e sociedade; uma prova em forma de doses, de vacina e de compromisso com a economia.

Carlos Gadelha – Economista, é coordenador do Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz

Publicada originalmente no jornal O Globo

3 Comentários

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Edivaldo Dias de Oliveira

- 2022-02-08 14:33:38

Muito além do Viva o SUS, abaixo as OSSs - Organização de Serviço Social - que eu chamo de Organização Sangue Suga.

Fatima Magalhães

- 2022-02-08 14:14:09

Não existe falso dilema entre economia x saúde: é a vida e, ou a vida. Porque  se não  for assim é a perda irreversível da saúde, do emprego,  do alimento, da educação, da moradia, da agua limpa, da floresta, da dignidade do ser humano: da vida, enfim. E é o lucro a qualquer preço ( leia-se, modernamente, "mercado") e  a morte que ganham o jogo  da vida, a qual  até pode resistir um tempo, moribunda. A trajetória da Fiocruz, sempre presente, e relevante, na pesquisa e desenvolvimento tecnológico nas áreas da saúde & ambiente nos mostra que não existe falso dilema; é a proteção da vida, com qualidade e dignidade, que deve ser a meta e a missão.

Antonio Uchoa Neto

- 2022-02-08 11:40:35

Nenhuma das dicotomias mencionadas no texto brota espontaneamente, nem surgem do nada, não são um fenômeno de entropia. São resultado da ação deliberada do homem, das distorções introduzidas pelo homem entre a sociedade e a vida. E a mais cruel delas é justamente a transformação dos serviços de saúde em fonte de lucro e acumulação, que é o triste paradigma dominante, nas palavras do autor. E esse paradigma, ou seja, o paradigma da extração de lucro das relações sociais, e consequente acumulação de dinheiro e poder, desconfio eu, é tão estrutural, no homem, quanto o racismo. Se a vida, vivida em condições mínimas de decência de saúde, pode ser sacrificada tão gritantemente como hoje é, em nome do lucro das instituições privadas, imaginem outras necessidades básicas do homem, como educação, moradia. A mudança não deve ser no paradigma já estabelecido e comumente aceito. Nem deve ser um apelo à qualidades morais e éticas de gente que só age da forma que agem porque não se preocupam com a vida dos outros, apenas com o que podem tirar deles, sob a forma de lucro. A mudança deve vir por força de lei, imposta. Sermões nunca mudaram o homem, ao longo da História. Todas as mudanças introduzidas nela, para o bem ou para o mal, foram alcançadas na base da força. A própria prosperidade, por mais que se espalhe e alcance mais gente, por si só, não torna ninguém menos ambicioso. Mas toda essa conversa é ociosa. O setor de saúde, indústria farmacêutica e planos de saúde inclusos, contam-se entre os maiores financiadores de campanhas eleitorais em nossas maravilhosas democracias ocidentais. Eles tiram dinheiro do próprio bolso (sic),e dizem ao infeliz do candidato: 'Vai, meu filho, se eleja e vá lutar pelo povo.' É assim, mas só em telenovela.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador