Covid-19 – Como entramos e como iremos sair da crise. III. Acorda, ó gigante entorpecido!, por Felipe Costa

Minhas projeções, como nós vimos acima, concordaram ou se aproximaram bem dos números oficiais, tanto em abril como em maio. Infelizmente, devo dizer.

Covid-19 – Como entramos e como iremos sair da crise. III. Acorda, ó gigante entorpecido!

Por Felipe A. P. L. Costa [*]

RESUMO. As projeções que fiz para as estatísticas de abril (aqui) e maio (aqui) se revelaram concordantes com os números oficiais. Infelizmente, devo dizer. O que ocorre é que o ritmo da pandemia entre nós está a arrefecer muito lentamente. A taxa de crescimento no número de novos casos (o ‘cão farejador’ que estou a usar em minhas projeções), por exemplo, levou sete semanas para cair de 8,3% até 5,1%. Estamos semiparalisados, fazendo de conta que estamos lutando. Mas não estamos. Ou os governantes lidam com o problema de maneira séria e consequente, adotando medidas duras durante um curto intervalo de tempo, ou nós ainda permaneceremos atolados nessa areia movediça por muitos meses.

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1. As estatísticas de abril.

Em 11 de abril, em artigo publicado neste GGN (‘No ritmo atual, o país terá entre 6,5 mil e 21 mil mortes até o fim de abril’ [1]), escrevi o seguinte:

De hoje (11) até o próximo dia 30/4, […], as estatísticas nacionais deverão totalizar entre 122 e 397 mil casos e entre 6,5 e 21 mil mortes. […] São números assustadores, mas repito: são projeções otimistas.

A julgar pelo volume de comentários (tanto aqui como em redes sociais), o artigo foi lido ou visto por muita gente. Talvez mais visto do que lido. E aí, como em geral acontece nesses casos, chutes e palpites equivocados ganharam a dianteira. Ficaram de lado as justificativas e os métodos que embasaram as projeções. Percebi o mal-estar que o artigo poderia gerar (e.g., houve que imaginasse que estávamos em uma disputa lotérica ou contábil) e tratei de lapidar o que eu havia escrito.

Em 17/4, em um novo artigo publicado neste GGN (‘Ajustando e renovando o alerta para 30/4’), chamei a atenção para os argumentos a justificar a elaboração e a divulgação de projeções. Aproveitei para ajustar os números. Eis um resumo do que escrevi:

Este artigo atualiza o balanço e as projeções que fiz em artigo anterior envolvendo a pandemia da Covid-19 no âmbito exclusivo do nosso país. De hoje (16) [o artigo foi escrito no dia anterior ao da publicação] até o próximo dia 30/4, a depender da manutenção de medidas efetivas de distanciamento social, as estatísticas nacionais deverão totalizar entre 69 mil e 259 mil casos e entre 4,2 mil e 16 mil mortes. Projeções como as que constam deste artigo devem ser vistas como alertas. Em sã consciência, ninguém faz uma projeção dessas para acertar. A vitória aqui vem quando se erra. Quando a ação coordenada de autoridades e da sociedade civil organizada conseguem puxar os números finais para baixo e as projeções se revelam exageradas.

E o que aconteceu? O país encerrou o mês de abril com as seguintes estatísticas oficiais: 85.380 casos e 5.901 mortes [2].

2. As estatísticas de maio.

E 1/5, em artigo também publicado neste GGN (‘Onde estamos, para onde vamos, o que fazer?’ [3]), escrevi o seguinte:

Em 21/4, após quatro semanas de oscilações para baixo, a taxa de crescimento no número de novos casos passou a oscilar para cima. É uma situação preocupante […]. De hoje [o artigo foi escrito no dia anterior ao da publicação] até o fim do mês de maio (31/5), mantido o ritmo atual, as estatísticas nacionais deverão totalizar entre 544 mil e 1,320 milhão de casos e entre 37,5 mil e 91 mil mortes. São números assustadores, mas repito o que escrevi em outro lugar: projeções como estas devem ser vistas como advertências, não como um palpite de loteria. Para frear essa nova escalada, sou de opinião que medidas de mitigação (e.g., distanciamento social e uso generalizado de máscaras) deveriam ser efetivamente adotadas em todo o país.

E o que aconteceu? Computados já os números oficiais divulgados ontem (31/5), o país encerrou o mês de maio com as seguintes estatísticas: 514.849 casos e 29.314 mortes.

3. Um guia simples, ágil e confiável.

Minhas projeções, como nós vimos acima, concordaram ou se aproximaram bem dos números oficiais, tanto em abril como em maio. Infelizmente, devo dizer.

Como explicar isso? A resposta tem dois componentes, cada um deles revelando um dos lados da questão. Há o lado técnico, mas há também o lado político, como veremos mais adiante.

O lado técnico. Em primeiro lugar, devo dizer que não tenho bola de cristal. Assim é que a qualidade das projeções se deve ao tipo de guia que escolhi para monitorar a disseminação da Covid-19. (Há mais de um jeito de monitorar epidemias, assim como há mais de um jeito de monitorar a dinâmica de uma população.)

O guia que estou a usar é simples e confiável. Além disso, como é extraído das próprias estatísticas diárias, é também muito ágil. Em resumo: a exemplo de um cão farejador preso a uma coleira, trata-se de um guia capaz de nos apontar o rumo que as coisas estão a tomar – i.e., se a pandemia está a ganhar ou a perder força e a que ritmo isso estaria a ocorrer.

4. Construindo um gráfico.

Para avaliar a disseminação da Covid-19 (tanto em escala mundial como nacional), eu tenho calculado uma taxa de crescimento diário no número de novos casos (i.e., no número de indivíduos infectados com o SARS-CoV-2).

Esta taxa (simbolizada aqui pela letra grega minúscula β) tem sido definida como β = ln {Y(f) / Y(i)} / {t(f) – t(i)}, onde Y(f) é o número de casos no dia (f), Y(i) é o número de casos no dia (i), {t(f) – t(i)} é o intervalo transcorrido entre os dias (i) e (f), e ln indica logaritmo natural [4].

Quando os valores de β assim obtidos são colocados em um gráfico (ver a figura que acompanha este artigo), alguns padrões numéricos podem ser identificados.

Em escala planetária, por exemplo, a taxa de crescimento no número de novos casos segue em trajetória descendente. O valor de β está abaixo de 5% desde o dia 10/4. E está abaixo de 2,6% desde o dia 2/5.

Em escala nacional, a taxa de crescimento também segue em trajetória descendente. Mas em um patamar bem mais elevado. E o que é pior: está a cair a um ritmo bem mais lento.

Em âmbito nacional, há muita oscilação no valor de β ao longo da semana (mas não entre semanas), o que já foi relacionado anteriormente a desarranjos metodológicos (embora outros fatores possam estar contribuindo). Na tentativa de contornar esse problema, eu calculei também uma taxa de crescimento semanal.

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FIGURA. O comportamento da taxa de crescimento no número de casos da Covid-19 (eixo vertical; β expresso em porcentagem) no Brasil (pontos em rosa claro) e no mundo (pontos em vermelho escuro), entre 21/3 e 31/5. Há muita oscilação nas estatísticas brasileiras de um dia para o outro, seja em decorrência de desarranjo metodológico, manipulação etc. Para reduzir os ruídos de tal oscilação, calculei uma média semanal na taxa de crescimento (pontos em azul escuro). E comparei os resultados dessa análise (reta tracejada em azul escuro) com os resultados da análise dos dados mundiais (reta tracejada em vermelho escuro). Os dois conjuntos de pontos estão distribuídos de modo claramente declinante, embora a variação na taxa brasileira ocorra em um patamar nitidamente superior. Em âmbito mundial, o valor de β está abaixo de 4,2% desde 12/4 e abaixo de 2,6% desde 2/5; em âmbito nacional, a média da semana passada (25-31/5) foi de 5,1%, o menor valor desde o início da pandemia.

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5. Estamos condenados à estagnação?

Levando em conta as médias semanais, a média (5,1%) da semana encerrada ontem (25-31/5) é a mais baixa desse o início a pandemia. É uma boa notícia, claro, mas apenas quando olhamos para este resultado de modo isolado. Se o colocamos no devido contexto, logo percebemos que o lado negativo se impõe: a média semanal está a cair muito lentamente, de modo que este valor de 5,1% só foi alcançado após sucessivas semanas.

Basta ver o seguinte: as médias semanais permaneceram mais ou menos estagnadas ao longo de seis semanas (13/4-24/5). Neste intervalo, oscilou entre um máximo de 8,3% (13-19/4) e um mínimo de 5,8% (11-17/5) – excluindo, claro, a semana encerrada ontem.

A minha interpretação disso é a seguinte: no cômputo final, as medidas de distanciamento espacial não estão a funcionar de modo apropriado. Estivessem elas a funcionar, a queda no valor de β seria muito mais significativa.

Não custa repetir: medidas dúbias, frouxas ou de faz-de-conta implicarão em uma crise prolongada. Melhor suspender tudo por um curto intervalo de tempo, do que ficar arrastando uma ladainha de modo aparentemente indefinido.

Que os governantes atentem para o seguinte: assim como era possível estar em um patamar bem mais baixo de β, com um número bem menor de casos e, por extensão, de mortes (ver aqui), é perfeitamente possível manter a pandemia em banho-maria até dezembro!

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Notas

[1] O artigo foi republicado no dia seguinte, com um título ligeiramente alterado, ‘No ritmo atual, Brasil terá entre 6,5 mil e 21 mil mortes por COVID-19 até fim de abril’.

[2] A fonte das estatísticas brasileiras é o painel do Ministério da Saúde (aqui). As estatísticas mundiais são extraídas de dois painéis, ‘Mapping 2019-nCov’ (Johns Hopkins University, EUA) e ‘Worldometer: Coronavirus’ (Dadax, EUA).

[3] O título original – e que foi usado na compilação A pandemia e a longa agonia de um país desgovernado – era um pouco diferente: ‘Onde estamos? Para onde vamos? O que fazer?’.

[4] A taxa de crescimento não é uma constante, de sorte que o valor de β pode oscilar de um dia para o outro. Se a oscilação é de cima para baixo, dizemos que o parâmetro declinou; se é de baixo para cima, dizemos que o parâmetro escalou. Caso não haja oscilação ou caso a oscilação seja inexpressiva, rotulamos momentaneamente o valor de estacionário. Para exemplos de como calcular o valor de β, ver a compilação A pandemia e a longa agonia de um país desgovernado.

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