Governo Bolsonaro sabia que oxigênio faltaria em Manaus

Em viagem ao Amazonas, ministro Eduardo Pazuello já dizia que cidade estava desabastecida e enfrentava problemas, mas crise não foi sanada antes de explodir

Governo Bolsonaro sabia que oxigênio faltaria em Manaus

por Mário Adolfo Filho

O dia 14 de janeiro de 2021 está marcado na história do Amazonas como o dia mais trágico enfrentado por Manaus durante a pandemia. Foi quando a cidade amanheceu sem oxigênio em várias unidades de saúde e o sistema de atendimento colapsou, com alguns hospitais, inclusive, fechando as portas para atendimento. Mas, era possível ter evitado o que aconteceu.

Três dias antes da fase aguda da crise, ao participar em Manaus de um evento reunindo membros do Ministério da Saúde e autoridades do Amazonas para o lançamento de um plano de enfrentamento à Covid-19, o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, já admitia que o oxigênio estava em falta.

“Estamos vivendo crise de oxigênio? Sim. Quando eu cheguei na minha casa ontem, estava a minha cunhada, com o irmão sem oxigênio nem para passar o dia. ‘Acho que chega amanhã. O que você vai fazer? Nada. Você e todo mundo vão esperar chegar o oxigênio e ser distribuído”. Não tem o que fazer. Então, vamos com calma”, disse.

A cunhada não foi a única a alertar Pazuello. De acordo com o procurador da República do Amazonas, Igor da Silva Spindola, que atua na área de saúde, no sábado, 09/01, o alerta sobre a possibilidade de faltar oxigênio no estado foi dado através de mensagens de texto em um grupo de trabalho do aplicativo de conversas Whatsapp onde estão membros do Executivo Federal.

Ele abriu um processo contra o governo estadual e federal para apurar a responsabilidade pela falta de oxigênio no estado. “Queremos saber quando e como o Ministério de Saúde teve acesso a essa informação. Isso faz diferença na responsabilização. Foi deslize do estado, da União ou dos dois? Tudo isso está sendo investigado”, afirma o procurador.

Estado

De acordo com o secretário de Saúde do Amazonas, Marcellus Campêlo, o consumo de oxigênio no Amazonas saiu de 12 mil m³ para 30 mil m³ por dia durante o primeiro pico da doença, em abril e maio. Com as internações dando sinais de que poderia aumentar no final do ano passado, no dia 23 de novembro o Estado solicitou mais oxigênio da empresa White Martins tomando como base o consumo na primeira onda.

Não foi suficiente. Em janeiro de 2021 o consumo diário passou dos 76 mil m³, deixando unidades de saúde desabastecidas. “Acho que ainda ficaremos pelo menos até o fim do mês, lá pelo dia 25 de janeiro, com muita pressão na rede em função desse novo pico. Pode haver crise em outras regiões do País, em regiões também isoladas. Se agravar o País todo junto, pode haver uma crise nacional”, diz Campêlo

Mas o Governo do Amazonas evita criticar o governo federal. O governador Wilson Lima (PSC), da base do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), continua agradecendo ao Governo Federal a cada entrevista concedida, mas admite que a quantidade de oxigênio trazida pela Força Aérea Brasileira (FAB) tem sido insuficiente.

“A maneira mais rápida de chegar é através de avião, mas as únicas aeronaves que podem fazer isso são da Força Aérea Brasileira, e mesmo assim ainda trazem pouca quantidade, em razão da sua capacidade e do risco que é o transporte desse produto”, disse, em pronunciamento nas redes sociais.

Enquanto isso, Manaus continua respirando com oxigênio reduzido.

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