Senadores da oposição criticam colocações de Osmar Terra

Em linhas gerais, questionamentos nortearam imunidade de rebanho e dados apresentados pelo deputado em depoimento à CPI da Pandemia

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Jornal GGN – O deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) acabou por confirmar na CPI da Pandemia que o distanciamento e o isolamento social não ajudam a evitar a propagação do vírus da covid-19, além de refutar colocações de senadores tanto a respeito de suas reuniões com o presidente Jair Bolsonaro como os números apresentados em seu depoimento.

Veja um resumo dos posicionamentos de alguns dos senadores participantes da CPI da Covid-19

Otto Alencar (PSD-BA)

“Corrigindo os números que vossa excelência passou, sobretudo quando ele falou recentemente que a Argentina tinha 420 mil mortos. São 90 mil óbitos, mais ou menos, o senhor falou errado”, disse o senador. “A não ser que o senhor esteja confundindo taxa de mortalidade com taxa de letalidade (…) Mortalidade é uma coisa, letalidade é outra coisa. A Argentina tem 50 milhões de habitantes, 90 mil óbitos. Agora, a taxa de letalidade na Argentina é um pouco maior do que a taxa de letalidade do Brasil. O Brasil tá com uma taxa de letalidade de 2,8. A Argentina tá mais do que o Brasil”.

Em suas colocações, Osmar Terra chegou a fazer uma comparação entre o coronavírus e outras viroses, como zika e dengue, no que foi confrontado pelo senador baiano. “É completamente diferente. Qual é a diferença: a transmissão do covid-19 é pessoa por pessoa, a zika e a dengue tem um hospedeiro intermediário, que é um mosquito. Por isso que não se fez vacina, porque é só combater o mosquito que não tem a vacina. Se fez teste in vitro para a vacina, mas é muito mais fácil combater o mosquito do que ir atrás da vacina”.

Sobre imunidade de rebanho e as declarações de Osmar Terra de que o país perdeu o controle após as variantes, Otto Alencar ressaltou que o país tinha mais de 320 mil mortos quando a variante P1 surgiu na cidade de Manaus. “O controle da doença se perdeu pelo aquilo que nós vimos aqui – o senhor falando em imunidade de rebanho por contaminação (…) A imunidade de rebanho, para se conseguir em um país com a dimensão do Brasil, com 200 e tantos milhões de habitantes, só se consegue com vacinação”.

Humberto Costa (PT-PE)

Em sua apresentação, o senador mostrou uma das contradições de Osmar Terra ao mostrar um gráfico com os dados comparativos da Escandinávia, onde a Suécia mostra um número de mortes por milhão de pessoas muito acima do visto em outros países da região.

Quanto aos elogios feitos à Coreia e à China por Osmar Terra, Humberto Costa disse que o Brasil não adotou nada do que o deputado federal defendeu. “O que é que foi feito ali na Ásia: primeiro, diagnóstico precoce. Diagnosticou precocemente, isolamento dessas pessoas. Testagem em massa, não foi somente na Coreia, na China também. A cidade de Wuhan chegou a ser testada duas vezes, toda a população de Wuhan. Aqui no Brasil, os testes que compraram não prestaram e estão se estragando. Essa foi a orientação que o governo brasileiro teve – além de que, uso de máscara nesses países, aqui o presidente é contra, e a vigilância digital – você na China para entrar em um shopping, tem que pegar aquele código para saber onde você andou porque, se aparecer alguém que contatou com você e teve a doença, vão lá atrás de você (…) Aqui no Brasil, nós não tivemos nada disso”.

Sobre o caos de Manaus, Costa afirmou que o ápice da primeira onda por volta do mês de abril contabilizou 11.758 casos e 413 óbitos em uma semana. Em maio, a quantidade de pessoas acometidas pela doença continuou: 4500 casos, 100 óbitos por semana e, em setembro, o secretário de saúde do Amazonas falou em seu depoimento que já era possível ver aumento de casos “Portanto, nunca houve o que vossa excelência defendeu como situação em que quase que uma imunidade de rebanho havia se instalado”.

O senador disse que o Epicovid feito de 14 a 20 de maio mostrou que só 12,5% das pessoas entrevistadas tinham anticorpos. “Então, essa ideia da imunidade de rebanho, inclusive nesse caso, ela é muito grave, ela é muito equivocada (…) O indivíduo, em muitos casos, em pouquíssimo tempo ele não tem os anticorpos. Então, ou é vacina ou é nada. Ou é vacina ou é nada, e esse governo irresponsável não investiu na vacina”.

Randolfe Rodrigues – Rede/AP

Em sua apresentação, Randolfe exibe vídeo de maio de 2020, com Dráuzio Varella e Atila Iamarino, quando Dráuzio diz ter remorso de não ter avaliado bem o que poderia acontecer. Sobre a situação política da Suécia, o senador explica que a razão final da queda do premie sueco não foi a condução em relação ao coronavírus, mas o início da perda de apoio no gabinete foi isso – ao ponto de o próprio rei da Suécia criticar as medidas adotadas. “Não me parece que tenha sido uma boa referência no enfrentamento à pandemia”.

Terra disse ter se encontrado com Bolsonaro cerca de 20 vezes em um ano e meio, quando discutiram questões políticas, e afirmou aos senadores que o presidente tem opinião própria. “O presidente tem opinião própria, esse país tem um presidente que pensa, que tem opinião própria sobre tudo, ele ouve pessoas, ele ouve e decide”.  Porém, Randolfe citou os diversos tuites de Terra sobre a pandemia e disse que o deputado não só influenciou o presidente, como também a opinião pública.

Randolfe questionou Terra sobre a existência de algum vírus que tenha sido contido por imunidade de rebanho. Osmar diz que influenza, que surto epidêmico desaparece com imunidade de rebanho. “Todos” – porém, o senador afirma que o único vírus que foi eliminado foi pelas vacinas, e que o influenza existe há mais de 100 anos.

Randolfe Rodrigues citou a obra A Bailarina da Morte, destacando que em 1918 se falava em isolamento mas que os governos não aceitavam e que, na época da Gripe Espanhola, também haviam aqueles que advogavam pelo quinino, em uma referencia à cloroquina.  Ao fim, citou Cazuza: “eu vejo o futuro repetir o passado”.

Rogério Carvalho – PT/SE

Além de contrapor as falas de Osmar Terra, o senador Rogério Carvalho (PT-SE) ressaltou a contribuição de Osmar Terra para a falta de ação e para a teoria da imunidade de rebanho. “A única coisa irreparável, ou que não voltam atrás, são os 502.817 mortos da pandemia. Todo o resto, a gente pode reconstruir. Empresas que fecharam, se tivesse havido no tempo certo uma posição não dependente do congresso, mas uma iniciativa direta do presidente, poderíamos ter evitado o fechamento (…) o auxílio emergencial só foi sair depois que o congresso tencionou e pautou. Demorou para poder sair. Então, é importante dizer que a única coisa que a gente não recuperará são as vidas perdidas”.

Sobre o lockdown da Argentina, Carvalho disse que o país não fez um ano de lockdown, e sim nove dias. “Os países que não fizeram isolamento tiveram uma mortalidade maior via de regra, é só comparar os países nórdicos – a Suécia tem o número de mortes maior por milhão de habitantes do que os demais países da Escandinávia. Não é pouco maior, é muito maior. Também é importante dizer que a China fez lockdown, que não é verdade que a pandemia lá começou e parou do nada. Foi lockdown”.

“É importante a gente dizer que, no Brasil, foi defendida sim uma teoria da imunidade naturalmente adquirida, coletiva, que se chamou de imunidade de rebanho. Coisa que jamais se alcançaria porque, com 200 milhões de brasileiros, este caminho levaria a outras cepas, e mais cepas, e que nós precisávamos ter era vacina há mais tempo. E esse país testou a Moderna, testou a CoronaVac, testou a AstraZeneca, testou a Pfizer e foram feitas ofertas de vacinas desde março a maio de 2020”, disse Carvalho. “Para garantir lotes de imunizantes para quando essas vacinas estivessem prontas para entregar e a gente pudesse iniciar uma campanha de imunização sem o sofrimento que a gente tá vendo, porque imunização coletiva, no caso de um vírus tão contagioso, a gente só vai alcançar com imunização em tempo rápido porque, se demorar muito, também não vamos conseguir”.

Carvalho também ressalta a defesa do presidente Jair Messias Bolsonaro ao uso da cloroquina como medida de controle sanitário – a única medida nesse sentido. “Ele propôs aglomeração, porque ele foi contra o isolamento, porque ele foi contra a vacinação – e não sou eu que estou dizendo, todos os vídeos que vimos aqui, ele fala ele mesmo contra todas essas medidas, inclusive contra a vacina (…) Ele só defendeu uma única medida de controle sanitário, que foi a cloroquina (…) Portanto, nós estamos diante de um cenário onde o presidente da república definiu como única – porque ele vetou o uso de máscaras, porque ele entrou no STF para proibir isolamento social, ele tentou obstruir o trabalho de isolamento que deve ser feito por todos, a começar por ele (…)”

Alessandro Vieira – Cidadania/SE

O senador Alessandro Vieira fez diversas perguntas ao deputado federal Osmar Terra que, por final, acabaram por confirmar a visão do “padrinho” do suposto “gabinete paralelo” que o distanciamento e o isolamento social não ajudam a evitar a propagação do vírus.

“O senhor como profissional e gestor de saúde tem alguma dúvida de que a redução de mobilidade e medidas de distanciamento social ajudam a reduzir a propagação do vírus?”, perguntou o senador. “Numa pandemia não reduz, não reduz – como não reduziu”, insistiu Terra, afirmando que não existe isolamento para uma família que mora em uma casa de 40 metros quadrados na favela, no que Vieira rebateu que isso acontece “quando o governo federal não cuida das pessoas, não garante meios para que elas possam se proteger”.

O deputado manteve o discurso de que o governo federal não teve poder de decidir nada por causa de decisão do STF (Supremo Tribunal Federal), que assegurou a estados e municípios a autonomia para tomar medidas contra a propagação da doença. Porém, quando questionado por Vieira se o governo federal apresentou algum projeto ou planejamento de ação que foi impedido de execução pelo Supremo. Terra admitiu que não.

Além de lembrar a Terra que o Rio Grande do Sul teve o terceiro pior resultado do Brasil durante a pandemia da gripe H1N1 (o deputado foi gestor da saúde estadual por oito anos), Vieira lembrou que Osmar Terra trouxe uma grande contribuição para a CPI, ao esclarecer que o presidente da República, se informando pelos meios que ele escolha, é o único responsável pelas decisões que toma.

“Não é uma pessoa com problemas mentais, até onde se sabe, e toma decisões como gestor dessa república. O senhor falou por várias vezes isso, que o senhor é apenas um deputado que manifesta opiniões e o presidente escuta o que quer, e decide como quer”, disse o senador.

Sobre a imunidade de rebanho, que Terra negou o uso como ‘uma técnica ou uma estratégia de enfrentamento’ à Covid-19, Alessandro Vieira reagiu. “Para que esta CPI não sirva de palco para a desinformação, não é possível apontar benefício na infecção natural em relação à vacina. A vacina é a contaminação em dose segura, o que não é o caso da contaminação natural. O senhor esteve internado numa UTI. Não dá para comparar com vacina, pelo amor de Deus”.

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