A corrupção na Itália e sua internacionalização pós Mãos Limpas

Em entrevista ao GGN, especialista compara Mãos Limpas ao processo atual no Brasil com a Lava Jato, e conta que a máfia italiana ainda permanece sob forma de alienação, devido à sua representatividade no desenvolvimento econômico do país
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Jornal GGN – “A máfia tem tamanha importância na economia italiana que agora é considerada no PIB”, afirmou Cristiane Mancini, economista e autora de estudos na Università Tor Vergata, em Roma. Em entrevista ao GGN, Mancini revelou como a Operação Mãos Limpas atuou no país, nos anos 90, e o tipo de corrupção que permaneceu, sendo ainda responsável por 7% da economia local.
 
Na Itália, a pesquisadora realizou estudos pela SOS Impresa, associação que garante assistência jurídica e apoio a vítimas de empresários da máfia, em especial os atingidos pelas atividades de extorsão e usura. A entidade também fomenta estudos sobre o fenômeno da máfia e as suas estratégias, com o objetivo de informar sobre a infiltração do crime organizado.
 
“De acordo com esse estudo que eu tive condições de ir à Itália, consegui ter a concretização de que, na verdade, hoje a máfia está ramificada em toda a economia italiana. Houve a concretização de colocar a máfia no PIB, porque antes ela não era considerada”, disse a economista, explicando que após a deflagração da Mãos Limpas, “algumas coisas ficaram um pouco amornadas, permitindo que a corrupção voltasse”.
 
A especialista contou que o início desse processo foi “uma combinação de interesses entre as organizações criminosas com os organismos públicos”, por meio dos chamados colarinhos brancos: “aqueles indivíduos que facilitam legislações, propostas, que revelam segredos e permitem essa combinação entre empresa privada e setor publico”.
 
De acordo com ela, antes das investigações chegarem a seu ápice, ainda assim, era bastante claro para todos que havia aquele sistema de corrupção, que só foi completamente desmistificado após a sequência de assassinatos, que resultaram na instalação de auditorias e a revelação de todo o esquema.
 
“Porque que na Itália é completamente diferente de uma organização criminosa brasileira? Porque lá é hierarquizada, tem a ver com família, honra e verdade”, comparou Cristiane Mancini. Por outro lado, haviam semelhanças entre o país europeu daqueles anos e o Brasil de hoje, apontou: a crise política e econômica, que na Itália durou por uma década; a existência de inúmeros partidos políticos; a falta de transparência entre empresas e o setor público; e o mecanismo de operar por meio de licitações.
 
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Passados mais de 20 anos, algumas características permaneceram, como a sucessão familiar, contou Mancini. Hoje, a máfia italiana atua “na reciclagem de lixo, na zona hoteleira, em produtos alimentícios, em escolas, hospitais, em praticamente tudo”, afirmou, completando que o esquema “continua ilegal, só que promove tamanho desenvolvimento econômico que se transforma em alienação”.
 
Desde a Mãos Limpas, com o passar dos anos a máfia se internacionalizou e começou a se fortalecer no exterior. “Começou a fazer intercâmbios, a se camuflar em alguns setores, a traficar ainda mais drogas, envolver prostituição, jogadores de futebol. Ela se diversificou”, disse. “Depois da crise, a máfia mais uma vez se reinventou, passou a fornecer o crédito, a oferecer emprego e, inclusive, a mostrar que uma empresa que era falida poderia se levantar, então passou a dar oportunidade para o empresariado também”.
 
Mancini acredita que há relações entre a Operação Mãos Limpas e a Lava Jato, como a extensão do esquema para paraísos fiscais. Mas também cenários distintos que são determinantes para análises de comparação. “Na Itália, o poder judiciário entrou com maior força para erradicar a corrupção, em 1990. No Brasil isso ainda não aconteceu”, defendeu.
 
“A política italiana tem melhorado bastante, eu acredito que agora ela está com bastante metas a cumprir e está cumprindo. [Houve um fortalecimento das empresas italianas, no sentido de não procurar o serviço de organizações mafiosas e também partidos políticos bem claros com seus propósitos, hoje possui muitos poucos em relação ao que possuía”, afirmou. “Eu acredito que dá pra fazer um contraponto com a política brasileira. Ela está muito atribulada, com muitos partidos, e talvez seria a hora de uma repaginada”, completou.
 

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile, repórter de Política, Justiça e América Latina do GGN há 10 anos.

11 Comentários

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  1. há duas coisas aí: a primeira

    há duas coisas aí: a primeira é cultural, muitos italianos simpatizam com a máfia, não consideram um crime e, principalmente, recorrem a ela quando o Estado não o atende. Isso ocorre de maneira semelhante no Brasil, por exemplo quando alguem pede “favores” a deputados/vereadores, como emprego pro primo ou para tirar o sobrinho do alistamento militar,  sem considerar isso uma forma de corrupção.

    A segunda é o ‘Efeito Berlusconi’, 20 anos de ressaca não é pra qualquer um:

    “Depois da crise, a máfia mais uma vez se reinventou, passou a fornecer o crédito, a oferecer emprego e, inclusive, a mostrar que uma empresa que era falida poderia se levantar, então passou a dar oportunidade para o empresariado também”.

     

  2. Sempre achei os dois casos

    Sempre achei os dois casos bem diferentes. Quem força a barra para torná-los semelhantes é o juiz global, mas poucas coisas há em comum, a meu ver. Só a presença da máfia já faz a grande diferença; no caso brasileiro não há uma organização criminosa e ilegal articulada aos casos de corrupção. A semelhança está no envolvimento de políticos e empresários, que é o tipo de corrupção comum a todos os países do mundo, capitalistas ou não, mudando apenas a escala. Outro ponto em comum é a disposição do MP e do Judiciário para controlar a política pela via penal.

    A propósito, quem estiver interessado em observar um pouco mais como age o judiciário, tem um documentário muito bom na Netflix chamado Kids for cash, que relata o caso de dois magistrados estadunidenses e suas relações com empresários do sistema carcerário privado.

  3. operação mãos


    operação mãos limpas,

    operação lava-jato…

    talvez isso importe ao trabalhador,

    mas no fundo é uma briga entre poderes…

    se melhora o país,. é meio duvidoso..

    lá, limparam tanto que tiveram que botar a máfia no pib….

    grandes bosta, como diria o meu vizinho…. 

    nos eua esse preço da corrupçãõ já deve estar

    incluído em qualquer negócio….

    devem rir da nossa cara….

  4. Será que o Moro morou na

    Será que o Moro morou na filosofia? E, pelo andar da carruagem, a Lava Jato vai se tornando um tribunal especial ou um Ministério. Ministério da Lava Jato. Parece até roteiro do Monty Pyton, Brasil, O Filme. Ou Lava Jato, O Processo.  A luta contra a corrupção que foi, sem nunca ter sido. Como na Itália.

  5. Mãos Limpas?

    Mãos limpas com a Lava Jato? O que parece é que limparam outra coisa na Itália. Se a máfia continua e estratificou a operação, ou a justiça falhou ou faz parte do processo. É isto que pretendem fazer aqui? O domínio do judiciário pela máfia?  Os irmãos marinho oficializados presidentes? Socorro!

    1. Assim como Moro, MPF e sua

      Assim como Moro, MPF e sua Lava Jato com a carinha de um policial federal  “honradíssimo” estampado nos jornais como exemplo de moralidade, a “Mãos Limpas” também nunca teve como alvo principal o fim da corrupção  ou Máfia. O único objetivo era enfraquecer a política e a consciência  popular de cidadania.

      É claro que isso foi possível porque, assim como. Dilma e o PT, o Partido Comunista Italiano só se deu conta, que o alvo era na verdade ele, quando já era tarde demais.

      Dilma, apenas com frases imbecis, do tipo a “Presidenta é honrada” é suficiente p q ela acredite que  Moro não deixar “pedra sobre pedra”  no país é um “grande feito”. O resultado está  aí. O pior é a demora para ficha dela cair, o JENIO elaborador da sua visão infantil sobre Justiça continua no MJ.

       

  6. DÁ PRA TRAÇAR PARALELOS?

    A diferença toda é que a Itália, não obstante a máfia, o mezzogiorno e a crise econômica, é um país altamente desenvolvido, muito industrializado, e tem IDH, renda per capita  e demais indicadores socioeconômicos anos-luz à frente do Brasil, que se encontra cambaliando e falido, se desindustrializando.

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