4 de junho de 2026

Cai na Roda: os efeitos irreparáveis do bolsonarismo, com Marina Basso Lacerda

A pesquisadora entende que o conservadorismo que elegeu Jair Bolsonaro é uma consequência de um ciclo de 25% do eleitorado que estava adormecido

Jornal GGN – O Cai na Roda deste sábado (23/01) conversa com autora do livro ‘O Novo Conservadorismo Brasileiro: de Reagan a Bolsonaro’, Marina Basso Lacerda. Pesquisadora de pós-doutorado em Ciência Política na Universidade de São Paulo (USP), Lacerda explica as origens e os impactos do novo conservadorismo no Brasil, amplificado com a crise sanitária atual.

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Antes de Bolsonaro

O livro, que foi finalista do Prêmio Jabuti 2020, foi um dos primeiros a tratar do surgimento do neoconservadorismo no Brasil, que depois se materializou com a eleição de Jair Bolsonaro na Presidência da República. Ao Cai na Roda, Marina narra que já vinha estudando o fenômeno antes mesmo de Bolsonaro se viabilizar como candidato.

“A minha pesquisa vinha investigando o Congresso e várias pesquisas que foram publicadas depois ou pesquisas que ainda não foram publicadas, mas cujos dados empíricos já foram levantados, mostram posteriormente esses dois temas: da família tradicional e de uma visão bélica da segurança pública crescendo na população”, conta.

Neoconservadorismo não é espontâneo

Dentro do campo acadêmico destes estudos, há análises no sentido de que as bandeiras conservadoras que caracterizaram depois o atual governo Bolsonaro não partiram de um movimento espontâneo da sociedade, mas que foi influenciado por formadores de opinião, juntamente com a repercussão do apelo dessas pautas – como a proteção da família tradicional, associados ainda ao impacto das redes sociais nos discursos e na disseminação das informações.

“E o que a gente desconfia, eu e o conjunto de pesquisadores, que esse é um movimento que talvez tenha começado de cima, de que formadores de opinião tenham iniciado uma militância que depois passou a ter um apelo muito grande na sociedade.”

A título de exemplo, Lacerda menciona uma pesquisa recente, da PoderData, que revela que 47% dos brasileiros é a favor da estratégia do governo na vacinação. Ou seja, “47% dos brasileiros concordam com uma estratégia contra a ciência, contra a pesquisa.”

Fase será irreparável

Quando questionada sobre os impactos do governo de Jair Bolsonaro para o Brasil, Marina acredita que algumas mudanças “são irreparáveis”. “Essas duzentas e tantas mil mortes que a gente já tem, muitas eram evitáveis. Então em grande medida, o que a gente está vivendo é irreparável.”

E apesar de admitir que “não é otimista”, a pesquisadora entende que o conservadorismo que elegeu Jair Bolsonaro é uma consequência de um ciclo. Ela cita o conceito de “ativação da direita”, explorado pelo cientista político André Singer, de que uma parte do eleitorado brasileiro, em torno de 25% sempre foi conservador.

“O que aconteceu nos anos do governo Lula seria que esse conservadorismo teria ficado adormecido, por conta do sucesso econômico de suas políticas, inclusive por uma linguagem muito forte de mediação do Lula. Então os conflitos teriam ficado adormecidos. Tanto que não é que mais da metade dos brasileiros se identificavam com a esquerda, no auge dos governos do PT, o grosso da população não se identificava.”

Eleitorado conservador estava ‘adormecido’

“A hipótese é que essa direita tenha sido reativada, que ela estava adormecendo, mas que uma série de fatores fizeram com que ela fosse reativada”, completa Marina Basso Lacerda.

Entre os impulsos para essa “ativação” conservadora, ela cita a Lava Jato, a temática da corrupção e o descontentamento das classes média e alta brasileiras: “com o encarecimento do serviço dos trabalhadores mais precarizados, por não serem mais as únicas a andar de avião, por uma situação de pleno emprego que estava começando a pressionar os núcleos para baixo, pelo fato de pessoas estarem se formando no ensino superior mas não terem empregos compatíveis, enfim, uma série de fatores, que levaram à derrocada petista e o conservadorismo voltou a crescer”.

“Ainda levará um certo tempo”

Ainda, nessa linha, defende que o desafio atual do campo progressista é o de dialogar, “conversar” com a população sobre as pautas que estão no centro do debate – como a família tradicional, o armamento, etc, mas acredita que ainda precisará de “um certo tempo” para esse ciclo passar.

“Se é verdade esse argumento, ainda levará um certo tempo para essa direita ser desativada, ou pelo menos nesse lugar tão extremo em que um percentual da população brasileira, cerca de 25%, está”, analisa.

Marina Basso Lacerda abordou, ainda, a influência do cristianismo sobre o grupo conservador brasileiro, as semelhanças do fenômeno no Brasil e nos Estados Unidos, a repercussão da queda de Donald Trump no Brasil e o sentido de “país rachado”, o exemplo do neoconservadorismo na América Latina, especialmente no Chile, a centro-direita em 2022 e os problemas da diplomacia do governo Bolsonaro.

Acompanhe todos estes debates no programa completo:

 

 

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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3 Comentários
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  1. Nêmesis

    23 de janeiro de 2021 8:46 pm

    Alguns palpites:

    * Além da Lava Jato, foi fundamental o fiasco da selecinha na Copa de 2014. Na cabeça do povo, foram gastos rios de dinheiro para se tomar 7 x 1. Os patos amarelos que protestaram pelo impeachment da Dilma estavam engasgados com aquele papelão.

    E não duvido que isso tenha sido arranjado. Basta lembrar da Dilma criticando a Merkel em 2012.

    * Infelizmente, a (in)segurança pública é um sério problema. E isso faz com que as pessoas tenham mais apreço por regimes de força.

    * A cruzada anti-Ciência tem, no mínimo, duas componentes:

    – Primeiramente, a grande mídia existente no Brasil tem manipulado o povo com frequência – e isso, durante décadas. Isso produziu desconfiança na população acerca do conteúdo apresentado.

    Aliás, essa foi uma das razões da ascensão do Fantoche. A atitude desonesta da grande mídia foi capitalizada pelos influenciadores de direita.

    – A grande maioria do povo não sabe o que seja Ciência. E isso torna mais difícil distinguir gato de lebre. Somado ao item anterior, foram levantados muitos questionamentos na questão da segurança das vacinas, em particular, das vacinas de RNA.

  2. Nêmesis

    23 de janeiro de 2021 9:03 pm

    Todavia, como Bollsonaro subiu de foguete, sua queda será como uma estrela cadente.

    * A sua principal bandeira, anti-corrupção, foi literalmente colocada atrás por seu líder do governo no Congresso (“dinheiro na b**** é vendaval…”). Acrescentem-se aí a troca de cargos para a eleição dos presidentes da Câmara e do Senado (Ué? Não foi exatamente contra isso que o Bozo foi eleito?).

    * Inflação – Verdade é que as plantações chinesas foram por água abaixo no meio do ano passado, e a China desandou a comprar comida onde havia, inclusive no Brasil, aumentando os preços.

    Entretanto, antes da pandemia, o ministro da (des)economia tratou de desvalorizar deliberadamente o câmbio. Inclusive, o chefe do Bozo o repreendeu por isso.

    https://epocanegocios.globo.com/Mundo/noticia/2019/12/donald-trump-acusa-brasil-de-desvalorizar-moeda-e-anuncia-tarifas-de-importacao-no-twitter.html

    Quando veio o coronavírus, desastre! E subindo o dólar, sobe tudo.

    O fato é que, atualmente, tem muita gente xingando o Fantoche por causa dos aumentos de preços no supermercado.

    * Para completar, o vexame do (des)governo com a compra de vacinas e seringas, assim como a falta de oxigênio em Manaus (e ainda aumenta o imposto de importação de oxigênio!).

  3. Eudes Gouveia

    23 de janeiro de 2021 10:25 pm

    Um fato que merece a atenção são os componentes do sistema de segurança que se identificam com a pauta da direita. Antes eram apenas a mão de obra que executava a repressão, agora, com as redes, tomaram a defesa da pauta para sí. PM’s, PRF’s, PF’s, militares de baixa patente (além dos oficiais) e até guardas municipais e vigilantes bancários, todos com smartphone na mão em defesa do mito (preste atenção quando passar por um PM na esquina).

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