Criadores abandonam criatura, mas não largam a ideia de golpe, por Marcus Atalla

Há tempo fala-se que o Partido Militar não dará um golpe aberto como de 64, o golpe já ocorreu em 2016 e estão usando métodos da guerra-híbrida

Agência PT

Criadores abandonam criatura, mas não largam a ideia de golpe

por Marcus Atalla

Assim como o Gal. Villas Bôas em 2018, o senador Gal. Hamilton Mourão tocou o apito de cachorro, o fantasma da Intentona Comunista em 35. Como um bom apito de cachorro, esse tem um silvo diferente aos que o ouvem. Quando Villas o tocou, a imprensa civil interpretou como um chamado contra a esquerda, pois para os adeptos do bolsonarismo (alt-right) tudo que não é ultraneoliberal e conservador, é comunismo. No entanto, aos militares o silvo tem um segundo significado, um chamado de união das tropas.

Os militares aprendem na caserna que a Intentona Comunista fez com que “irmão de arma” lutasse contra “irmão de arma”, ala de esquerda e da direita das Forças Armadas. O silvo é para que os militares não se dividam nesse momento e se mantenham juntos ao Partido Militar. Ao se observar as condições conjunturais em que se deu o apito, é possível perceber ser um silvo de aflição. Um sinal de que o Partido Militar sente a possibilidade de fragmentação ao seu apoio na caserna.

Aqueles que desde o início não concordavam e os que após o Governo Partido Militar/Bolsonaro perceberam o enlamear das Forças Armadas Brasileiras no todo. Têm agora, com a eleição de Lula, a possibilidade de trazer as Forças Armadas e o país de volta a uma normalidade. Povo dividido, faz do país um alvo fácil de ser conquistado e é indefensável. Entretanto, todo militar aprende a não ficar contra seus colegas de armas, numa guerra só se tem o companheiro ao lado para salvar-lhe a vida. E é para unificar os possíveis dissidentes que o General Mourão tem feito declarações ainda mais radicais.

Os militares que se declararam abertamente contra a politização das forças armadas e a ocupação do Estado pelo Partido Militar, a defesa de Forças Armadas profissionais, estão sendo vítimas de lawfare por seus companheiros. É o caso do cel. da reserva Marcelo Pimentel. Apesar de reafirmar que suas críticas não são às Forças Armadas como Instituição de Estado, Pimentel enfrenta seu 5º processo disciplinar. Enquanto centenas de militares têm infringido diversas normas militares desde 2016 e nada é feito.  

“Salientando, Minhas expressões públicas estão amparadas pela Lei 7.524/86”, diz Pimentel antes de todas suas críticas e manifestações públicas. [A lei supracitada dispõe sobre a manifestação, por militar inativo, de pensamento e opinião políticos ou filosóficos].

Pimentel fez uma resumida linha do tempo destes últimos anos:

  • 2015-16, Gen Villas Boas (AMAN 73) e Etchegoyen (AMAN 74) dão aval ao Temer p/o golpe parlamilitar;
  • 2016-18, Etchegoyen, por dentro do gov Temer – GSI/inteligência;
  • 2016-18, Villas Boas, por cima do Exército Brasileiro;
  • 2016-18, Silva e Luna (AMAN 72), por baixo e por cima de Jungmann no Min Def;
  • 2016-18, Severo (AMAN 75), por dentro da Casa Civil de Eliseu Padilha;
  • 2017-18, Santos Cruz (AMAN 74), por dentro do Min Justiça de Osmar Serraglio;

Todos esses – e outros mais – desgastaram o governo Temer e viabilizaram a candidatura do colega Gen. Mourão (AMAN 75) montado sobre o Cavalão de Tróia (Bolsonaro AMAN 1977);

  • Abril 2017, Falha na segurança de Temer (responsabilidade do GSI) permite a gravação de Joesley Batista e resulta na quebra do pacto PMDB – PSDB (cidadania), que construiu o golpe Parlamilitar de 2016; política em geral desacreditada;
  • Fevereiro de 2018, por iniciativa do Ministro da Defesa (Gen Silva e Luna), GSI (Etchegoyen), MJ (Santos Cruz) e Casa Civil (Severo), sob o disfarce de que a ideia fora de Moreira Franco (SEGOV), faz-se a Intervenção [Militar] Federal no Rio;
  • Em 2018, quebra-se o apoio do grande capital empresarial a Temer com suspensão da PEC da reforma da previdência;
  • 2018, Interventor Gen. Braga Netto (AMAN 78); Rio é domicílio eleitoral do Bolsonaro, defensor confesso de “milicianos”;
  • Março de 2018, assassinato de Marielle Franco e Anderson. Assassino era vizinho de porta do candidato Bolsonaro. Preso somente após a posse, em 2019;
  • Abril 2018, Comandante do Exército Brasileiro (Villas Boas), c/anuência do Chefe do Estado-Maior (Fernando AMAN 76) e de todo Alto Comando (incluindo atuais Min Def Paulo Sérgio AMAN 80 e Comandante do Ex. Brasileiro Freire Gomes AMAN 80), expede 2 tweets na véspera do STF julgar HC de Lula, o qual é preso;
  • Maio 2018, Gen Fernando (AMAN 76) vai para reserva e é imediatamente nomeado assessor do Presidente do STF (Dias Toffoli) durante o ano eleitoral em que General Mourão (AMAN 75) disputa à presidência montado sobre o cavalão de Tróia (Bolsonaro AMAN 77);
  • Maio 2018, lockout dos donos de transportadoras rodoviárias do Centro Sul arruína a economia pelo resto do ano eleitoral e faz sobressair o GSI/Etchegoyen, que assume, com o Exército, as iniciativas governantes para “resolver o problema”;
  • Junho 2018, Dias Toffoli diz publicamente que não houve golpe em 64 nem DITADURA de 64 a 85, mas um “MOVIMENTO”;
  • Agosto 2018, campanha eleitoral c/imagem do Exército já colada na candidatura do MITO (cavalão de Tróia);
  • Set 2018, facada;
  • Out 2018, Mourão/Bolsonaro vencem eleição;
  • Jan 2019, inicia o governo mais militarizado da História, c/geração de generais/coronéis AMAN 70/80 comandando ocupação de milhares de cargos em cabeça, entranhas e alma da máquina governamental do Estado:
  • Jan 2019-mar 21, Gen. Fernando Min Def; Gen Ajax (AMAN 80) assume assessoria de Presidente do STF;
  • Mar 2020, Fernando (AMAN 76) e comandantes das FA (incluído Leal Pujol AMAN 77) expedem Ordem do Dia;
  • Mar 21, fingindo resistir contra tentativa do capitão Bolsonaro politizar as Forças Armadas, (teve jornalista acreditando, muitos) e às vésperas da abertura da CPI-Covid, determinada pelo Min Luís Barroso, os Gen. Fernando e Leal Pujol são “demitidos”;
  • 7 Set 21, “tentativa de golpe” (segundo o jornalismo brasileiro);
  • 8 Set 2021, TSE (Barroso) cria Comissão de Transparência Eleitoral e convida as Forças Armadas;
  • Nov 2021, TSE (Barroso) convida o mesmo Gen. Fernando p/ Diretor-Geral do TSE no ano eleitoral de 2022 (Lembra onde ele estava em 2018?) em q o mesmo cavalão de Tróia, agora montado pelo interventor Braga Netto e milhares de militares são candidatos, incluindo o Gen Mourão;
  • 2 de outubro 22, Gen Mourão, Pazuello (AMAN 1984) e um monte de general, coronel, major são eleitos;
  • 30 out 22, Lula/Alckmin eleitos;
  • Desde então, milhares de “golpistas” na porta do TSE e dos TSE pedindo anulação das eleições e golpe de estado

Para Pimentel, “Mourão é um dos líderes do Partido Militar e Bolsonaro é peão” –[militares dependiam da popularidade de sua criatura e sua criatura do poder dos militares, havendo uma simbiose entre criadores e criatura]. “Peão (capitão AMAN 77 obedece ao general AMAN 75)”. O Partido Militar é responsável por levar a política p/dentro dos quartéis, comandar o Exército durante a última década, escolher os que comandam o Exército hoje e foram eleitos senadores, deputados, governadores etc., na última eleição em 2 de outubro.

O blefe dos militares à la General de Gaulle

Há tempo fala-se que o Partido Militar não dará um golpe aberto como de 64, o golpe já ocorreu em 2016 e estão usando métodos da guerra-híbrida, ocupação do Estado de forma camuflada. Ameaçam armas às ruas para provocar uma paralisia estratégica pelo medo, causando imobilismo na sociedade. Os EUA não querem golpe às claras, ao ponto de enviarem ao Brasil o próprio Secretário de Defesa, Lloyd Austin, para garantir que os militares brasileiros não metam os pés pelas mãos.

Criadores romperam a simbiose com sua criatura, agora que ela se tornou disfuncional. O cel. da reserva Marcelo Pimentel foi muito feliz em sua analogia.

O veto ao discurso de Bolsonaro na Cerimônia da AMAN (26/11), mostra que ele foi deixado de lado para não atrapalhar. Basta ver a expressão corporal e o comportamento dele. Um Bolsonaro calado, visivelmente desconfortável, acuado, aparentando derrotado, ombros baixos e sorriso amarelado, um homem brochado. Não aparenta nem um líder de cabaré, quanto mais um Duce comandante de uma horda fascista. Bolsonaro é usado apenas como uma imagem em um estandarte a ser seguido pelas tropas em meio aos tiros no campo de batalha.   

O que o Partido Militar está fazendo nesse momento, às vésperas da reunião de Lula onde será definido o grupo responsável pela futura política de defesa e oficiais membros, é a estratégia que o Gal. Charles de Gaulle usou contra a Argélia (52-64). A França sabia que não tinha mais como vencer a guerra contra os argelinos, cuja luta era por sua independência colonial.

Diz a lenda, que ao perguntarem ao General de Gaulle do porquê manter uma guerra sabidamente perdida e com uma perda enorme de vidas dos dois lados. De Gaulle teria dito que é justamente por isso, como a guerra estava perdida, a França deveria se mostrar forte para ter força de barganha e assim conseguir um acordo de paz vantajoso.

Pareça fraco quando está forte, pareça forte quando está fraco (Sun Tzu), esse é o intuito do Partido Militar brasileiro, eles não desistiram de seu projeto de poder, porém, estão tendo menos adeptos do que pensaram ter após a vitória eleitoral de Lula. O Partido Fardado precisa manter a maior pressão para não perder os cargos e posições ocupados durante o Governo Bolsonaro, e assim, manterem-se bem posicionados para continuar o avançar assim que possível – uma guerra de trincheira. Não é apenas uma questão de aparência perante a opinião pública, mas sim, correlação de forças, poder real de negociação e imposição.

O Ministro do STF Dias Toffoli (nomeou para auxiliá-lo no STF dois generais em 2018) disse em evento realizado pela LIDE (empresa de lobby de Dória) em NY, que o Brasil não pode ficar atado a um passado de ódio e vingança como a Argentina. Referindo-se a punição de militares golpistas e torturadores de 60. Dias Toffoli será relator da ADPF 320, que questiona a validade da Lei da Anistia, promulgada em 1979, por crimes contra a humanidade referente às práticas dos militares na Ditadura de 64. Sua decisão deixará uma jurisprudência já preparada para uma futura anistia aos militares responsáveis por toda essa zorra que se tornou o Brasil pós-2016.

A psicologia das massas bolsonaristas

Que nem todo eleitor que votou em Bolsonaro é fascista era sabido e seguiriam suas vidas ao invés de perder tempo em manifestações. O que não significa que não possam voltar às ruas se acharem que há uma nova correlação de forças. Também era esperado uma maior radicalização do núcleo duro. Quando os fascistas percebem estar perdendo força, mais desesperados e agressivos tornam-se. Sonham em ser mártires, morrer com honras por defender algo imaginário.

Ainda mais sendo estimulados pelas redes sociais, já que o Partido Militar precisa e estimulam-nos como buchas de canhão. Apesar de barulhento, nesse momento, esse núcleo duro nas ruas não tem massa crítica suficiente para legitimar o impedimento da posse do Lula pelos militares. O antropólogo Piero Leirner tuitou (02/11) que vários dos manifestantes em frente aos quartéis são membros da família militar (parentes), tática usada pelos militares nas manifestações de 2016.

O jornalista Luis Nassif obteve um testemunho comprovando uma artificialidade em meio às manifestações.

O bolsonarismo não deve ser visto como sinônimo de Bolsonaro, esse grupo permanecerá independente dele, possivelmente até o descarte quando perceber sua fraqueza. Wilson Ferreira (Cinegnose) definiu muito bem, chamando-os de “Exército Psíquico de Reserva”. Zumbis da guerra-cognitiva que poderão ser acionados para desestabilizar o Governo Lula em um momento oportuno.

Marcus Atalla – Graduação em Imagem e Som – UFSCAR, graduação em Direito – USF. Especialização em Jornalismo – FDA, especialização em Jornalismo Investigativo – FMU

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