4 de junho de 2026

Dilma: o que Cunha diz é que quem roubava era o Temer, por Fernando Brito

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Enviado por Adir Tavares

Do Tijolaço

 
por Fernando Brito

Sensacional, sob todos os aspectos, a entrevista da ótima repórter Maria Cristina Fernandes, do Valor, com Dilma Rousseff. Feita com delicadeza e honestidade, descortina a austeridade com que vive uma mulher espartana. Recomendo a todos a leitura, mas dela retiro o que é explosivo.

Seleciono as frases e, a seguir, reproduzo seu contexto.

  • eu não deixei o gato angorá roubar na Secretaria de Aviação Civil. Chamei o Temer e disse: ‘Ele não fica. Não fica!
  • Não tenho a menor dúvida de quem é Padilha e Geddel [Vieira Lima, ex-­ministro da Secretaria de Governo].
  • Temer é um cara frágil. Extremamente frágil. Fraco. Medroso. Completamente medroso.
  • lá está Eduardo Cunha dizendo que quem roubava na Caixa Econômica Federal, no FGTS, é o Temer.

São apenas quatro parágrafos com esta coleção atômica de revelações. Mesmo com uma mídia que está disposta a calá-la, vai ser difícil que Dilma não cumpra sua própria profecia: “não vai ficar pedra sobre pedra”.

Foi na tessitura das relações com as quais tentou permanecer no poder que a presidente reconhece seu segundo erro: levar Michel Temer para o coração da articulação política. O então vice-­presidente percebeu a fragilidade do governo junto a uma base que não parava de se queixar. Ao lado de Eliseu Padilha, atual ministro-­chefe da Casa Civil, à época na Aviação Civil, mapeou o cerco. Arrepende­-se de tê-­lo colocado dentro do governo? “Olha, minha filha, não sabíamos que o nível de cumplicidade dele com o Eduardo Cunha era tão grande. Nenhum de nós sabia, nem o Lula. Depois é que descobrimos. Ele sempre negou essa cumplicidade que agora todo mundo já sabe.”

Quando começa a falar de Temer, Dilma, pela primeira vez ao longo de quase quatro horas de conversa, franze o cenho, encrespa a fisionomia e libera o calão. “Saber quem eles são, nós sabemos. Não tenho a menor dúvida de quem é Padilha e Geddel [Vieira Lima, ex-­ministro da Secretaria de Governo]. Convivi sabendo quem eram. Não tenho esse ‘caiadismo’ [de Ronaldo Caiado] de falar que eu não sabia quem eram. Sabia direitinho. Inclusive uma parte do que sou e da minha intolerância é porque eu sabia demais quem eles eram.”

Nesse momento, Dilma relativiza a frase categórica sobre a extensão da faxina de seu governo: “Saber demais não significa que você é capaz de impedir algumas coisas. Por exemplo, o gato angorá [Moreira Franco] tem uma bronca danada de mim porque eu não o deixei roubar, querida. É literal isso: eu não deixei o gato angorá roubar na Secretaria de Aviação Civil. Chamei o Temer e disse: ‘Ele não fica. Não fica!’. Porque algumas coisas são absurdas, outras não consegui impedir. Porque para isso eu tinha de ter um nível de ruptura mais aberto, e eu não tinha prova, não tinha certeza, entendeu? Não acho que é relevante fazer fofoca, conversinha. Posso contar mil coisas do Padilha e do Temer, então? Porque o Temer é isso que está aí, querida. Não adianta toda a mídia falar que ele é habilidoso. Temer é um cara frágil. Extremamente frágil. Fraco. Medroso. Completamente medroso. Padilha não é. A hora em que ele [Temer] começa assim [em pé, mostra as mãos em sentido contrário, com os dedos apertados em forma de gancho]. É um cara que não enfrenta nada!”.

Os brownies intactos na mesinha ao lado são indício de que a ex­-presidente gerencia bem as ansiedades da memória. Na novela da Lava­Jato, o capítulo preferido é o das perguntas de Eduardo Cunha a Temer, parte das quais foram vetadas pelo juiz Sergio Moro. “Quando li a primeira vez, lá sabia quem era José Yunes [ex­-assessor da Presidência]? Mas lá está Eduardo Cunha dizendo que quem roubava na Caixa Econômica Federal, no FGTS, é o Temer. Leia, minha filha. Não tenho acesso às delações, mas sei o que é um roteiro. E lá está explícito roteiro da delação de Eduardo Cunha. Explícito. Alguém não sabe que o Cunha está dizendo que não foi o Yunes, mas o Temer?

Leia a entrevista na íntegra, que o  Valor publicou de forma aberta. É um trabalho de alta qualidade e, sobretudo, de grande sensibilidade. Dilma colocou na mesa apenas um das muitas cartas que tem nas mãos, como retrato sem maquiagem dos intestinos do poder. O ataque a ela vai mostrar muito mais do que imaginam aqueles que o promovem.

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8 Comentários
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  1. romulus

    17 de março de 2017 1:23 pm

    Os cães ladram…

    E a Dilma passa…

    Pelo Brasil e pelo mundo!

    Tamanho é o medo que inspira nos golpistas que o Estadão vê a necessidade de escrever um editorial com virulência fora do comum contra a Presidente ~eleita~ do Brasil, Dilma Rousseff, na sua viagem à Europa.

    O editorialista igualou-se, no nível de grosseria e de ~pós-verdade~, a um “comentarista de portal de notícias” qualquer.

    Um Homer Simpson com espaço mais nobre.

    Resultado:

    – passou vergonha! rs

  2. maria rodrigues

    17 de março de 2017 1:27 pm

    Se Lula não vier a ser preso

    Se Lula não vier a ser preso antes da campanha para 2018, o melhor, a meu ver, seria que ambos fizessem caras de paisagem, aguardando momentos mais propícios para rasgarem o verbo, sendo verdadeiros, contra todos seus algozes. Talvez esta não seja a hora certa para esse tipo de explosão.

    Temo que Lula e Dilma, com suas tacadas, possam se prejudicar ainda mais, visto que não são bem-vistos por muitas autoridades, que trabalham dia e noite no sentido de desconstrui-los um pouco mais.

  3. Cláudio Freire

    17 de março de 2017 1:48 pm

    Realmente sensacional

    Realmente sensacional a entrevista. Parabéns para a Maria Cristina Fernandes.

    Só lamento que Dilma tenha cedido a várias pessoas que a cercavam e que a convenceram, durante muito tempo, de que não deveria ir para o confronto.

    Isso a descaracterizou, porque Dilma é naturalmente uma guerreira, que cresce em situações de confronto. Ele deveria ter feito isto desde o começo da articulação do impedimento, na minha opinião.  

  4. MarFig

    17 de março de 2017 3:14 pm

    Pqp. Entrevista pra globo???

    Pqp. Entrevista pra globo??? Que desânimo. 

    1. Dulce (Madame X)

      17 de março de 2017 3:32 pm

      Entrevista pra globo??

      …acho que não amiga, embora seja do grupo globo/folha (ainda é?) é uma publicação dirigida aos GOLPISTAS. Quase um “vocês teem o que merecem agora”. Presidente Dilma me representa, e muito! o

  5. Antônio - Minas Gerais

    17 de março de 2017 3:23 pm

    Dilma,

    por que você se recusa a citar o papel das Organizações Globo na concretização do golpe. O que você disse sobre a quadrilha do Temer até meu filho de 13 anos está exausto de saber. Vamos Dilma, coloque a boca no trombone e detalhe o papel das Organizações Globo. Por que não fala, em? Tem medo do que? É a sindrome de Estocolmo? E Dona Dilma…

  6. Maria Luisa

    17 de março de 2017 3:41 pm

    Excelente entrevista

    Dilma deu um nocaute em Temer! Ainda ha fôlego de vida inteligente na velha imprensa. Quando li as questões que Eduardo Cunha escreveu para Temer, pensei exatamente como Dilma: esta ali o mapa da mina. E o que fez o heroi dos fascistas, tolos e oportunistas? Anulou mais da metade das perguntas-pegadinhas do esperto Eduardo Cunha. Faz uma seara que Sergio Moro mostrou a sua cara, mas que importa, desde que seja para pegar Lula, não é?!

    Quanto a descrição que Dilma faz de Temer. Elementar, caro Watson!

  7. GalileoGalilei

    17 de março de 2017 4:54 pm

    Viva Dilma

    Mordi minha língua.

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