5 de junho de 2026

Ernesto Araujo é folclórico e tosco. E também um rascunho de ditador, por Gilberto Maringoni

A intenção do chanceler é criar no Itamaraty uma milícia intelectual ultrarreacionária, sem nenhuma flexibilidade para com um pensamento minimamente divergente

Ernesto Araujo é folclórico e tosco. E também um rascunho de ditador

por Gilberto Maringoni

A notícia que consta no link abaixo é surpreendente sobre o tipo de guerra ideológica empreendida pelo governo Bolsonaro. Ou pelo menos por seus setores mais hidrófobos. Vai um trecho:

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“O embaixador Paulo Roberto de Almeida foi demitido nesta segunda-feira (4) do cargo de diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (Ipri), órgão vinculado ao Ministério das Relações Exteriores. Ele assumiu a direção do instituto em meados de 2016, durante a gestão de Michel Temer (MDB).

A demissão ocorreu após Almeida republicar, em seu blog pessoal, também nesta segunda-feira (4), três textos recentes sobre a crise na Venezuela, um assinado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, outro pelo embaixador e ex-ministro Rubens Ricupero e o terceiro pelo atual ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Araújo, em seu texto, critica as posições de FHC e Ricupero sobre a situação venezuelana, afirmando que os dois “escreviam seus artigos espezinhando aquilo que não conhecem, defendendo suas tradições inúteis de retórica vazia e desídia cúmplice”.”

QUEM É PAULO ROBERTO ALMEIDA?

Trata-se de um diplomata e pesquisador de direita, neoliberal e professor do Instituto Rio Branco, tendo já servido em Washington. Está na carreira desde 1977 e tem vários livros e artigos escritos. É firme opositor da centralidade do Mercosul na política externa e alinha-se, em geral, com as posições do PSDB. Tem como alvos preferenciais a política externa “ativa e altiva” e a esquerda em geral.

Quando Araujo comete essa violência com um representante do neoliberalismo, o sinal é claro. A intenção do chanceler é criar no Itamaraty uma milícia intelectual ultrarreacionária, sem nenhuma flexibilidade para com um pensamento minimamente divergente.

MUITAS VEZES, A CRIAÇÃO DO NÚCLEO DURO de determinada orientação político-intelectual se constitui em tática eficiente numa disputa de hegemonia. Vai aqui um exemplo.

Perry Anderson (em “Balanço do neoliberalismo”, artigo de 1992) investigou a genealogia histórica do pensamento econômica que se tornaria hegemônico no final dos anos 1980. Escreve ele:

“Em 1947, enquanto as bases do Estado de bem-estar na Europa do pós-guerra efetivamente se construíam, não somente na Inglaterra, mas também em outros países, neste momento Friedrich Hayek convocou aqueles que compartilhavam sua orientação ideológica para uma reunião na pequena estação de Mont Pèlerin, na Suíça. Entre os célebres participantes estavam não somente adversários firmes do Estado de bem-estar europeu, mas também inimigos férreos do New Deal norte-americano. Na seleta assistência encontravam-se Milton Friedman, Karl Popper, Lionel Robbins, Ludwig Von Mises, Walter Eupken, Walter Lipman, Michael Polanyi, Salvador de Madariaga, entre outros. Aí se fundou a Sociedade de Mont Pèlerin, uma espécie de franco-maçonaria neoliberal, altamente dedicada e organizada, com reuniões internacionais a cada dois anos. Seu propósito era combater o keynesianismo e o solidarismo reinantes e preparar as bases de um outro tipo de capitalismo, duro e livre de regras para o futuro”.

Anderson explica que tais ideias eram francamente minoritárias num mundo em que se afirmavam o socialismo real e a socialdemocracia europeia. Por vinte anos, Hayek e seus aliados teorizaram e formularam sem concessões, em uma espécie de estufa intelectual protegida do mundo externo. A dinâmica durou até a crise do dólar, no início dos anos 1970, quebrar todos os parâmetros do pós-Guerra. Foi quando o neoliberalismo emergiu como encadeamento intelectual lógico e inflexível. E se impôs.

Ou seja, Hayek criou um núcleo duro para defender ideias neoliberais antes que essas alcançassem poder político.

ARAUJO, EM SUA BIZARRICE, nunca disputou nada, nem ideias e nem diretrizes. Não tem nem de longe a envergadura intelectual de Hayek. Quer impor a partir da caneta, cuja tinta é fornecida por Bolsonaro. A dureza – e a tosquice – de seu – vá lá – pensamento não granjeia muitos adeptos. Ele, ao que parece, não pretende realizar nenhuma disputa política. Com a caneta na mão e montado num governo de tons miliciano-militares pretende impor seu pensamento na base da porrada.

Sua meta é criar bandos de freikorps – desordeiros nazistas dos anos 1920 – intelectuais para redesenhar não apenas o Itamaraty, mas todo o arcabouço da política externa brasileira, montada desde, pelo menos, 1930. Entre suas características arraigadas estão o multilateralismo, a não-ingerência em assuntos internos de outros países e uma política externa voltada para o desenvolvimento, o que implica certa autonomia em relação aos Estados Unidos.

Que em sua cruzada psicótica o terraplanista ataque Celso Amorim e Samuel Pinheiro Guimarães é coisa que está na conta. Investir contra a direita tradicional já revela uma psicopatia política com claras tendências ditatoriais.

Araújo é folclórico. E perigoso.

Gilberto Maringoni

Gilberto Maringoni de Oliveira é um jornalista, cartunista e professor universitário brasileiro. É professor de Relações Internacionais da Universidade Federal do ABC, tendo lecionado também na Faculdade Cásper Líbero e na Universidade Federal de São Paulo.

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6 Comentários
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  1. Lucinei

    5 de março de 2019 9:13 am

    É realmente perigoso, mas nao deixa de ser bem feirmti pra esses neoliberais, pois foram eles que prepararam o terreno pra esses boçais ascenderem ao poder. A propaganda antiestado, antigoverno e antipolitica visando o estado o governo e a olitica para si foi promovida pelos neoliberais; só que o poder caiu no colo do aglomerado de estupidos que se formou invlusive compartilhando a cartilha economica antissocial.

  2. Jorge Luis

    5 de março de 2019 10:00 am

    Quantas vezes nós já vimos esse filme? A direita alimenta os radicais fascistas para que ataquem a esquerda, seguindo o princípio de que “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. Só quando a esquerda é finalmente derrotada é que eles percebem que os extremistas não tem qualquer compromisso com a racionalidade (por isso são extremistas, dããã). Os próximos a serem eliminados são os próprios criadores que alimentaram a criatura até o ponto em que ela sai do controle e não pode mais ser contida.

  3. Omeg

    5 de março de 2019 10:06 am

    Esse ministro parece sempre estar a um passo de dar aquela gargalhada final né!!!!

  4. albagodel

    5 de março de 2019 11:56 am

    E segue o Brasil descendo a ladeira em velocidade supersônica. Economia desabando, perda de exportações, desemprego e isolamento mundial. E a estupidez teimosa governando com o “Brasil colônia acima de tudo”..

    1. ELAINE21

      5 de março de 2019 1:53 pm

      Assino embaixo albagodel e segue o Brasil descendo ladeira

  5. Paulo F.

    6 de março de 2019 9:36 pm

    Primeiro levaram os comunistas,
    Mas não falei, por não ser comunista.

    Depois, perseguiram os judeus,
    Nada disse então, por não ser judeu,

    Em seguida, castigaram os sindicalistas
    Decidi não falar, porque não sou sindicalista.

    Mais tarde, foi a vez dos católicos,
    Também me calei, por ser protestante.

    Então, um dia, vieram buscar-me.
    Nessa altura, já não restava nenhuma voz,
    Que, em meu nome, se fizesse ouvir.

    Martin Niemoller

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