Janio de Freitas: Temer pode ter confessado um crime que ninguém disse que ele cometeu

Foto: Lula Marques/PT

Jornal GGN – Passou despercebido, mas no discurso parte da delação da JBS, Michel Temer deu duas informações importantes: primeiro, justificou o pagamento a Eduardo Cunha como um tipo de ajuda humanitária à família do ex-deputado, ou seja, não negou que parte da conversa com Joesley Batista dizia respeito a repasses a um preso da Lava Jato. Em segundo, e mais curioso, disse: “Não solicitei que isso acontecesse e somente tive conhecimento desse fato nessa conversa pedida pelo empresário”. Temer rebateu um crime (o de solicitar o pagamento) que ninguém disse que ele cometeu, apontou Janio de Freitas, na Folha deste domingo (4).

Para o jornalista, o fato é que tudo indica que os pagamentos mensais a Eduardo Cunha e Lucio Funaro tinham o objetivo de mantê-los longe de tratativas em torno de delações premiada. O discurso de Temer, rebatendo a possibilidade de ter solicitado esse pagamento por Geddel Vieira Lima a Joesley Batista, mostra mais um caminho a ser trilhado pela Lava Jato.

“(…) cabe ao Supremo, à Polícia Federal e à Lava Jato explicar por que Joesley Batista e Michel Temer encontravam-se com igual necessidade [de ficar “de bem” com Cunha]”, disse Janio.

Por Janio de Freitas

Na Folha

Temer contesta o que não foi dito: ninguém lhe atribuiu solicitação

Já que Michel Temer vive dias tão calorosos, sob mais acusações na semana encerrada e julgamento na que começa, vale retomar um tema suplantado, apesar da importância, pela autenticidade ou trucagem da gravação de Joesley Batista nos porões da noite presidencial. A essa dúvida, a perícia da Polícia Federal promete responder. O objeto da recomendação de Temer a Joesley, porém, ficou como questão em aberto.

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O trecho crucial, exposto na íntegra da gravação publicada pela Folha em 22 de maio, é este:

“Joesley: […] Negócio dos vazamentos do telefone lá…do Eduardo, com Geddel, volta e meio citava alguma coisa meio tangenciando a nós, a não sei o quê. Eu tô lá me defendendo. [inaudível] como é que eu…quê que eu mais ou menos dei conta de fazer até agora? Eu tô de bem com Eduardo.

Temer: É, tem que manter isso, viu? [fica inaudível]

Joesley: [inaudível] todo mês.”

As deduções proporcionadas por esse trecho se dividiram. “O Globo” lançou, já na notícia inicial sobre a gravação e transcrevendo o trecho, o entendimento de que Temer se refere aos pagamentos de Joesley a Eduardo Cunha, como compra de silêncio. De outra parte, inclusive na Folha, o trecho foi dado como referência obscura, imprecisa entre incentivo aos pagamentos ou a continuar “de bem”.

Os dois protagonistas também se manifestaram: Joesley, em depoimento a procuradores da Lava Jato, quando falava dos pagamentos a Eduardo Cunha e Lúcio Funaro, e sobre a conversa a respeito com Temer: “Eu ouvi do presidente, claramente, que era importante manter isso”. A afirmação é repetida adiante, duas vezes no mesmo trecho do depoimento.

Temer, um tanto exaltado, na sua primeira contestação em TV: “Repito e ressalto, em nenhum momento autorizei que pagasse a quem quer que seja para ficar em silêncio”. E ainda: “Ouvi realmente o relato de um empresário que, por ter relação com ex-deputado, auxiliava a família do ex-parlamentar. Não solicitei que isso acontecesse e somente tive conhecimento desse fato nessa conversa pedida pelo empresário”.

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Temer contesta o que não foi dito: ninguém lhe atribuiu autorização nem solicitação alguma. E dá aos pagamentos feitos por Joesley uma finalidade que o corruptor não mencionou na conversa gravada. Voltaria à contestação direta, no entanto formal, escrita com jeitão de assessoria.

Fosse um presidente isento de suspeitas e de referências acusadoras, saber se incentivara pagamento ou relação pessoal poderia merecer cautelas contemporizadoras.

Michel Temer é uma pessoa sob investigação da Polícia Federal, pretendendo escapar de um interrogatório decidido pelo Supremo Tribunal Federal, e sujeito a outras possíveis investigações criminais.

Se não pôde ou não quis enfrentar o interrogatório sem antes tentar burlá-lo, sabe-se o que leva a atitudes assim. Daí que a questão em aberto precisa ser reposta, pelo que pode dizer a respeito de um presidente que precisa ou não do silêncio de acusados de gravíssimas ilicitudes.

A percepção do “Globo”, a meu ver, não estava errada. Por isto: Joesley Batista estava “de bem” com Eduardo Cunha em razão de pagamentos (“todo mês”?); logo, manter-se “de bem” era manter os pagamentos.

Portanto, a recomendação de Temer, estivesse dirigida a manter os pagamentos ou a manter-se “de bem”, dizia a mesma coisa, buscando o mesmo fim.

Como os pagamentos e estar “de bem” não tinham outro propósito senão o de comprar o silêncio de Eduardo Cunha (e o de Lúcio Funaro, este ao custo de R$ 400 mil por mês), cabe ao Supremo, à Polícia Federal e à Lava Jato explicar por que Joesley Batista e Michel Temer encontravam-se com igual necessidade. 

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6 comentários

  1. Qual a solução para a crise?

    https://rebeldesilente.wordpress.com/2017/06/04/brasilumpaisporfazer/

     

    Existe solução para o grave momento político em que nos encontramos???

     

    Neste novo texto do Rebelde Silente, o debate se abre, sem pré conceitos e de forma corajosa, para que encontremos uma saída para problemas seculares que temos.

     

    “Um caminho de mil quilômetros começa com o primeiro passo”, que comecemos, então o nosso, pois temos um país por fazer, e que, durante nossa caminhada, não nos transformemos naquilo que eles são.

  2. Quando Temer mentiu: quando afirmou que se equivocou ou…

    Quando o Michel Temer mentiu: quando disse que se encontrou com o Joesley Batista para tratar da Operação Carne Fraca, desencadeada 10 dias antes do encontro dos dois meliantes, ou quando disse que o encontro não foi para tratar da Operação Carne Fraca, tendo dio isso por equívoco?

    A Polícia Federal deve ter informado o Ministro da Justiça sobre  mencionada Operação, o Ministro da Justiça deve ter avisado ao Temer e esse deve ter alertado o Joesley. Informações privilegiadas em função do cargo sendo repassadas em proveito particular.

    Temer: quando você mentiu, seu Crápula?

    Se o T$E não cassar o seu mandato usurpado, nós vamos caçar os Ministros do T$E.

  3. Brasil refém

    Como pode um país como o Brasil ficar refém de um presidente acusado não de uma mais de várias acusações gravíssimas? O mais grave é que seus assessores diretos estão no mesmo barco e dividem com ele os mesmos ilícitos. Como pode um senhor desses governar uma nação num momento tão difícil? Qual a credibilidade que passamos para o resto do mundo? Cabe a quem de direito tomar as providências cabíveis num caso como esse com a máxima urgência possível doa a quem doer, custe o que custar. Chega de conversa mole chega de ficar discutindo se vai haver eleições diretas ou indiretas, isso se discute depois.

    • O pior é ficar refem do

      O pior é ficar refem do Joesley, que hoje pode derrubar qualquer autoridade da Republica sem sair de Nova York, graças ao salvo conduto que lhe foi oferecido pelo Brasil, um tratamento melhor do que foi dado ao Imperador D.Pedro II exilado.

  4. falta transcrever um pequeno pedaço neste trecho
    Falta transcrever um pequeno e interessante pedaço nesse trecho. Temer diz que tem que manter isso, Joesley pergunta “- O…?” é Temer confirma. O trecho fica mais claro assim:  Joesley: […] Negócio dos vazamentos do telefone lá…do Eduardo, com Geddel, volta e meio citava alguma coisa meio tangenciando a nós, a não sei o quê. Eu tô lá me defendendo. [inaudível] como é que eu…quê que eu mais ou menos dei conta de fazer até agora? Eu tô de bem com Eduardo.  Temer: É, tem que manter isso, viu? [fica inaudível]  Joesley: O…?  Temer: É.  Joesley: Hum-hum.  Joesley: [inaudível] todo mês.

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