A era das pílulas: camaradagem entre os fármacos no ser de cada um
por Maria Betânia Silva
A crônica a seguir nasceu de uma circunstância familiar ocorrida há mais ou menos um ano, algo comum que certamente se repete no Brasil e também fora dele. O tom jocoso nela adotado, como vocês verão, talvez possa funcionar como uma estratégia psíquica para trazer a ilusão de não sermos mais capturados pelo que ela retrata.
“É um Natal à luz do dia. Nada de ceia, tudo gira em torno de cuidados básicos de rotina e atenção a uma idosa recém- ‘marcapassada’; olhos abertos e braços em prontidão para ampará- la quando ela se move pela casa, se senta, ou se deita…
Pensei em diversificar as atividades cognitivas que a estimulam, trazendo- lhe um álbum para pintar em aquarela. Ela gostou, fez um pouquinho e voltou ao caça- palavras.
Enquanto ela se diverte com isso, eu pensei em me ‘distrair’, investigando os medicamentos que ela toma há algum tempo.
É de enlouquecer!
Tentei organizar um pouco a agenda da família farmacológica no seio da qual ela vive, mas percebi que é uma família que a arrasta para uma vida funcional mesmo que forçada. Não dá pra inventar um outro tipo de roda. Ela vive na ciranda das bulas.
Faz tempo que antes de uma refeição, após outra, dia sim , dia não ou, todos os dias, a interação com os membros da família farmacológica que a mantém, dá-lhe um respiro para continuar vivendo, mesmo que timidamente; os fármacos, ora se aliam, formando um bloco de substância ativa irrenunciável; ora entram em choque e lhe provocam enjoo existencial.
Nesse ambiente familiar farmacológico, por exemplo, o pai Pantoprazol é casado com uma senhora que carrega o título de Mesilato antes do seu nome, Doxazosina. É uma senhora meio metida por causa desse título que ela comprou da decadente nobreza. Ela se diz parente de uma família francesa importante, dona de uma rede de laboratório mundialmente conhecida, mas que se vulgarizou no meio médico.
As filhas desse casal: Galantamina, Mirtazapina e Pregabalina se estranham a toda hora. As duas últimas são notívagas. A primeira é uma criatura matinal que já acorda querendo ‘forrar’ o estômago da idosa acolhida.
Os irmãos dessas “minas”: Furosemida, um tipo liquefeito e Indapamida, um tipo estourado, não se entendem muito bem. Este último é muito independente, o primeiro é furão. Marca as coisas e fura.
Impressionante, ainda, é a relação dessa família com a vizinha Espironolactona…aff!! Sabe aquele jeito de vizinha fofoqueira?
Quando o primo de Pantoprazol, um cara chamado Candesartana Cilexetila, vem visitá-lo, Espironolactona arregala tanto os olhos, que é capaz deles saltarem pela janela do quarto de onde ela observa o encontro familiar.
Isso pra não falar de quando o namorado de Mirtazapina, o jovem Carvedilol vem tirar um sarro com Mirtazapina no portão da casa. Espironolactona não cabe em si. Às vezes, Caverdilol vem acompanhado de Duspatalin Cloridrato de Mebeverina, um primo dele que é louco pra namorar Galantamina mas que ainda não teve chance.
Duspatalin é filho de dona Sinvastatina e tem dois irmãos: Aspartato de Arginina e Gluconato Férrico, ambos lutadores de MMA!!! Diz- se que às vezes na casa deles a briga é feia e quem contém o conflito é Lorazepam, um amigo da família viciado em vitamina D e A.
Sei não viu? Dá um certo sentimento de Succinato Desvenlafaxina…sabe aquela angústia incontrolável?! E é tanta que o melhor mesmo é pensar que essa gente toda é uma espécie de mistura legal para ocupar o nosso tempo e fazer samba, batucando nas caixinhas onde elas habitam”.
Tom jocoso à parte, os personagens aí são todos remédios que não ocupam necessariamente na narrativa o papel que desempenham no nosso organismo, mas usá- los, não como personagens, e sim como FÁRMACOS que regem a vida de muitos idosos na atualidade, isso suscita uma reflexão tão urgente quanto angustiante sobre o estilo de vida que adotamos, sobre os problemas comuns que enfrentamos ao longo da vida nessa sociedade alucinante, artificializada nas relações e prisioneira do consumo. Um consumo voltado muito mais para aparentar beleza e saúde do que propriamente instaurar no nosso dia- a- dia o que efetiva e naturalmente pode nos levar à beleza de viver e ao bem estar físico e mental.
Deliberadamente, deixei de incluir como personagens da crônica alguns outros FÁRMACOS. Mas os que foram aí citados, com poucas exceções, são conhecidos no mercado por seu nome genérico, a partir do princípio ativo que compõe a fórmula de produção deles que lhes dá esses nomes estrambóticos.
Há idosos que fazem uso de todos eles, cada um ingerido no horário prescrito. Às vezes eles são prescritos como tentativa de promover uma compensação dos déficits do funcionamento orgânico dos idosos e assim amenizar os variados problemas de saúde que enfrentam; outras vezes, esses medicamentos são substituídos quando observada uma interação nociva ou ineficaz.
Enfim, são muitos idosos que assim vivem nesse imenso Brasil. Dentre eles há os que têm família para correr atrás de médicos e de fármacos, bancando o custo dessa “terapia medicamentosa” do próprio bolso; há os que buscam os programas da farmácia popular a partir dos quais encontram os fármacos por preço significativamente reduzido. Ou, ainda, há aqueles que se encontram em uma situação que só acessam os fármacos de forma limitada num programa de distribuição realizado pelo governo.
Este é o panorama da vida de muitos idosos no país: uma vida que se prolonga mas cuja existência se limita ao abrigo da casa assim como a saúde, à ingestão das pílulas. Elas fazem um “bem” danado pra muitos deles, segundo dizem os médicos mas, na realidade, resultam de um grande mal estar do processo de vida que lhes trouxe até aí, e não exatamente e/ou exclusivamente por circunstâncias da vida individual que tiveram. Esse “bem-estar” medicamentoso decorre das interações que tiveram com esse tempo que lhes demarca a idade. Um tempo de 80 ou 90 anos atrás.
Ao longo de um pouco menos de um século parece que a indústria dos fármacos cumpriu a promessa de fazer as pessoas viverem mais. Supimpa! As pessoas envelhecem supostamente com mais qualidade de vida, é uma afirmação corrente.
Será mesmo?
Para os problemas ordinários de desgaste do organismo tem sempre um fármaco eficiente e depois dos genéricos, então , são eficientes e bem mais baratos. Controla- se diabetes, hipertensão, ansiedade, depressão, problemas intestinais, cardíacos, circulatórios, renais, de colesterol etc…e parece que está tudo certo!
Não, não está!
Os problemas controlados por esses fármacos não necessariamente chegaram por acaso na vida dessas pessoas que hoje dependem deles. Esses problemas são prova de um estilo de vida característico de uma sociedade moldada à pressa, submetida a mudanças bruscas, regida pela compulsão do novo e edulcorada. Uma sociedade que nos envolveu na cápsula do individualismo onisciente e onipotente, tornando alguns de nós mais longevos certamente, e não necessariamente, felizes.
Essa longevidade, aliás , é objeto de negociação ou escolha no balcão das farmácias. Desde a introdução dos genéricos no Brasil que impôs a quebra das patentes de muitos desses medicamentos, o preço deles foi reduzido. Comparado ao que era antes, sim, pode- se afirmar que eles se tornaram acessíveis! Porém, o que se observa como efeito colateral (pra usar uma linguagem médica) é que esses fármacos todos são produto de concorrência no mercado e de disputa de um público consumidor. A saúde é produto posto à venda!
Quem vai a uma farmácia com frequência sabe bem o tempo que às vezes se passa no balcão com o atendente. É quase uma praxe de venda gentil o atendente pesquisar no sistema de informática da farmácia, os três ou quatro laboratórios fabricantes de um fármaco, e apresentar aquele de melhor preço para o fármaco prescrito pelo médico. Os preços variam assim como a quantidade de pílulas contidas na embalagem de cada um deles. De igual modo, também varia a dosagem que deve ser rigorosamente coincidente com aquela que está na prescrição, lógico! Tudo já foi bem estudado! E quando o cliente- consumidor eventualmente hesita em escolher o genérico do seu bem- estar, não raro, pode contar com o esclarecimento sugestivo do atendente: “ se você levar três caixas, hoje, paga duas”. É a tão esperada e sedutora promoção para controle da pressão arterial, da diabetes, do colesterol, da ansiedade, da depressão. É um mundo mágico!
Ao final da compra, o consumidor é convidado a fazer a avaliação pelo atendimento recebido. Talvez já aí a pressão arterial comece a oscilar.
Tudo isso é consequência de um processo de vida que vai além do indivíduo; a pílula se tornou ‘solução’! Afinal, a causa para esse estado de dependência farmacológica tem quase 80 anos que se estabeleceu e pouco mais de vinte que se expandiu.
Assim, basta um gole d’ água e uma pílula e a gente engole a nossa própria Era, na qual deixamos de ser.
Este texto não representa necessariamente a opinião do Coletivo Transforma MP.
Maria Betânia Silva – Membra Coletivo Transforma- MP
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Maristela Simonin
18 de novembro de 2025 4:51 pmSimplesmente excelente esse artigo de Maria Betânia! É tudo verdade!