10 de junho de 2026

A doutora e a senhora de cabelos de ipê, por Cristiane Hillal

Falava o que ninguém entendia. E chorava. Alzheimer: era a senha, a absolvição, o salvo conduto para eu sair dali. Mas ela segurava, chorava.
Arte na Rua

A doutora e a senhora de cabelos de ipê

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por Cristiane Corrêa de Souza Hillal

“Sou um homem dissolvido na natureza.
Estou florescendo em todos os ipês.
Estou bêbado de cores de ipê, estou alcançando
a mais alta copa do mais alto ipê do Corcovado.
Não me façam voltar ao chão,
não me chamem, não me telefonem, não me deem
dinheiro,
quero viver em bráctea, racemo, panícula, umbela.
Este é tempo de ipê. Tempo de glória”.
Carlos Drummond de Andrade

Ela me segurou forte em suas mãos. Não soltava. Eu não entendia o que ela falava e mesmo assim ela falava. E chorava. Segurava, falava e chorava. Ela tem Alzheimer, eu ouvia, como se essa fosse uma espécie de senha para que eu me soltasse dela e seguisse fazendo o que estava ali para fazer. Mas o que era mesmo que eu fazia ali?  Ela falava, segurava, chorava. Ela tem Alzhemeir. Ela segurava. Ela falava. Ela chorava. Ela tem Alzheimer, repetiam, inconformados que eu ainda estivesse ali, sob o jugo da senhora que segurava. E falava o que ninguém entendia. E chorava. Alzheimer: era a senha, a absolvição, o salvo conduto para eu sair dali. Mas ela segurava, chorava. Ela falava.

Eu ficava.

A primavera chegou trazendo sua neve de ipês e o cronograma de visitas em entidades de acolhimento de pessoas idosas que eu, sem ter sido obrigada por ninguém, me dispus a fazer.

165 entidades de acolhimento de pessoas idosas na cidade de Campinas para visitar em um ano. 

Drummond falou de um tempo, um tempo de ipês, e desejou florescer em todos eles, se embriagando das cores dos ipês até viver em bráctea, racemo, panícula e umbela. 

Eu pensava nos ipês brancos da esquina da minha casa e do desejo que senti de me aterrar naquele chão coberto pelo arrebatamento das flores brancas que duraram 7 intensos dias e se despediram de seus galhos, assim, de uma vez só, chovendo, ventando, cobrindo o meu mundo do branco que eu nem sabia que existia.

Ontem, o azul. Agora, aquela imensa página em branco. Será que para todo mundo era assim tão impossível se despedir?

Continuava ali, com o cronograma das visitas que eu assumi sobre os ombros. Agarrada com a senhora que segurava. E falava. E chorava. O cheiro de urina e sopa de feijão da sala me convocava para dar algum mísero sentido à minha presença naquela casa. Olhei ao redor: 13 senhoras de cabelos de flor de ipê me olhavam em silêncio.

Todas as perdas são impossíveis, mesmo, ou só as minhas?

Sete das nove experiências consideradas pela Organização Mundial de Saúde (OMS) mais prejudiciais à saúde mental envolvem perdas: de parentes próximos, do trabalho, separação dos pais para as crianças, a separação do casal, a perda da saúde com adoecimento grave, mudanças de cidade ou país, passagens da infância para adolescência, passagem para a idade adulta ou o envelhecimento.

A esta lista o psicanalista Christian Dunker acrescenta a violação dos direitos humanos, a exclusão e a estigmatização. Para ele, essas perdas, que ele chamou de uma certa “pertinência à comunidade humana”, podem gerar lutos que seriam infinitos.

Haveria, então, uma distinção entre lutos finitos e infinitos. Os lutos infinitos não seriam só sintomas patológicos, de pessoas com tendências depressivas ou melancólicas, mas seriam, também, os que, por motivos políticos, históricos ou estruturais não acabam. Se todos os lutos, para acabarem, pedem uma transformação para ajeitar a perda na gente, ou a gente na perda, os lutos infinitos podem carregar, neles, uma demanda de transformação social, e não apenas subjetiva. Há lutos que são infinitos porque demandam uma nova forma coletiva de se relacionar, criar laços, ser e estar no mundo, no seu tempo e espaço.

E Dunker dá exemplos: “podemos olhar a formação do Brasil a partir de uma população de enlutados. Milhões de mortos nas travessias, nos apresamentos, nas caravanas, nas epidemias, nas expedições guerreiras, nos cativeiros indígenas e negros, nas epidemias catequistas”, aponta.

– Doutora, ela não entende nada! Senha alterada com sucesso. Precisavam ser mais explícitos. Era constrangedor, afinal, que a senhora demenciada segurasse a Promotora de Justiça por tanto tempo em suas mãos, naquela sala de urina e feijão.

– Olha, Doutora, aquela dançando com os braços é a Dona Lira. Foi trapezista. Sua casa era o circo.

Quantas perdas infinitas suportamos ter?

– Doutora, aquela que só dorme é Dona Severina. 107 anos. Ela foi babá de um ex-governador de Estado. Trabalhou para a família dele desde criança. Não visitam, mas mandam um funcionário, de 6 em 6 meses, para checar se ela ainda está viva.

Como podemos parar de perder o que nunca tivemos?

– A Leontina, Doutora? Chegou antes de ontem. Por isso parece tão agitada. O marido que trouxe com o filho: 70 anos juntos.

Quando é que o perdido fica tão grande que vira perdão?

Tento anotar tudo na prancheta que levei. Mas como segurar a prancheta e, ao mesmo tempo, a mão da senhora que segurava? Desisto. Da prancheta. Não há mesmo espaço nos relatórios para informações sobre as senhoras de cabelos de ipês que fazem piruetas no ar, ou que se recusam a morrer, em silenciosa e elegante revolução.

Falta espaço nos relatórios e no mundo que inventamos. À coleção de lutos finitos das senhoras de cabelos de ipê, somava-se o luto infinito de perceber que criamos um mundo sem “pertinência à comunidade humana” para os corpos de pessoas idosas. Na gramática econômica e política que pactuamos, em que o valor de uma vida humana está na capacidade de trabalho de um corpo dito funcional e produtivo, Liras, Severinas, Leontinas e senhoras que seguravam Promotoras de Justiça se destinam a esperar a morte em salas fechadas com cheiro de urina e sopa de feijão. 

Mas por que, afinal, ela me segurava? E tanto chorava e falava? Será que a senhora que segurava sabia que caminhos poderíamos seguir para imaginar mundos com mais gente vivendo em tempo de ipê? Ela, com seus cabelos de flor que estão prestes a voar dos galhos, sabia como fazer para um luto deixar de ser infinito? Saberia, ela a diferença entre contingências e possibilidades? A senhora que tanto segurava, e falava e chorava, sabia morrer para renascer? E se despedir, ela sabia?

Pensei em Drummond e no chão branco coberto de flor de ipê da minha esquina. Pensei que se todas as gentes, novas e velhas, perdidas e perdoadas, deitarem sobre as flores que se perderam dos galhos e olharem para cima, verão que há azul no contorno dos galhos nus. 

Fez-se silêncio na sala florida. A senhora não falava, não chorava, não segurava.

Foi aí que percebi que, em todo o tempo que estive ali, quem segurava ela, era eu.

Este artigo não representa necessariamente a opinião do Coletivo Transforma MP.

Cristiane Corrêa de Souza Hillal – Promotora de Justiça do MPSP e integrante do Coletivo Transforma MP

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