10 de junho de 2026

A Primavera de Marielle, por Thiago Gama

Veio o 14 de março de 2018. Minha esposa me deu a notícia. Um silêncio gélido tomou conta de mim. As mãos congelaram. O chão sumiu.
Marielle Franco por Nunah Alle - Mídia Ninja - Flickr

A Primavera de Marielle

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por Thiago Gama

A primavera desabrocha no Hemisfério Sul, tingindo o céu de um azul mais esperançoso nesta quadra da História do Brasil, em que a esquerda voltou às ruas. Há sóis que, mesmo eclipsados pela violência inaudita, teimam em brilhar com mais força na memória. Lembrar de Marielle Franco é um desses imperativos da alma. Ela se tornou o ícone forjado pela dor de uma luta que poucos ousariam travar. Seu nome agora batiza ruas, seu rosto, esculturas, até fora do país.

Entretanto, os monumentos de concreto e bronze podem ofuscar a vibração da vida que lhes deu origem – a Marielle de carne, osso e suor. Poucos conheceram a Mari quando ainda dava seus primeiros passos na Universidade. E é à mulher de riso fácil que se sentava atrás na sala de aula que estas palavras se dedicam.

Era o segundo semestre de 2002. Eu, um jovem de 21 anos, um peixe fora d’água. Vindo de São Gonçalo – “você sabe como é” – para aquele universo elitizado da PUC-Rio, minhas leituras eram precárias. No curso de Ciências Sociais, entre a jaula de ferro de Weber e os fatos sociais de Durkheim, eu me encolhia nos fundos da sala. A insegurança era um cinto dolorido. A resposta de alguns colegas às minhas dúvidas vinha com um sorriso de condescendência: “Você faz muitas perguntas, atrapalha a aula.”

Num dia qualquer, virei para a colega que sempre se sentava à minha esquerda. “Marielle,” perguntei, a voz quase sumida, “você acha que eu faço perguntas demais?” Seu olhar foi um porto seguro. “Não acho. É o seu jeito de aprender.”

Aquela frase foi uma chave. Abriu uma fresta por onde eu pude contar das minhas três horas de viagem, da sensação de não pertencimento. E ela, por sua vez, falou da Maré, da pequena Luyara, da irmã Anielle. Contei-lhe meu desejo de ser padre. E foi nesse frágil terreno da confidência que nossas histórias se entrelaçaram por meio de um anjo da guarda terreno: o Professor Augusto Sampaio.

Certa tarde, Marielle confessou a angústia silenciosa que carregava: a bolsa integral existia, mas o dinheiro para o transporte e o bandejão simplesmente não. A universidade ainda era uma fortaleza inalcançável. Naquele instante, uma semente de coragem brotou da nossa conversa. Decidi, sem que ela soubesse, cruzar o campus até o prédio da Vice-Reitoria Comunitária.

Esperei por horas. Quando o Professor Augusto finalmente apareceu, sua frase ecoou como um evangelho: “Thiago, qual o problema? Aqui quem entra com problema sai com solução.” As lágrimas chegaram antes das palavras. Em sua sala, expus a situação com a humildade que era meu único patrimônio. “Há uma pessoa que precisa do senhor. O nome dela é Marielle…”

Não precisei mendigar. Ele pegou o telefone, marcou uma reunião urgente e disse, com um sorriso que era um raio de sol: “Esta Vice-Reitoria é a mais pobre da PUC, mas é a de maior coração.” Ele sempre repetiu essa frase para mim. Sempre.

Na semana seguinte, a vida de Marielle na Universidade foi transformada. Aqueles vales-transportes de papel dos idos de 2002 não eram apenas papel; eram passaportes para a permanência. Dias depois, na sala de aula, ela me envolveu em um abraço e estampou um beijo sonoro em meu rosto. Sorri atrapalhado, mas meu coração já sabia: aquele gesto havia plantado em mim uma autoconfiança que me permitiria navegar naquele mundo que não era o meu.

Anos se passaram. Em 2006, eu retornava à PUC, finalmente para cursar História. E quem foi a primeira pessoa que avistei no Pilotis, rodeada por uma aura de alegria? Marielle. Antes que eu pudesse articular uma palavra, ela correu em minha direção e me envolveu em um abraço de urso. Nenhuma menção aos vales-transportes, nenhuma referência ao Professor Augusto. Aquele abraço era a linguagem pura do reconhecimento. Eram os “detalhes tão pequenos de nós dois” de que fala a canção do Roberto Carlos.

Quase uma década depois, já casado, liguei a TV e a vi. Vereadora. Meu espanto não era pela sua capacidade, sempre evidente, mas pela coragem feroz. Nas condições mais adversas, ela florescia. Era a “Vocação para a Política” de Weber, encarnada.

Então, veio o 14 de março de 2018. Minha esposa me deu a notícia. Um silêncio gélido tomou conta de mim. As mãos congelaram. O chão sumiu. E na mente ecoou a melodia de Elton John: “E agora que ela se foi… É engraçado como um inseto consegue destruir uma semente.”

Bastava trocar “ele” por “ela”.

Os insetos, Ronnie Lessa e Élcio Queiroz, destruíram a semente. Os treze tiros calaram não só Marielle, mas também o motorista Anderson Gomes. Roubaram de Luyara a formatura ao lado da mãe.

A sociedade civil não permitiu que o caso virasse pó. E nós conseguimos.

Agora, a primavera volta a colorir o Brasil. O Professor Augusto repousa entre os heróis anônimos. E este que vos escreve caminha, com a memória aquecida por uma certeza: Marielle está viva. Ela é a primavera de 2002 da minha vida, uma estação de flores que jamais finda.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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