1 de novembro de 2026

A raposa da responsabilidade fiscal, por Henrique Morrone

Uma alegoria sobre austeridade fiscal e responsabilidade na mesma toada.
Reprodução

O caçador Fiscal corta gastos em escolas, hospitais e obras para conter a dívida pública, que segue crescendo.
A raposa Juros, no topo da dívida, se alimenta dos juros, aumentando o débito e exigindo maiores recompensas.
Cortes profundos empobrecem a floresta, mas não param o crescimento da dívida nem o aumento da raposa Juros.

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A raposa da responsabilidade fiscal, por Henrique Morrone

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Era uma vez um caçador. Chamava-se Austeridade, vulgo Fiscal.

Defendia o equilíbrio com uma devoção que flertava com o desequilíbrio.
Sua pontaria era certeira, sobretudo quando o alvo era uma escola, um
hospital ou alguma obra pública ainda não concluída.

Certa manhã, encontrou uma figueira imponente no meio da floresta. Seu
tronco era espesso, as raízes se espalhavam pelo chão e a copa crescia a
cada estação.

Era a árvore da dívida pública.

Fiscal ficou indignado.

— Uma figueira desse tamanho! Alguém deve estar gastando demais!

Sacou a espingarda.

Avistou uma escola. Bang!

Encontrou um hospital. Bang! Bang!

Percebeu uma obra de infraestrutura. Recarregou e não hesitou.

A árvore continuou crescendo.

O caçador consultou seu manual embolorado. Munido de uma teoria
infalível, concluiu que a floresta havia sido relativamente poupada.

Preparava uma nova rajada quando ouviu uma gargalhada vinda do alto.

Na copa estava uma raposa, lustrosa e visivelmente empanturrada.

Chamava-se Juros.

— O que faz aí em cima? — perguntou Fiscal.

— Meu trabalho.

— E qual seria?

— Alimentar-me dos frutos da dívida.

— Mas estou tentando comprimir a dívida!

— Hum. Sua pontaria é notável. Felizmente, é apenas uma poda que nunca
alcança o topo.

Fiscal ruminou em silêncio aquela verdade indigesta.

— Minha missão é controlar o que o governo gasta.

— Inclusive comigo? — perguntou a raposa.

— Não seja inconveniente. Estou falando das despesas que podemos
discutir.

— E o resultado nominal?

— Minha preocupação é o primário. Todo o resto é secundário.

— Mas o nominal inclui os juros.

Fiscal espiou seu manual.

— Você é uma variável técnica. Não pode ser confundida com as despesas
do governo.

A raposa suspirou, aliviada.

— Por um instante, pensei que também custasse dinheiro.

O caçador explicou que a floresta precisava recuperar a confiança.

A raposa, que até então parecia sonolenta, ergueu as orelhas.

— Confiança? Nesse caso, preciso receber mais.

— Mais? Mas você já está bastante gorda!

— Quanto maior a dívida, maior o risco. E quanto maior o risco, maior
deve ser minha recompensa.

— Mas sua recompensa também aumenta a dívida!

— Exatamente. É por isso que precisamos cortar os de baixo.

Fiscal ficou maravilhado. A explicação não levava a lugar algum, mas
chegava lá com extraordinário rigor técnico.

Nos dias seguintes, intensificou a caça.

A escola perdeu professores. O hospital fechou uma ala. A ponte pereceu,
inacabada.

A floresta empobreceu.

A árvore continuou crescendo.

Fiscal comemorou. Se a dívida crescia apesar dos cortes, imagine o
tamanho que teria alcançado sem eles.

A hipótese era impossível de verificar. Justamente por isso, era bela.

A raposa, confortavelmente instalada na copa, elogiou sua determinação.

— Admirável! Poucas criaturas caçam com tamanho fervor animais
indefesos.

Fiscal enrubesceu. Considerou aquilo um reconhecimento dos mercados.

Foi então que uma criança que observava a cena indagou:

— Mas raposas sobem em árvores?

Fiscal esbravejou.

— Não venha questionar os pressupostos do modelo!

A criança olhou novamente para cima.

— E por que o senhor atira nos animais que vivem embaixo?

— Porque representam despesas. A raposa representa a estabilidade.

— Então o senhor não está caçando a raposa. Está protegendo-a.

Fiscal considerou a afirmação irresponsável. Acusou o pequeno de
desconhecer os fundamentos da macroeconomia moderna e encerrou a
discussão.

Na manhã seguinte, publicou um relatório alardeando avanços
extraordinários na responsabilidade fiscal.

A árvore crescera um pouco mais.

A raposa estava mais gorda.

E a floresta, consideravelmente mais pobre.

Henrique Morrone é professor associado da UFRGS e pesquisador do CNPQ.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Henrique Morrone

Henrique Morrone é economista e professor da UFRGS, com atuação dedicada aos temas de macroeconomia, crescimento econômico, desenvolvimento e conflito distributivo no Brasil. Escreve sobre juros, indústria, dominância fiscal e monetária, política econômica e as narrativas que moldam — e por vezes distorcem — o debate público nacional. Publicou no Sul21, GGN, Jornal da UFRGS, Agência TSS, A Terra é Redonda, Revista Economistas (Cofecon) e Rede Estação Democracia (RED), entre outros veículos.

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