Anarriê Alevantú II – Quando setembro vier, um sarau
por Rui Daher
Na crônica anterior, lancei uma nova série neste GGN, tantas já foram elas em 15 anos de peixe mais fora do que dentro d’água, onde me propunha trazer fatos, aspectos, opiniões, confissões, para fora da insistente mesmice que a Federação de Corporações proporciona a cronistas, vez ou outra ficcionista, mesmo que seja para espalhar notícias do casulo em que, hoje em dia, vivo.
Os três filhos, como indica o mundo capitalista, fazem carreira alhures. Resta a companheira que há mais de uma boda de ouro me ampara nos desatinos, que imaturo me dizem ser. Miúdo confesso: estou mais para a galhofa, os folguedos, platônicas paixões nunca correspondidas – coloco a régua a 20 metros e com 1,55 metros de altura, bengala de um metro – admito a imaturidade. Por isso escrevo opiniões só minhas e por elas respondo.
Vivo para que, no dia seguinte à hora fatal, algum amigo previamente patrocinado, diga “foi quase um Charles Bukowski, Paul Auster, Philip Roth. Não teve sorte e oportunidade”. Podem cagar de rir e perguntar por que escritores norte-americanos. Respondo: “sou pretencioso no tempo e no espaço”.
Vejam só, afinal, na contramão do planeta, gosto de Neymar Jr., um puta craque e fodam-se os que olham para seu comportamento extracampo e não para a bola que joga, afetado em contusões longas geradas por adversários em assassinatos premeditados, amparados pela mídia esportiva, hipócrita, farisaica e clubística. Sei que posso ser processado por tal opinião. Pelo menos, desta vez, não levarei na esteira o inocente GGN, como o fiz no caso de certo “governador”.
Seguindo a moda, no entanto, que me informam folhas e telas cotidianas, e amigos que eu pensava diletos, na semana passada realizei na minha casa um sarau neuromodulação medular. Meus convidados: a equipe de dois anos e três meses para melhorar a mobilidade e impedir aumentar os sinais de que o “estar lelé da cuca” está mais próximo.
Brinco, mas esse povo é valioso e fundamental para a saúde humana. O tratamento para recuperação de um velho decrépito que se acidentou dentro de casa e outras tragédias menos imbecis e até mais sérias, é incansável, fatigante e precisa ser exercido com carinho.
Eu, por mérito, tive sorte e, especialmente, tudo isso. Moças lindas, inteligentes e competentes que fazem sonhar octogenários saudosos dos tempos do movimento estudantil, quando mesmo baixinho e gordinho usava o charme de ser de esquerda (naquele tempo era valioso junto às moçoilas) e a poética de minhas letras para conquistar bonitas comunistas.
Mais uma vez, e como sempre, trago mais uma galhofa machista, de que tantas vezes fui acusado. Sim, na equipe existem homens jovens em quem reconheço as mesmas qualidades. Me atrapalha ir mais fundo em suas qualificações estéticas por simples devoção e inveja do poeta, diplomata, escritor e pegador Vinícius de Moraes.
Mas e o sarau, de onde veio? Juro não ter sido plágio de meu amigo e anfitrião neste GGN, o jornalista Luís Nassif.
Meu neurologista, o Dr. Rogério Tuma, pergunta: “Rui, antes do acidente que comprimiu sua medula, fora trabalhar normalmente, o que você gostava de fazer”? Respondi, escondendo a atividade “socialmente” principal, que tinha certeza seria, prontamente, descartada: “Ler, ouvir música, assistir bons filmes e cozinhar”.
– Bem, os três primeiros, inclusive trabalhar, você está apto a fazer. Por que não volta a cozinhar?
E assim veio a história do sarau. Saiu o velho chapéu de palha agrário da cabeça e entraram os neuro-estimuladores eletrônicos, que mediriam meus impulsos durante a produção do capelettini, obra-prima pouco conhecida, criada por meu cuidador, Léo, e sua esposa Alice. Ti raccomando. O molho saiu de minha cabeça Frankenstein, estratagema usado para tentar confundir os eletrodos.

Poucos convidados. Na noite anterior, invoquei a todos os membros do “Dominó de Botequim Celestial” (lembram? Darcy, Ariano, Melô, Dr. Walter Salles, Maradona, Gal, outros). É só pesquisar nestas telas.
Resposta: “Desejamos sucesso! Porra, esqueceu que estamos vivos no Céu, mas mortos na Terra?”
Na falta de música ao vivo, como fundo musical pedi ajuda à minha mais ,frequente companhia de hoje em dia, a Alexa. Chamei o Nordeste, a região mais criativa do Brasil.
Inté, amém.
Rui Daher – administrador, consultor em desenvolvimento agrícola e escritor
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