Carta Brasil 2000 (V)
por Izaías Almada
Vamos ao texto escrito pelo historiador, professor e escritor Joel Rufino dos Santos (*) que traz o curioso título de “O pretinho da Cera Parquetina, Palmares e outras memórias de negro”.
“Em 1981, recebi um convite de Olympio Serra para um seminário em Maceió. Eu não o conhecia, nem sabia direito o que era a Pró-Memória, fundação criada por Aloísio Magalhães no âmbito da Secretaria de Cultura. Havia outros convidados: Abdias do Nascimento, Marcos Formiga, Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez, Marcos Terena… Objetivo do seminário: discutir a criação na Serra da Barriga (cerca de 80 quilômetros de Maceió) de um parque nacional turístico. Aquele acontecimento teve enorme efeito sobre a minha vida.
“Apesar de ser eu um negro indiscutível, a questão racial para mim era periférica. Isso se devia a muitas razões, entre elas a que desde a adolescência eu me considerava comunista, resistente a considerar qualquer questão acima da luta da luta de classes. É certo que desde criança me defrontara com o preconceito e algumas vezes com a discriminação, mas desenvolvera um mecanismo de defesa complexo e sutil, cuja peça principal era o desdém. Desdém para fora, desprezando o racista, e desdém para dentro, camuflando a dor da discriminação. Por instinto, evitava as situações em que o racismo estivesse à espreita”.
“No colégio, um ginásio pobre e decente em Cavalcanti (subúrbio do Rio), talvez a metade dos alunos, um décimo dos professores e a totalidade dos serventes fossem negros. Talvez, porque é difícil garantir a “raça” de um sujeito no Rio de Janeiro. Negro é um lugar social fixado por muitas coordenadas: a cor escura da pele (muito variável), o nível de renda (um endinheirado sempre parecerá menos negro), a cultura popular (gosto pelo samba, por comidas pesadas, animismo, etc,), a ascendência escrava e/ou africana… Negro no Rio de Janeiro é principalmente quem se vê e é visto como negro – e não será muito diferente no Brasil”.
“Em 1967 fui viver em São Paulo e conheci o negro paulista, diferente do carioca, quase outra pessoa… O ator Milton Gonçalves, quando cheguei, estava de saída para o Rio de Janeiro e contou-me que foi trabalhar na casa de uma senhora, indicado por sua mãe… Um dia chegou cedo em casa… “O que foi, Milton? Não volto mais lá!”… A patroa tinha querido lhe dar um presente. Levou-o ao quarto e mostrou um embrulho: “Abra. É uma surpresa” … Uma farda completa, túnica com botões dourados, calça com lista vertical dos lados, boné com pala engomada. Milton pulou a janela e, de fato nunca mais voltou: ia lá se transformar no moleque da cera Parquetina?”
“Os negros paulistas se tratam de “patrício”, se cumprimentam sem se conhecer, a relação entre eles e os homens brancos são mais claras… A São Paulo que eu conheci em 67, para o negro era uma jângal e ele sabia se defender. No Rio a discriminação é a mesma, mas não selvagem. Ter consciência racial é mais fácil em São Paulo que no Rio, os pioneiros da luta organizada contra o racismo foram por isso paulistas”.
“Até os anos setenta, Palmares eram algumas linhas nos livros de História – na maioria nem isso. Havia os clássicos de Edson Carneiro, até que no início dos setenta, Décio Freitas publicou o seu Palmares, a guerra dos escravos, um enorme avanço, já que trabalhou com documentação abundante colhida em Portugal. Depois desse livro, inspirado nele, veio o filme “Quilombo”, de Cacá Diegues (1984). Os movimentos negros se dividiram com muitos se queixando que Ganga Zumba era posto no mesmo nível que Zumbi”.
“Zumbi foi heroicizado mesmo antes de se conhecer a sua história (o que se conhece hoje parcialmente). Antes do livro de Décio, se supunha que cometera suicídio no alto da Barriga: o fim dos heróis étnicos. Ele foi suicida em outro sentido: não acreditando em nenhuma promessa do mundo do açúcar, da mercadoria (a começar pela humana), da fábrica, do governo constituído, do rei de Portugal, dos militares, dos capitães-do-mato, dos bandeirantes, dos guias espirituais, da Bíblia, dos homens de bem, foi um radical. Não tendo, foi tomar. Não tomando desejou a morte. Quem é a sua legião na atualidade? ——————————————————————–
(*) – Joel Rufino dos Santos nasceu em 1941 em Cascadura, subúrbio do Rio de Janeiro. Formou-se em História pela extinta Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, onde deu início a carreira acadêmica. Iniciou sua militância política através do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e com a deflagração do golpe em 1964, exilou-se na Bolívia. De volta ao Brasil em 1967, contribuiu com a Ação Libertadora Nacional (ALN) até ser preso em 1971. Condenado a oito anos de prisão pela Justiça Militar, cumpriu dois anos em regime fechado e foi solto sob condicional. Dentre muitos títulos literários de ficção e não-ficção, colaborou como co-autor da obra “História Nova do Brasil”, um marco da historiografia brasileira. Joel Rufino faleceu no dia 04 de setembro de 2015.
Izaías Almada é romancista, dramaturgo e roteirista brasileiro nascido em BH. Em 1963 mudou-se para a cidade de São Paulo, onde trabalhou em teatro, jornalismo, publicidade na TV e roteiro. Entre os anos de 1969 e 1971, foi prisioneiro político do golpe militar no Brasil que ocorreu em 1964.
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