Carta para meu Pai, por Mariana Nassif

Quase perdi o pai que me é de escolha e que me escolhe mesmo frente aos mais terrenos dos erros, amor vital de quem sou.

Na semana que passou, fez um ano daquela mensagem: “oi, filhota, tô no hospital provavelmente com Covid”, e eu pensando que deveria ser qualquer outra coisa – há um ano não havia vacina pra essa doença de simples cuidados mas com apetite voraz. Não era qualquer outra coisa e seu quadro evoluiu rapidamente para a intubação e, em dois dias, o seu offline começou a ecoar também em mim. Acendi fogueira sem fim, que só apagava quando a chuva caía e se misturava às lágrimas de saudade – e também de medo de você sumir em definitivo, confesso que a pergunta que ecoava era parecida com “quem eu sou sem essa pessoa?”. Rezei pra todas elas, pra todos eles e pra quem mais aparecesse: não era possível viver sem você, meu Pai, este com maiúscula que mesmo ainda pequena, escolhi pra ser filha. Meu pai de santo e de tudo o que isso significa, ainda que precise resignificar para seguir.

A pergunta latejando “quem eu sou sem nossa prosa, as respostas ácidas e meu pai, esse amor que me ama do jeito que sou… mas quem sou sem ele?”. E desde então mergulhei profundo em investigar.


Me deparei com uma mulher com medos de menina, daquelas que fazem de tudo pra não ficar sozinha, inclusive e especialmente não ser eu mesma, por medo do mal que, hoje percebo, eram aquelas mesmas presenças e o que eu precisava fazer pra estar ali o próprio desgaste em si, em mim. Dei de cara com alguém que se conhecia bem demais senão pela lente alheia, ainda que num esforço contínuo pra se encontrar – procurando no conforto de ser aceita, de um jeito ou de outro, massinhas pra tapar os buracos do desconforto de não ser eu. Estava com medo da tua morte, enquanto eu própria vinha desperdiçando vida nessa esquisita relação eu-outro e então notei que mesmo fora do ar, eu te respiro. Não eram as inquietações apenas sobre mim, mas um olhar de desprezo pessoal por não ter conseguido te alcançar em independências identitárias, de movimentos fortes e potentes por si mesmo, de transformações que acompanho há anos e que são inspiração e vocação da vida tua, que faz na gente também vida brotar.

Boas respostas para melhores questões

Quanta admiração encontrei no nosso desencontro, e também quantos papéis confusos estava interpretando em respeito ao que achava que queria de mim e aquilo que eu poderia trocar. Sua ausência provocou o terremoto que me fez cair profundo e, mais uma vez, chorei com medo de não te ter de volta e te contar que, de novo e como sempre, a reunião de tu e eu já estava a me salvar. Conheci a co-dependência e comecei estudando, levei pra terapia o que li e dialoguei sobre como o fantasma do abandono permeia esse ser eu desde muito cedo e tenho batalhado duro pra enxarcar com o barro de Nanã os tijolos que construirão meu lar – renovada, renascida da tua quase morte, ser eu e eu mesma as respostas experimentar.

Daquilo que desagrada, ainda sou também meus medos de estar na rua, no terreiro, com gente, essa coisa que amo/odeio e que é provável que essa mania de me colocar no centro de tudo. Até da história que escrevo sobre o que foi aquele momento tão teu, quem sabe faça parte de uma ponte entre me olhar e me saber com certa sustância. O jeito que encontrei disso acontecer direito foi o de tomar distância. Na solidão que aprendi a curtir, nas respostas que entendo escutar, nas melhores perguntas que hoje formulo e no caminho onde boto energia pro sustento finalmente chegar – tem você em tudo o que é vida em mim, e ao invés de corresponder expectativas, optei pelos percalços do caminho com teus exemplos, Oxalá queira, honrar.

❤️

Hoje em dia

Amo você todo dia, sem faltar um ❤️ e que bom, que bom, viva a magia: você voltou!

Neste mesmo momento, você lança livro pra contar pro mundo como foi a experiência e o que vem vindo a seguir, só posso compartilhar aqui e ressaltar que seu nobre coração ainda doa o que receber do livro pra ONG O amor agradece, alimentando daquilo que você também faz com maestria, comida pra sustentar. Quem quiser contribuir com qualquer valor e receber o livro em PDF, basta fazer um PIX de no mínimo R$50,00 para 73998421927, enviar o comprovante pro mesmo número sem um nove – 73 98421927 ou acessar aqui. Bença, Pai. Estamos precisando!

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>>>Pai Marcelo é também psiquiatra e conversamos sobre saúde mental no início da pandemia neste texto, além da Tia Lourdes tê-lo entrevistado pros Relatos da Pandemia, sobre a superação do COVID, na TV GGN no YouTube.

1 Comentário

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Maria Otilia Bocchini

- 2022-02-02 06:48:09

Que belo texto, Mariana. Muito alentador para quem hoje tem que lidar com as perdas, de si, de outros, já completas, ou anunciadas, ou temidas. Te agradeço

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