5 de junho de 2026

Cartas a uma desconhecida – parte I, por Maíra Vasconcelos

Essa breve prosa da costureira Margot, que escreve cartas endereçadas à vida, enquanto trabalha em casa e seu amor a espera para jantar

Cartas a uma desconhecida – parte I

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por Maíra Vasconcelos

Aquela casa dos meus passos únicos:
era apenas eu mesma buscando a beleza.

No princípio deste ano, publiquei um fragmento de “Cartas a uma desconhecida”. Escrito em 2019, até então, essa prosa poética permanecia na gaveta. Achei que pudessem compor um livro, mas decidi publicar as Cartas, aos poucos, aqui no Jornal GGN. Essa breve prosa da costureira Margot, que escreve cartas endereçadas à vida, enquanto trabalha em casa e seu amor a espera para jantar ou está ocupado com qualquer outro afazer doméstico. Quem sabe, essas cartas conseguem dialogar com alguns leitores, talvez essas cartas estejam próximas de outros além de mim mesma, como se tivessem sido escritas também por quem as lê. E isso eu só saberia disponibilizando os textos e deixando-os à espera da leitura.

Até a próxima carta. Boa leitura.

*

Cartas a uma desconhecida

Cara vida,
sua presença me é bastante importante. Digo, essa presença com a qual posso agora dialogar. Não para dar demasiadas satisfações. Confissões também não me apetecem. Não pretendo dar prova de virtudes ou fracassos. Elaborações engenhosas e filosóficas, muito menos. Sou apenas essa que, nas horas vagas de trabalho, escrevo cartas. Primeiro, costuro as encomendas do dia. Depois, tento conversar um pouco através das cartas. Sim. Cartas apenas para o que é vívido. Eu sou vívida, você é vívido, ele é vívido, nós somos vívidas. O importante e necessário é que seja algo relativo à vida. Afinal, a quem mais devemos nos dirigir. Tentarei também falar um pouco sobre a vida de costureira. As minhas clientes estão sempre satisfeitas e fora de moda.

*

Poderia afirmar que a vida aqui está muito difícil. Recebi suas rosas e cheiros e permaneci imóvel. Ao menos, aparentemente. Mas não foi por falta de sentir ou amar. As coisas aqui estão bem custosas. Gostaria de avisar que perdi outra casa. Sabe aquele papo da casa inapropriada. Dormia feliz porque queria. Nunca tinha ninguém ao meu lado. Mas eu era feliz. Sim. Margot, você é muito cômoda, pare de esticar as pernas como um gato. Isso não é uma casa. Isso não vai dar em boa coisa. Endireite-se. Dizia a mim mesma enquanto bocejava. E, olha, deu no que deu. Com o tempo entendi. Isso tudo é assim quando se tem um olhar cinza. Não pude negar essa dormência nos olhos.

É isso. Às vezes, apenas não se responde a tudo. Nem mesmo às belezas. Infelizmente, acontece. Mesmo sendo cada beleza a própria vida. Coitado de quem não sente. A única forma de se manter o corpo na vida é através da beleza. Sabe aquela parte em que Borges conferencista diz sobre a beleza. É isso. É o único que sei desse contista magnífico. Nunca li nada dele. Mas gosto de repetir, todos os dias, essa maravilha da beleza borgiana. É importante responder à vida e à beleza. Mas quando utilizo esse critério fico em dúvida sobre o teor de minha própria vida. Por isso, talvez tenha vivido menos, nos últimos anos. Talvez, um pouco tomada pelo olhar cinza. Mas não estou tão certa disso. A única certeza, por enquanto, é que perdi outra casa.

Agora tenho essa mudança toda para carregar. E, possivelmente, faça tudo isso sozinha. Digo, toda essa mudança. Talvez, por isso, escrevo cartas. Sim. Porque agora tenho que me despedir de todas aquelas casas. Todas construídas apenas no interior de mim. Talvez seja o costume da introspecção. Atitude estranha essa de guardar as coisas dentro da gente. Vivo introspectando. Isso de ficar guardando até perceberem tudo apenas com um olhar. Viver sem palavras. Que alívio. Mas, imagine, assim ninguém nunca irá perceber nada. Mas ter que se expor o tempo inteiro é extremamente cansativo. Sempre esperei que se pudesse ler através do olhar. Isso deve ser um sonho de comunicação. Mas ninguém me olha com tanta frequência. Estou sempre muito ocupada com a costura. Preciso manter minhas clientes fora de moda. Dá muito trabalho costurar com tantas cores e recortes.

Talvez tenha vivido menos, nos últimos anos. Recebi suas rosas e cheiros e permaneci imóvel. Ao menos, aparentemente. As respostas que tenho dado são muito sutis. Não sei se funcionam para a vida. O amor, por exemplo, é feroz. Vi e recebi muito bem as suas rosas. Não se esqueça de que sempre olho as flores. Vou colocar outra rosa na sala. Uma rosa selvagem. Nada de virgem e maria. Uma rosa indócil. Uma rosa que se esqueceu da pureza e da honra. Simplesmente porque combina com o ambiente. E isso pode ser como indicar um estado de segredo. Como na antiguidade. Fica mais bonito assim. Estamos sempre em segredo por alguma razão. Veja as rosas. Estão segredando. Aliás, eu deveria ter ainda mais rosas. Ou, talvez, não. Porque poderia considerar as rosas como sendo uma casa. Eis que perderia outra casa. 

Então, é necessário responder à vida. Não se trata do eu ou de mim. Trata-se da vida, necessariamente. E as respostas que tenho dado são muito sutis. Respostas tão delicadas que nem eu mesma tenho conseguido agarrar. Escapam. Explodem no ar. Feito coisa finita e vaga. Mas acontece. Vida, vida. Respondi. Você que não viu nem escutou. Mas eu disse sim à beleza. As respostas piscam dentro de mim como pássaros desavisados do clima. Ah. Vou contar uma história.

No dia que falei igual pássaro, todos riram de gargalhar. Margot, burrinha, ainda não entendeu que pássaro não fala. Fiz uma voz fininha e afetada. Imagine, os pássaros na guerra não vivem as estações. Apenas há fumaça em seus olhos. Falo da guerra por causa do meu avô. Não entrarei em detalhes, ao menos por enquanto. Então, não pude descrever os olhos de um pássaro no fronte. Estava tudo cinza demais. Naquela época, não entendia como buscar a beleza. Disse apenas alguma coisa pouco sábia e estranha para uma menina de oito anos. Todos riram. Perguntei a eles. Alguém sabe quem foi o primeiro escritor a dar voz aos pássaros. Aí, sim, ficaram todos surpresos. Eu, burrinha, falando de literatura. Todos simplesmente se esquecem que existe a imaginação. Burrinhos, eles, burrinhos. Eu teria dito de volta.

Depois, mais uma vez, recebi suas rosas e cheiros e permaneci imóvel. Ao menos, aparentemente. Mas é preciso responder. As respostas de que falo são as respostas à vida. Não se esqueçam. À própria vida, quero dizer. A vida de cada um. Caso ainda não tenham percebido, falo da vida. E para a vida. Sempre e repetidamente. Principalmente, repetidamente. As respostas passeiam em mim como um monte de asas soltas. Tento descrever isso que fica guardado. Como as casas que perdi, preciso contá-las. Devo voltar a esse assunto. Dizer o interior. Verei se é possível. Em toda carta acredito piamente que isso é possível. A cada tentativa vem aquele medo de ser chamada de burrinha. E vem aquela vontade de fingir voz de pássaro. Todos podem achar um absurdo alguém querer ter voz de pássaro. E voz de gente, ao mesmo tempo. Como aqueles pássaros da infância. Essas vozes que se encaixam bem em qualquer imaginação. Vivo introspectando.

Margot, Margot, o dia lá fora está lindíssimo. Venha ver. Claro que fui. Sempre fui quando me chamaram com entusiasmo. Com o tempo aprendi a ir sempre de mãos dadas com o tempo presente. Ou com a paixão. Se tempo presente e paixão são a mesma coisa. Eu e minha ideia fixa em buscar beleza e dizer sim. Ninguém fica impassível a rosas e cheiros. Nem mesmo um olhar cinza. Ao menos, aparentemente. Talvez tenha vivido menos, nos últimos anos. Ou também todo o contrário. Apenas porque vi casas onde não tinha. Agora sinto as intempéries, essas que as escrevo para a vida. Vida, sinto-me impelida a extrair de mim o que não se vê.

Pois tudo é aparentemente até surgir uma pergunta vinda de fora. Aí é quando a aparência cai pequenininha estatelada no chão. Já fiz cada pergunta de fazer desabar o mundo do outro. Afinal, tudo era apenas aparência. Daí que ficou sem nada. Essa pobreza comum da vida. E tudo é aparentemente até surgir uma pergunta vinda de fora. Todo esse lado de fora que busca o guardado de mim. Margot, por que você acha que pode falar como um pássaro? Porque já vi muitos pássaros morrerem na gaiola e o barulho é como a vida explodindo. Desde criança, sempre achei que isso deveria ser dito às pessoas. Por isso, quis fazer voz de pássaro. Acho que me equivoquei. Ninguém nunca quis pensar em pássaros. Infelizmente, acontece.

Bem naquele momento, em que parecia estar imóvel diante de ti. Muitas coisas e cores se agitavam em mim. Aparentemente. Mas ainda assim há tudo o que você não viu. Acho que ninguém vê certas coisas. Como a vida acontecendo no silêncio. Como eu mesma, que estive no silêncio por mais de 20 anos. Ninguém via.  A ideia de tempo pode ser sempre uma sabotagem. O silêncio sem forma é muito triste. Depois, é bonito demais. Quando se dá forma ao silêncio. É a beleza. Escrever cartas é dar forma ao silêncio. É como uma mobilidade que pulsa dentro e fala como animal prestes a sair do ninho. Gosto de falar sobre animais. Percebam. Sempre gostei muito dos animais. Sempre desejei colocar fala nos animais. É uma mania que vem desde sempre. Ou alguma coisa parecida ao que desconhecemos um pouco e buscamos. Em nós mesmos. Porque existe a curiosidade pelo interior de si. Como o interior de uma casa ou de um animal. É comum a gente querer se moldar em outras coisas do mundo. Colocar o exterior dentro da gente. Como se assim a introspecção diminuísse. Mas não diminui.

Cadê você, Margot?
Já vou, estou indo.

Lembrar da infância e tê-la como uma imagem, enquanto o amor está na cozinha. Isso faz um bem danado. Isso é como ser feliz. Enquanto existimos no silêncio, alguém nos espera. Porque somente no amor há esse cuidado silencioso e estrondoso. Enquanto moldo melhor as palavras que só podem vir trabalhadas pelo silêncio. Ele me espera. Porque é bom crescer junto, parece que a gente precisa subtrair alguma parte de nós mesmos. Amar é como perder algumas casas. Perder é algo que não me importa. Mas escrevo porque quero guardar o impossível de tudo aquilo que se esvai com a vida. Ele está na cozinha, devo terminar mais uma ou duas peças de roupa. Depois esquecer as minhas próprias vestimentas. Todas, uma por uma.

*

Maíra Vasconcelos é jornalista e poeta, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN, desde 2012. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Tem publicado os livros de poemas, “Um quarto que fala” (Urutau, 2018), “Algumas ideias para filmes de terror” (Ed. 7 Letras, 2022), e também a plaquete, “O livro dos outros – poemas dedicados à leitura” (Oficios Terrestres, 2021).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos – jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

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