Cartas a uma desconhecida – parte II
por Maíra Vasconcelos
Como dito na publicação passada, essa é, então, a segunda parte de “Cartas a uma desconhecida”.
Boa leitura. Até semana que vem.
*
Falo de outras reminiscências da vida. Tenho falado pouco da vida de costureira. A curiosidade pelo interior de si mesmo ocupa muito tempo. Esse interno, como o interior de uma casa ou de um animal. Apenas isso tudo. Por exemplo, duas pessoas moram na mesma casa, embora vivam em casas tão diferentes. A casa pode até ser a mesma. O coração, não. Então é o coração que faz a diferença. Assim, duas pessoas que moram na mesma casa vivem espaços diferentes. Disse isso a uma professora do primário. Ela ficou estarrecida com a conclusão demasiado lógica. Desde então, tudo foi ficando lógico e lúcido demais. Sempre fui muito boa em olhar com distância. O olhar cinza pode ser útil.
Cadê você, Margot?
Estou aqui. Estou em casa, meu amor.
Desde às oito da manhã do dia anterior, fazendo a mesma coisa de sempre.
Não paro de costurar. Estar fora de moda dá muito trabalho.
Você que não viu nem escutou. Eu disse sim à beleza. Ao menos, aparentemente. E tudo é aparentemente até surgir uma pergunta vinda de fora. A vida aqui está muito dura. Quando achei que estava melhorando, perdi. Não falo apenas de alguns móveis. Falo de uma casa inteirinha. Mas não é que a perdi. Não falo propriamente de uma derrota inteira e acabada. É somente a vida e suas circunstâncias. Então, se você nasce na Sibéria, você não será o mesmo se nascer na China, na França ou na República do Congo. Fico aqui pensando assim porque costurar faz isso comigo. Só cabe o silêncio entre a roupa dessa gente toda.
São as circunstâncias que me fazem ser o que sou agora. Ao menos, até agora. Por exemplo, se não tivesse protestado, não estaria tão cansada. Veja, essa é a parte mais importante, talvez. Você escolhe lutar por uma determinada vida e se cansa mais do que os outros. Quando queria falar igual passarinho, ainda não tinha passado por essa decisão de vida. Era muito bom querer falar como passarinho sem saber que isso era como o corpo em posição de luta. Assim eu marchava, desde menina. E tudo se resume em: eu buscava mais amor. Talvez, essa carta seja apenas mais uma posição do corpo rumo ao protesto. Talvez, seja apenas isso. Escrever cartas à vida é um modo de reivindicar o amor.
E essa história de falar como passarinho. Dar palavras a quem não as tem. Isso virou mania, essa coisa de animal. Continuo acreditando que os pássaros precisam ser traduzidos. Ao menos também evitaria essa matança. Coisa da qual não posso nem me lembrar. Tudo se mata, nos dias de hoje. Os rios também. A honra e a dignidade de cada um, e sobre isso nem se fala mais. A questão é perguntar o que tem permanecido vivo. Veja só. O difícil é agarrar a vida. Quem quiser pode sempre tentar. Afinal de contas, a vida está sempre à nossa disposição. Comecemos pela beleza.
Aquele beija-flor que cuidei até que ele morresse era a minha vontade absoluta de agarrar a vida. Ou ele morreu bem antes e eu pouco percebi. Ou queria tanto que ele estivesse vivo, que cuidei dele mortinho fingindo para mim mesma que o beija-flor vivia. Por vários dias, eu cuidava apenas do seu pequeno cadáver. Supostamente, não percebia que ele já estava morto. Mas o importante é que todos esses voos têm a ver com a beleza. Fiz o velório do beija-flor na caixinha. Acho que no Tibete é assim: lá tem o que chamam de enterro celestial. O corpo é levado para o alto de uma montanha, onde é comido por aves de rapina. Isso pode ser algo muito bonito. Os rituais para o corpo que fenece. Acho que cantei para o beija-flor. Suas asas fincadas com um alfinete. Todas as asas dentro daquela bonita caixinha. Isso que parece conter beleza e tristeza. Ao menos, aparentemente.
Porque renascer é simplesmente ver que se ficou trincada. Esse aspecto de quem diz, já passei por sustos imensos na vida. Digo sustos para que seja ameno e relaxado. Ainda bem, existe a beleza. A beleza sempre irá interromper qualquer memória de sofrimento. É necessário esquecer a maior parte do tempo. Para dizer, estou presente e te abraço. Adoro nossos jantares e nossa vida juntos. Mas para isso, é necessário esquecer.
Enquanto recebia de ti as mais modestas satisfações de carinho. Sempre um pouco safado, ainda bem. Mas mesmo assim tinha um aspecto imóvel em mim. Disso me desfiz à medida que me aliava ao seu corpo. Um corpo conduz ao outro, uma dança muito bonita. Simplesmente porque usar o corpo é também fugir da realidade. Não me lembro o que me impedia. Se era um armário ou qualquer outro artefato fixamente material e tedioso. Ai, como sou materialista. E tudo isso talvez seja apenas a casa que perdi. Ou devo confessar, mas disse que não faria confissões. A casa sempre esteve perdida em mim. E fiz valer no corpo. Sim, acho que nasci perdida da casa. Ao menos, aparentemente. E tudo é aparentemente até surgir uma pergunta vinda de fora.
Margot, preciso que confirme sua presença no aniversário de papai.
Estão todos nos esperando, como todos os anos.
Assim, enquanto recebo carinho, também percebo a casa perdida de mim. As casas de 50 anos. Enquanto recebo de ti as mais modestas satisfações de carinho. Recebi suas rosas e cheiros e permaneci imóvel. Ao menos, aparentemente. A vida aqui está muito dura. Quando achei que melhorava, perdi. Mas ninguém vive sem casa. Então, me apoderei da casa na pele. Ou alguma coisa nesse sentido. A casa na fala. A casa nas palavras, por exemplo. A casa enquanto costuro. Assim se entende perfeitamente, não é mesmo? Acho que sou bem clara ao falar sobre a própria vida.
Um dia me disseram: a casa não pode ser feita de costuras, Margot. Onde você esteve com a cabeça. Nesse momento, vi se esvair a casa que morou em mim por 50 anos. Tinha mesmo que me desfazer. Mas doeu. Desabei do vigésimo quinto andar dos meus olhos cinzas até uma pequena consciência estalada no chão dessa casa que não mais existe. Foi assim. Disseram que a casa não pode ser na pele. A casa não pode estar no corpo. Nem na fala. Nem nas palavras. Nunca uma casa de pássaro. Meio a céu aberto. Meio de vento. Entradas e saídas facilitadas.
Tudo foi assim indo embora. Por isso, é necessário falar à vida. A questão é perguntar o que tem permanecido vivo. Também é preciso ter móveis, paredes, cadeiras, cama. Concretude. Lentamente a minha crença da casa foi refutada. Cada dia. As coisas então foram ficando muito difíceis. Cada vez mais. Perdi uma casa atrás da outra. Aquela que estava nas palavras não era uma casa. Aquela casa dos olhos não era uma casa. E aquela casa dos meus passos únicos: era apenas eu mesma buscando a beleza.
*
Talvez tenha vivido menos, nos últimos anos. Costuro tão calada. E assim devo continuar. Ficava sonhando com a inocência livre dos animais. Nada disso vale. Nada. Tudo vagueação de uma casa que era minha e a perdi. Uma casa de 50 anos, veja só. Ou uma casa que, obviamente, jamais existiu além da minha imaginação. Feita no silêncio de cada costura. Como disse. Vivo introspectando.
Cadê você, Margot?
Estou aqui, estou em casa. Desde às oito da manhã do dia anterior.
Trabalhando muito.
Mas Margot, vieram entregar o boleto sobre a reforma do edifício.
Bárbara disse que tocou, tocou, e ninguém respondeu.
Você não estava aqui?
Ele que não me deixa em paz. Vive desfazendo a minha casa. Por isso, é amor. Vida, gostaria que essa carta não tivesse fim. Posso escrever agora outra carta para a mulher que perdeu uma casa fixada na língua. Também no corpo todo. Como se isso valesse. Muitas pessoas moraram comigo, frequentaram também esses hábitos solitários. Cheiraram meu corpo cheio de vida nos buracos, nas juntas, nas casquinhas também. Mesmo adulta, fico dizendo coisas encantadoras na cama. Como se só existisse o encantado. Mas, vida, precisei entender que é necessário buscar um lugar bonito para morrer. Nossa melhor relação é com o entendimento do fim. Fazer o fim ser bonito. Aquela coisa da beleza. Mesmo que seja utópico. Isso não vem ao caso quando escrevo cartas.
Devo explicações apenas à vida. Isso é o mesmo que responder à beleza. Repetir para fixar. Fixar o que deve me acompanhar até o fim. Já estou com 65 anos de costura. Não sei de onde tirei a malfadada ideia de repetir o trabalho de minha mãe. Por isso, respondo sempre quando ele me chama. Margot, cadê você. Ele pode me fazer esquecer as casas que inventava para acalmar os olhos. Esquecer é muito importante.
Maíra Vasconcelos é jornalista e poeta, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN, desde 2012. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Tem publicado os livros de poemas, “Um quarto que fala” (Urutau, 2018), “Algumas ideias para filmes de terror” (Ed. 7 Letras, 2022), e também a plaquete, “O livro dos outros – poemas dedicados à leitura” (Oficios Terrestres, 2021).
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